Sebastian Castaneda/AFP
Sebastian Castaneda/AFP

Com embate entre Pedro Castillo e Keiko Fujimori, segundo turno ameaça polarizar Peru

Candidata, de 45 anos, defende o livre mercado, enquanto seu adversário, de 51, é favorável a um ativo papel econômico do Estado, incluindo com nacionalizações

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2021 | 18h55

LIMA - O esquerdista Pedro Castillo e a candidata da direita populista Keiko Fujimori se enfrentarão em 6 de junho no segundo turno das eleições presidenciais, que ameaçam polarizar o Peru, afetado por crises políticas recorrentes nos últimos cinco anos.

O professor de escola rural e a filha do ex-presidente Alberto Fujimori, que está preso, lideram, com 19,09% e 13,05% dos votos, respectivamente, o primeiro turno, após a apuração de 96% das cédulas emitidas nas eleições celebradas no domingo, que contou com um recorde de 18 candidatos e nenhum favorito.

O país, em recessão por causa da pandemia e quase ingovernável desde 2016, que contou com três presidentes em cinco dias em novembro, agora se encaminha para um segundo turno entre dois candidatos situados nos extremos do espectro político e que no total tiveram apenas 32% dos votos no primeiro turno.

Keiko, de 45 anos, defende o livre mercado, enquanto Castillo, de 51, é favorável a um ativo papel econômico do Estado, incluindo com nacionalizações.

O professor promete convocar uma Assembleia Constituinte, mas ela defende a Carga Magna vigente, promulgada por seu pai em 1993 e que privilegia o liberalismo econômico.

"Esta é uma competição entre os ricos e os pobres, também uma luta entre o patrão e o peão, e entre o senhor e o escravo", declarou Castillo em sua cidade natal de Cajamarca (norte).

No entanto, os dois candidatos coincidem em alguns temas: ambos são antiaborto, defendem a família tradicional, não dão importância aos direitos da comunidade LGBTI e rejeitam a abordagem de gênero nas escolas.

"O Livro do Gênesis diz que o homem e a mulher são uma só carne. Defendemos a família, que é a célula fundamental da sociedade", disse Castillo em janeiro.

'Dengue ou covid-19'

O analista político Augusto Álvarez Rodrich considera que "os dois candidatos despertam grandes preconceitos na população, que se expressa no antifujimorismo e no anticomunismo".

"Os dois causam reservas da população, mas a democracia estabelece que se deve optar por um deles, o que põe os peruanos em uma encruzilhada. Optar por um parece ser uma escolha entre a dengue e a covid-19", disse o analista à agência France Presse.

Álvarez Rodrich destacou que os dois dizem que vão indultar condenados pela justiça: "Keiko, seu pai, e Castillo, Antauro Humala. Estes são antecedentes muito negativos. No Chile votariam no neto de Augusto Pinochet?".

O pai de Keiko cumpre pena de 25 anos de prisão por crimes contra a humanidade e corrupção. Antauro Humala é um militar nacionalista condenado também a 25 anos por liderar uma rebelião armada em 2005 e é irmão e adversário político do ex-presidente Ollanta Humala.

Além do polêmico legado do pai, Keiko é criticada por ter alimentado a instabilidade com a ferrenha oposição de sua bancada aos presidentes Pedro Pablo Kukzynski e Martín Vizcarra. O primeiro foi forçado a renunciar em 2018 e o segundo, deposto em 2020.

Keiko ainda enfrenta um pedido do Ministério Público de 30 anos de prisão em um próximo julgamento por suspeita de lavagem de dinheiro e outras acusações no âmbito do escândalo da Odebrecht.

Polarização geográfica 

Para o cientista político Carlos Meléndez não só haverá polarização ideológica, mas também geográfica entre Lima e a opulenta costa norte versus "o restante do país andino e rural". 

"Essa polarização, que se expressa territorialmente também vai ser uma polarização na opinião pública", disse Adriana Urrutia, chefe da Associação Civil Transparência.

"É preciso destacar que o Peru é um país profundamente desigual e que as desigualdades se exacerbaram devido à pandemia", acrescentou.

Adversários políticos tentaram ligar Castillo à Venezuela de Nicolás Maduro. No Peru, vivem mais de 1 milhão de venezuelanos que fugiram da crise naquele país.

Castillo também foi acusado de estar vinculado com o braço político do Sendero Luminoso, apesar de ter integrado em Cajamarca as "rondas camponesas" armadas que resistiam às incursões da derrotada guerrilha maoísta.

Vizcarra lidera legislativas 

A contagem de votos nas eleições presidenciais praticamente terminou na terça-feira, mas a passagem dos dois candidatos ao segundo turno deve ser proclamada pelo Juizado Nacional de Eleições, o que será feito em maio, segundo antecipou seu chefe, Jorge Luis Salas.

Ao contrário, a apuração da eleição ao Congresso avança mais lentamente e também é liderada pelos partidos de Castillo (Peru Livre) e de Keiko (Força Popular), com percentuais similares aos recebidos pelos dois.

No entanto, é o ex-presidente Vizcarra que colhe mais votos como candidato ao Congresso e conseguiria a primeira maioria nacional, segundo a imprensa local.

Mas o mesmo Congresso que o destituiu em um julgamento relâmpago se apressa a inabilitá-lo na sexta-feira por dez anos para exercer cargos públicos, acusado de ter se vacinado reservadamente contra a covid-19.

A Missão Eleitoral da OEA destacou "o compromisso cívico" dos peruanos, especialmente "dos adultos idosos ou pessoas com deficiência", que algumas vezes esperaram horas para votar./AFP 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.