Jonathan Ernst/Reuters
Jonathan Ernst/Reuters

Com dois assessores infectados, Trump enfrenta vírus dentro da Casa Branca

Assistente do presidente e porta-voz do vice têm diagnóstico positivo para a covid-19; com os resultados, Mike Pence e as três principais autoridades da força-tarefa do governo contra o coronavírus adotam o autoisolamento

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2020 | 05h00

WASHINGTON - O governo Trump corre para conter um surto de covid-19 dentro da Casa Branca, com algumas autoridades já acreditando que a doença está se espalhando rapidamente em meio à multidão de pessoas que trabalha nos escritórios apertados que compõem os três andares da ala oeste do prédio. Ontem, o vice-presidente, Mike Pence, decidiu fazer um autoisolamento – a porta-voz dele, Katie Miller, foi diagnosticada com o novo coronavírus na sexta-feira.

No final de semana, três altas autoridades que lideram a equipe do governo que traça estratégias no combate ao coronavírus iniciaram duas semanas de autoisolamento depois do teste de dois membros da equipe da Casa Branca dar positivo para a doença – além da porta-voz de Pence, um assessor pessoal de Trump também foi diagnosticado com covid-19.

Entre os funcionários que agora se isolaram está o epidemiologista Anthony Fauci, que assessora o presidente Trump nas decisões sobre a epidemia.

No entanto, outros servidores públicos que entraram em contato com Miller e o assistente de Trump continuam trabalhando no local. “É assustador ir para o trabalho”, disse Kevin Hassett, um dos principais assessores econômicos do presidente, no programa Face the Nation, da CBS, ontem.

Na TV, Hassett disse que, de vez em quando, usa máscara de proteção, mas admitiu que consideraria que “seria muito mais seguro se estivesse sentado em casa do que na ala oeste (da Casa Branca)”. “É um lugar pequeno e cheio de gente. É um pouco arriscado, mas você precisa fazer isso porque precisa servir seu país”, afirmou.

A descoberta dos dois funcionários infectados levou a Casa Branca a acelerar seus procedimentos para combater o vírus, pedindo que mais servidores trabalhem em casa, aumentando o uso de máscaras e examinando com mais rigor as pessoas que entram no complexo.

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A preocupação com um surto da covid-19 na sede do governo expõe um desafio mais amplo para os americanos, pois Trump tem defendido que os americanos voltem aos seus locais de trabalho, apesar das advertências das autoridades de saúde pública de que o vírus continua a devastar comunidades por todo o país, que tinha mais de 1,3 milhão de casos e 80,7 mil mortes até ontem.

A maioria dos restaurantes, escritórios e lojas de varejo não tem a capacidade de testar regularmente todos os seus funcionários e rastrear e colocar em quarentena rapidamente os contatos de quem é infectado. Na Casa Branca, todos os funcionários estão sendo testados pelo menos semanalmente, disseram autoridades, e quem interage regularmente com o presidente é examinado diariamente.

Trump continua a rejeitar as orientações dos Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) para usar uma máscara ao se reunir com grupos de pessoas. Um alto funcionário do governo, porém, disse que o presidente ficou assustado porque seu assessor, que está entre aqueles que lhe servem comida, não usava máscara. Ele ainda teria ficado chateado ao saber que Miller está doente e, agora, tem se irritado com as pessoas que se aproximam demais dele. Como outros membros da equipe da Casa Branca, a porta-voz de Pence também não usava máscara regularmente no trabalho.

Dois altos funcionários do governo disseram que não havia planos de manter Trump e Pence separados por causa da preocupação de que ambos pudessem ser infectados pela covid-19 ao mesmo tempo.

Além de Fauci, outros dois membros mais destacados da força-tarefa contra o coronavírus Robert Redfield, diretor do CDC, Stephen Hahn, chefe da FDA, a agência de controle de remédios e alimentos dos EUA, também resolveram entrar em confinamento.

Redfield e Hahn anunciaram no fim de semana que se “autoprotegeriam” por duas semanas após entrarem em contato com um membro infectado da equipe do presidente. Ambos participaram de uma reunião na semana passada em que Miller estava presente. Os médicos disseram que continuariam participando do esforço de resposta do governo de casa. Já Fauci disse que também iniciou uma “quarentena modificada” e classificou seu contato com um dos infectados como de “baixo risco”.

Agentes do Serviço Secreto que trabalham na Casa Branca agora usam máscaras. As pessoas mais próximas de Trump, incluindo Kayleigh McEnany, secretária de imprensa da Casa Branca, Mark Meadows, chefe de gabinete, e Hope Hicks, consultora sênior, estão sendo testadas para o vírus diariamente.

Conselheiros de Trump pedem reabertura da economia

Dois conselheiros econômicos do presidente Trump defenderam ontem a necessidade de uma rápida reabertura econômica, apesar do fato de a pandemia ainda estar ativa e até ter entrado na Casa Branca. 

Os comentários do secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, e do assessor econômico da presidência, Larry Kudlow, acontecem mesmo com a confirmação de casos de covid-19 entre assessores diretos de Trump e do vice-presidente, Mike Pence, e apesar das rigorosas precauções de saúde tomadas pela Casa Branca.

A recomendação ocorreu dois dias após o registro de um recorde de desemprego, com a perda de 20,5 milhões de postos de trabalho em abril e com os casos do novo o coronavírus ainda aumentando em vários estados. 

O assunto foi amplamente debatido nos noticiários de ontem na televisão americana. Se nessas condições de vigilância sanitária a presidência ficou exposta ao vírus, como um americano comum pode retomar o trabalho sem medo de ser contaminado? 

“A Casa Branca é um contexto enorme, de pelo menos 500 pessoas, provavelmente muito mais”, disse Kudlow à ABC. “Os que deram positivo são apenas uma pequena parte”, insistiu, sem especificar um número. 

Em seguida, ele defendeu a vontade presidencial de “reabrir a economia” para lidar com os números “horríveis” do desemprego. 

“Por que não confiar nas empresas?”, disse Kudlow. “Elas sabem, por seu lado, que as pessoas devem ser protegidas” e, “por outro lado, é necessário reativar o mais rápido possível para enfrentar o problema econômico, a recessão devido à pandemia”, afirmou. 

As recomendações federais e estaduais, aliadas à inovação no setor privado, devem permitir uma reabertura relativamente segura, argumentou Kudlow, embora tenha alertado sobre taxas de desemprego futuras que podem exceder 20% neste mês ou no próximo.

A defesa dos assessores acontece em um momento em que os casos nos EUA aumentam. O Instituto de Medidas e Avaliações em Saúde (IHME), que prepara projeções para o novo coronavírus, elevou nesta semana sua previsão sobre o número de mortes que a pandemia causará nos Estados Unidos. Segundo a estimativa do instituto, haverá 137 mil mortos a partir de 4 de agosto, número que responde a um aumento “explosivo” da mobilidade em vários Estados, de acordo com o diretor do instituto, Christopher Murray. 

A maioria dos estados americanos começou, mesmo que provisoriamente, com a reabertura de empresas e negócios, o que implica inevitavelmente maior deslocamento e maior risco de contágio. / NYT, REUTERS, EFE e AFP

 



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