JOE KLAMAR / AFP
JOE KLAMAR / AFP

Com divergência entre Irã e EUA sobre acordo, ONU alerta que inspeções não são 'moeda de troca'

Iranianos restringiram acesso de inspetores a algumas regiões no mês passado sob o argumento de não ter recompensas econômicas em troca de restrições no programa nuclear

Redação, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2021 | 14h00

BERLIM - O chefe da agência de vigilância nuclear das Nações Unidas pediu nesta segunda-feira, 1º, que as inspeções não sejam usadas como uma "moeda de troca", já que Irã, Estados Unidos e outras nações discutem sobre como reviver seu acordo nuclear. O chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, apelou a todos os lados para se engajarem em "discussões construtivas" na reunião do conselho de 35 membros da agência com sede em Viena nesta segunda.

A reunião acontece depois que o Irã promulgou uma lei no final do mês passado que restringiu o acesso automático de inspetores a alguns locais, já que Teerã reclama que não está colhendo as recompensas econômicas prometidas em troca de restrições ao seu programa nuclear.

Sem o trabalho dos inspetores, “você não sabe se consegue dormir bem ou se fica muito preocupado à noite”, disse Grossi. “O trabalho de inspeção da AIEA não deve ser colocado em uma mesa de negociações como moeda de troca.”

A reunião da diretoria da AIEA ocorre em meio a novas tentativas diplomáticas para reviver o acordo nuclear antes das eleições iranianas no final deste ano, que poderiam levar a um governo mais linha-dura e menos aberto a negociações.

O Irã disse no domingo que rejeitaria uma reunião antecipada com os Estados Unidos e signatários europeus do acordo nuclear por causa de suas "recentes posições e ações". No entanto, as autoridades ocidentais disseram que a resposta privada do Irã foi mais “matizada” e buscou garantias de que as negociações se limitariam ao acordo nuclear.

Teerã afirma que o governo de Joe Biden deve voltar aos termos do acordo nuclear que os Estados Unidos encerraram em 2018, impondo sanções ao Irã em uma campanha de “pressão máxima”. Incapaz de colher os benefícios econômicos do acordo que restringiu seu programa nuclear, o Irã, por sua vez, violou os termos e voltou a enriquecer urânio.

Um relatório da Agência Internacional de Energia Atômica publicado no mês passado revelou que o Irã informou que começou a trabalhar em equipamentos necessários para produzir urânio metálico, que pode ser usado para desenvolver ogivas nucleares.

Além disso, aumentou a quantidade e a qualidade do enriquecimento de urânio. Reino Unido, Alemanha e França encaminharam um projeto de resolução aos Estados membros que censurariam o Irã por reduzir sua cooperação com a agência nuclear, de acordo com um projeto obtido pela Reuters.

O projeto, apoiado pelos Estados Unidos, expressou “séria preocupação” com a redução do Irã na transparência e descontentamento com a falta de explicação de Teerã sobre as partículas de urânio descobertas em três lugares antigos, informou a agência de notícias.

A agência e o Irã concordaram na semana passada com medidas temporárias que Grossi disse esperar que ampliem a janela para a diplomacia. Segundo esse acordo, o Irã manterá as imagens dos locais por três meses e as liberará se as sanções forem removidas. Mesmo assim, a impossibilidade de os inspetores visitarem locais não declarados, como fariam no contexto do acordo nuclear, é uma “grande perda”, disse Grossi. / W. Post e AP

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