Com discurso, presidente americano tenta se recompor

Fala de Donald Trump foi tentativa de se afirmar como negociador de centro e voltar a prometer às pessoas aquilo que elas realmente desejam

Ross Douthat, The New York Times

01 Fevereiro 2018 | 05h00

A história do primeiro ano de Donald Trump à frente do governo é simples: o populista foi substituído por um presidente que cedeu o controle de sua agenda para os líderes do partido e desperdiçou seu limitado capital político com medidas de direita, mal sucedidas no caso da assistência médica, e com sucesso no campo tributário, mas sem muito apoio bipartidário ou de moderados em ambos os casos.

São muitas as razões pelas quais Trump proferiu seu primeiro discurso sobre o Estado da União como um presidente impopular, apesar de uma economia forte. Em primeiro lugar está o fato de ele não ter cumprido suas promessas populistas de campanha. Por isso, devemos entender seu discurso na noite de terça-feira feira como uma tentativa de se afirmar como um negociador de centro, não um ideólogo previsível, deixar as disputas legislativas para trás e voltar a prometer para as pessoas aquilo que elas realmente desejam.

Assim, quando elogiou os cortes de impostos, Trump acabou com o sonho de revogar o Obamacare, sugerindo que o fim da obrigatoriedade de todo cidadão adquirir um plano de saúde (aprovada no Congresso) já era suficiente. Ele não disse nada sobre redução do déficit, cortes de gastos ou de programas sociais. O conservadorismo do discurso foi forte no campo das generalidades, discorrendo sobre a bandeira dos EUA, a fé e a família.

Salvo o Estado Islâmico, Coreia do Norte e Guantánamo, a política externa foi vazia. Ao que parece, o slogan América em primeiro lugar significa não ter de entediar os telespectadores levantando assuntos sobre o mundo, exceto sobre os inimigos. Sobre política interna, ele expôs uma lista de ideias que Bernie Sanders pode usar em sua campanha em 2020: remédios mais baratos, um gasto de US$ 1,5 trilhão em infraestrutura e a promessa de financiar a licença-maternidade. Não são noções conservadoras, mas populares.

Aprovação

O discurso foi eficaz e pode elevar temporariamente a taxa de aprovação de Trump, que hoje está em 38%, podendo alcançar os 44%. Mas um discurso eficaz não é a mesma coisa que um programa de governo eficaz e, neste momento, não existe nenhuma perspectiva de as ideias de Trump serem aprovadas no Congresso. Os ideólogos de seu partido não querem e a oposição não está disposta a nenhum acordo. 

Além disso, a Casa Branca não oferece detalhes além da retórica. As ideias são apenas de coisas que o presidente provavelmente deseja fazer, mas das quais alguém o dissuadirá, ele acabará esquecendo ou propondo sem muito entusiasmo, e o Congresso jamais se preocupará em discutir.

A exceção é a reforma da lei de imigração. Mas, neste caso, o apelo é para o Congresso aprovar uma legislação que legalize os jovens que foram levados aos EUA ainda crianças em troca da redução do número total de imigrantes – proposta que foi prejudicada pelo fato de ele ter misturado imigração e crime no discurso.

No caso dos políticos democratas, cuja base não deseja nenhum compromisso e cujo interesse político não será atendido por nenhum tipo de compromisso nesse campo, por que eles farão um acordo com um presidente que fala como se metade da população imigrante fosse formada por gangues de rua? 

Assim, este discurso sobre o Estado da União mostrou o que seria uma versão mais auspiciosa do governo Trump – ainda conservadora em muitas frentes, mas mais autenticamente populista e menos republicana no velho estilo – , pois a possibilidade de sucesso provavelmente já fugiu do controle deste governo. 

Ideias foram ventiladas no discurso, mas não existe plano real para transformá-las em lei, nenhum sinal de que Trump está preparado para construir pontes onde as incinerou, nenhum plano para tornar este discurso mais do que um salto nas pesquisas. Pelo contrário, o lema agora é: “se a economia vai bem, você deveria gostar de mim”. Políticos conseguiram se reeleger com esse tipo de mensagem. Mas poucos tiveram de avançar tanto para obter uma mera simpatia, como é o caso de Trump. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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