Markus Schreiber/AP
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Alemanha tem parlamento mais diverso da história, com mulheres trans e imigrantes

País escolheu no último domingo, 26, seus 735 novos representantes

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2021 | 10h00

BERLIM - Hakan Demir sorriu abertamente ao chegar ao majestoso edifício do parlamento alemão nesta terça-feira, 28, seu primeiro dia oficial de trabalho como legislador nacional.

"Meu avô teria muito orgulho de mim, e meus pais também estão orgulhosos'', disse Demir, de 36 anos, tomando um momento para lembrar as raízes de sua família, na Turquia, de onde seu avô veio no início dos anos 1970 como um "trabalhador convidado e não treinado" para ajudar a construir estradas e casas na Alemanha.

Demir, um membro do Partido Social Democrata, de centro-esquerda, é uma das centenas de pessoas de raízes imigrantes que concorreram à Câmara dos Deputados da Alemanha, em eleições que formaram o Bundestag mais diverso e inclusivo da história alemã.

Além de imigrantes, a Câmara agora inclui ao menos três negros - contra um no mandato anterior. O número de legisladoras também aumentou em relação às últimas eleições, e duas mulheres transgênero conquistaram assentos no parlamento.

Entre os imigrantes recém-eleitos está Awet Tesfaiesus, de 47 anos, a primeira mulher negra a servir no parlamento. Tesfaiesus, que fugiu da Eritreia com sua família aos 4 anos de idade, é um membro do Partido Verde e foi eleita para representar a região central de Werra-Meissner.

Outros novos legisladores são Armand Zorn, de 33 anos, que nasceu nos Camarões e veio para a Alemanha aos 12 anos, e Reem Alabali-Radovan, de 31 anos, filha de imigrantes iraquianos, ambos social-democratas.

A nova parlamentar Serap Guler, de 41 anos, do CDU, partido de Angela Merkel, é filha de imigrantes turcos, nascida na Alemanha. Ela atuou nos últimos anos como vice-ministra para a integração no Estado da Renânia do Norte-Vestfália.

A Alemanha Ocidental começou a recrutar "trabalhadores convidados" da Turquia, Itália, Grécia e, mais tarde, do Marrocos, há mais de 60 anos, para ajudar o país a avançar economicamente. Os trabalhadores foram empregados na construção, mineração de carvão, produção de aço e indústria automobilística.

Muitos dos que inicialmente vieram como trabalhadores temporários decidiram ficar e trazer suas famílias, dando a Berlim e outras cidades no oeste e sudoeste da Alemanha grandes comunidades de imigrantes.

“Meu avô veio para a Alemanha porque sua família era simplesmente muito pobre. Ele sempre me disse que quando criança não tinha dinheiro nem para comprar sapatos'', disse Demir, que 50 anos depois foi eleito para representar o distrito berlinense de Neukoelln, um dos bairros de imigrantes mais diversos do país.

Atualmente, existem cerca de 21,3 milhões de pessoas com origens imigrantes na Alemanha, número que representa cerca de 26% da população de 83 milhões.

Duas políticas alemãs também fizeram história ao se tornarem as primeiras mulheres trans eleitas para o parlamento.Tessa Ganserer e Nyke Slawik se candidataram pelo Partido Verde, que ficou em terceiro lugar nas eleições e deve desempenhar um papel central na construção de uma nova coalizão governamental.

"É uma vitória histórica para os Verdes, mas também para o movimento transemancipatório e para toda a comunidade queer", disse Ganserer, de 44 anos, à agência Reuters, acrescentando que os resultados são símbolo de uma sociedade aberta e tolerante.

No topo da lista de prioridades para Ganserer, que foi eleita para o parlamento regional da Baviera em 2013, está um procedimento mais fácil para ratificar mudança de gênero em documentos de identidade. Ganserer, que tem dois filhos, também quer mudanças legislativas para permitir que mães lésbicas adotem crianças.

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Na Alemanha, cargo de chefe de governo não é escolhido em eleição direta, mas por meio de uma votação na Bundestag, a Câmara baixa do Parlamento, depois que um partido ou coalizão conseguir as cadeiras necessárias para formar um governo.

Slawik, de 27 anos, disse que os resultados foram inacreditáveis. Ela garantiu uma cadeira no parlamento por meio da lista de candidatos dos Verdes no Estado da Renânia do Norte-Vestfália."Loucura! Ainda não consigo acreditar, mas com este resultado eleitoral histórico com certeza serei membro do próximo Bundestag", postou Slawik no Instagram.

Slawik pediu um plano de ação nacional contra a homofobia e a transfobia, uma lei de autodeterminação e melhorias na lei federal antidiscriminação.

A homossexualidade foi descriminalizada na Alemanha em 1969 e o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi legalizado em 2017. Mas os crimes de ódio contra pessoas LGBT + aumentaram 36% no ano passado, segundo dados da polícia.

A crescente diversidade na política alemã reflete as demandas da sociedade por uma representação mais precisa de todos, disse o cientista político da Universidade de Trier, Uwe Jun.

"Há mais abertura agora, e a ideia de que diversos grupos devem ser encontrados na política e diretamente representados'', disse Jun à agência Associated Press. "Isso mudará a política. '' /AP e REUTERS

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