EFE/Kena Betancur
EFE/Kena Betancur

Com dinheiro de 'Chapo', festa da Barbie causa revolta no México 

Filhas gêmeas de traficante preso nos EUA ganham aniversário de luxo

Kyle Swenson – The Washington Post, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2018 | 05h00

Era tudo cor-de-rosa: flores, balões, almofadas, o bolo de três andares, os números 7 recortados, o algodão-doce e os bifes malpassados.

Crianças corriam entre um parque de diversões e o grande salão róseo, com música pop latina bombando no fundo. Silhuetas em tamanho natural da boneca de Barbie dominavam a concorrida festa que uma orgulhosa mãe de cabelos negros e saltos altíssimos, ex-rainha da beleza, deu para as filhas gêmeas que faziam 7 anos, em Culiacán, cidade do Estado de Sinaloa, região norte do México. Uma festa “#barbiestyle”, diziam as legendas das imagens postadas no Instagram.

Normalmente, uma festa de aniversário de criança, mesmo muito extravagante, não atrairia a atenção internacional. Mas a festeira não era só mais uma mãe coruja rica: era Emma Coronel Aispuro, mulher de Joaquín “El Chapo” Guzmán, chefão do cartel de Sinaloa, o maior nome recente do tráfico mundial de drogas.

A festa não só atiçou a curiosidade da mídia social, mas provocou reações indignadas. Guzmán, que aguarda julgamento numa prisão dos Estados Unidos, é acusado de ter chefiado um império do tráfico que movimentou bilhões de dólares e controlava quase totalmente o fornecimento de narcóticos para os EUA.

Em seu sangrento reinado, El Chapo deixou para trás uma montanha de cadáveres.

Agora, enquanto ele mofa na cadeia, a mulher dá festas com o dinheiro sangrento. “Você sabe que isso não seria possível sem sabe Deus quantas mortes no México, não sabe?”, comentou alguém num post, referindo-se às imagens da festa de Emma.  

A exibição de riqueza deve ter sido igualmente frustrante para os Estados Unidos. Embora o Departamento de Justiça tenha entrado com a documentação para confiscar os alegados US$ 14 bilhões de bens de El Chapo, nada ainda foi recuperado da fortuna do narcotraficante.  

O romance entre Guzmán e Emma Coronel começou em Sinaloa, onde as proezas criminais de El Chapo fizeram dele um herói popular. Segundo o site noticioso Daily Beast, Emma candidatou-se, aos 17 anos, num concurso de beleza em La Angostura. Como é costume nessas ocasiões, a candidata deu uma festa, em 6 de janeiro de 2007. Daily Beast informou que, enquanto a festa esquentava, homens armados espalharam-se pela cidade e aviões aterrissaram no aeroporto local trazendo ainda mais pistoleiros - e o próprio Guzmán.  

No meio da festa, Emma anunciou que ela e El Chapo iam se casar em 2 de julho, quando ela faria 18 anos. O chefão e seu exército particular partiram na manhã seguinte, mas ele voltou um mês depois, quando Emma venceu o concurso. Os dois se casaram conforme estava planejado, mas desapareceram antes da chegada à cidade de um destacamento do Exército mexicano que tinha ordens de capturar o traficante fugitivo. 

 “Ele me cativou com seu jeito de falar, com o modo de me tratar, com sua amizade”, contou Emma ao Los Angeles Times numa rara entrevista, em 2016. “Ele conquista a todos por ser como é, por seu jeito de tratar bem as pessoas.”  

Emma descreveu seu casamento com Guzmán, 32 anos mais velho que ela, como uma sucessão de encontros secretos e longas separações, enquanto o narcotraficante tentava fugir das autoridades mexicanas. Ela negou que o marido fosse um assassino sanguinário.  

“Ele não é violento nem rude”, disse ela ao LAT. “Nunca o ouvi dizer um palavrão. Nunca o vi irritar-se com alguém.”  

Emma Coronel nasceu nos Estados Unidos e foi criada no México. Em 2011, quando deu à luz as gêmeas, viajou para Los Angeles para o parto. 

As garotas nasceram com cidadania americana, apesar de o pai ser procurado pela Justiça dos Estados Unidos.  O fato de Guzmán estar preso não impediu a “festa Barbie” das gêmeas. Mas a reação da mídia social com o desfrute pela família dos despojos do narcotraficanate tem sido dura.  

“Fui atacado pela mídia”, queixou-se ao LAT Antonio Tizoc, profissional que fotografou a festa e postou fotos online. “Mas aqui em Culiacán festas como essa são normais. Ricos ou pobres, nós gostamos de uma festança.” /  TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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