Rodrigo Cavalheiro / Estadão
Senadora Lucía e o Fusca de US$ 1 mi Rodrigo Cavalheiro / Estadão

Com fim da era Mujica, Uruguai perde estilo caseiro de governar

Dona da chácara presidencial, senadora garantiu votos para leis lançadas por marido

Rodrigo Cavalheiro ENVIADO ESPECIAL / MONTEVIDÉU, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2014 | 17h39


Escolham os uruguaios o governista Tabaré Vázquez ou o conservador Luis Alberto Lacalle Pou na eleição deste domingo, 30, o próximo a comandar o país será um morador da chácara que José “Pepe” Mujica tornou célebre por acolher personagens pitorescos como uma cadela de três patas, um Fusca azul 1987 e um presidente capaz de recusar US$ 1 milhão por ele.

Esta semana, como ocorreu nos últimos cinco anos, assim que Mujica e seu vice viajarem para o México, a ex-guerrilheira Lucía Topolansky assumirá o cargo. A missão cabe ao parlamentar número 1 do grupo mais votado no Senado. Um sinal de que no Uruguai a “primeira-dama” – inexistente na lei local – tem ascendência direta não só sobre o presidente, mas sobre a própria presidência. Lucía age quando é preciso menos carisma e mais teimosia para levar os projetos da Frente Ampla adiante. “Sou o melhor soldado do presidente”, repete “La Tronca”, apelido ganho pela escassa maleabilidade.

Em duas horas abancada ao lado do poço que abastece o casal, levantando a voz sempre que cigarras e pássaros eram mais ruidosos, a senadora defendeu o legado do marido de disparos da direita, mas também da esquerda. Reforçou os elogios ao governo pelas leis que regulamentam aborto, casamento gay e a maconha. E confessou ter gostado quando The Economist, publicação britânica cultuada pelo mercado, elegeu em 2013 o Uruguai governado por um ex-guerrilheiro tupamaro o país do ano. “Quando fomos elogiados pela revista, não achei que tínhamos feito algo errado. Sabia antes dela que estávamos certos”, afirma.

“Perdi as contas de quantos jornalistas vieram. Centenas vêm falar com Pepe, alguns comigo. Não é um incômodo, mas às vezes perguntam as mesmas coisas”, critica. A comparação com a personalidade do marido é algo repetitivo, a julgar por sua careta ao responder. “Ele diz que sou teimosa. Se gaba de ter marcha ré. Eu não sei se tenho marcha ré”, responde. 

A questão sobre a chance de disputar a presidência é menos frequente. “Terei 75 anos em 2019. Se não fizermos um esforço para renovar, estamos fritos. Tenho que conhecer meus limites, não sou infinita. Não é a situação ideal, mas, se não houver qualquer outro nome, sou mulher de partido”, diz, admitindo ter falado sobre o tema com Mujica. Ela esteve perto de ser vice de Tabaré, de 74 anos, este ano. O posto ficou com Raúl Séndic, de 52 anos. Filho do ex-líder tupamaro homônimo, ele é considerado um nome mais provável para 2019.

Como o presidente chacreiro, que doa 90% do salário e vive com US$ 1,250, a ex-estudante de arquitetura que trocou carreira e família de classe média alta pela guerrilha no fim dos anos 60 abdica de parte da remuneração. “Gasto só em livros”, diz. Ela atribui a popularidade que o estilo franciscano de governo ganhou a um desvio de outros líderes. “Alguns valores se perderam. Nosso modo de vida não deveria parecer tão estranho.” 

Lucía conheceu Pepe na guerrilha. Ela foi presa em 1972. Ele foi detido quatro vezes e fugiu duas – no total, ficou quase 15 anos preso. Quando deixaram a prisão em 1985 e mudaram-se para o Rincón del Cerro, a meia hora do centro de Montevidéu, Mujica tinha uma história mais dura para contar. A mais conhecida são suas longas conversas com ratos nos períodos na solitária. Foi deputado em 2000, senador em 2005 e presidente em 2010.

Fogo amigo. Durante a campanha, o principal flanco de ataque da oposição a Mujica foi a criminalidade. A lei que introduz a produção e venda estatal da maconha é uma tentativa de resposta. A impetuosidade de Lucía foi decisiva em julho de 2013 para aprová-la na Câmara, já que um deputado esquerdista se mantinha indeciso. Pressionado, Darío Pérez votou a favor, depois de ressaltar que a maconha “era uma bosta, com ou sem lei”. Cerca de 60% da população concorda e gostaria de revogar a lei. 

O tema divide correligionários, mas a resistência de um deles é vista com maior preocupação. Tabaré, favorito para reativar a Casa de Suárez –, mansão presidencial que Mujica sugeriu que fosse usada por mendigos em 2012 –, desaprova a venda em farmácias. Esta é principal parte da legislação, que o governo corre para colocar em vigor até março. “É verdade que o novo presidente pode ter mais ou menos vontade. Aprovamos com Mujica a lei do aborto, que Tabaré vetou em seu governo. Mas ainda que quisesse, Tabaré não conseguiria alterar o que aprovamos porque meu grupo (MPP) é maioria no Parlamento”, diz.

Lucía considera hipócritas Estados americanos onde se permite o uso da droga para uso medicinal e a receita é comprada na loja. “Para fazer esta palhaçada, melhor o que estamos fazendo”, diz, irritada. “Gostaríamos que ninguém fumasse maconha. Mas é uma realidade. O único vício bom é o amor”, afirma, desviando o olhar para o barulho que vem da casa. Mujica chega com o trator do trabalho na lavoura. 

Instigada a apontar um defeito no marido, o compara a uma “calderita” que ferve e esfria rapidamente. A espontaneidade que explica a popularidade de Mujica rendeu incontáveis causos e alguns constrangimentos diplomáticos. Há uma semana, chamou o México de Estado falido. Em 2013, disse “esta velha é pior que o caolho”, referindo-se a Cristina e a Néstor Kirchner. A um jornalista japonês impressionado com as manchas de mofo na parede da casa pintada com cal, explicou por que não tinha empregada. “Gosto de ir de cuecas ao banheiro.”

Já são meio-dia de quinta-feira e o presidente dorme. Lucía aceita mostrar a casa. Cochichando, aponta a cozinha, onde Mujica faz o chimarrão e ela, a comida. Exibe a sala com retrato de Che e livros. O banheiro fica fora do único quarto, o que explica a aversão do presidente a empregadas. Pepe cochila com a porta aberta. “Manuela dorme com ele”, explica Lucía, referindo-se à inseparável vira-lata de três patas.

Já fora da casa, ela mostra o bem mais valioso da família. “A vantagem é que pagamos pouco imposto, qualquer mecânico conserta e encontramos peças até em farmácias”, exagera. Há um mês, Mujica disse que um xeque árabe havia oferecido US$ 1 milhão pelo Fusca. “Como nunca passamos de 80 km/h, não precisamos de nada melhor. Além disso, foi presente de amigos. Ele achou que vender algo que ganhou seria uma falta de educação. Está certo.”


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Senadora é contra cotas para mulher

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Rodrigo Cavalheiro - ENVIADO ESPECIAL / MONTEVIDÉU, O Estado de S. Paulo

29 Novembro 2014 | 18h01

Entre as brigas que Lucía Topolansky comprou com as várias legendas que compõem a Frente Ampla, está a lei que de cotas para mulheres na política. Similar à brasileira, ela determina que os partidos reservem 30% de vagas para candidatas. 

“Quero que a mulher seja guerreira, que mereça suas conquistas, pois aí elas não serão mais tiradas. Falam que a mulher rural não pode tal coisa. Ora, a mulher pode ser a que manda no agronegócio, a que manda na indústria, a que manda na política”, sustenta, elevando a voz. “Se me dão um lugar por cotas, já entro em desvantagem.” Sua opinião muda quando o tema são cotas para negros e transexuais, casos que a seu ver envolvem “dívida histórica” e “discriminação cruel”, respectivamente. 

Ela admite que sua visão sobre a paridade com os homens vem do treinamento e da atuação na guerrilha. “Atrás de um 45, não há gênero. Aquilo era um ambiente mais igualitário, tínhamos que comandar ações armadas”, lembra.

No caso da cota para mulheres, seu ponto de vista foi derrotado. Como “melhor soldado”, votou a favor da lei. A lealdade partidária, para ela, é o segredo da sequência de governos de esquerda. “A direita crê que somos uma colcha de retalhos e nos dividiremos. Mas continuamos unidos há 43 anos. As decisões saem por consenso, acima das convicções pessoais”, afirma. 

“Falam que é preciso alternância, mas o Partido Colorado governou 70 anos. Não queriam que nos tornássemos uma força regular para disputar o poder, mas isso já aconteceu. E digo mais, essa eleição está ganha.”

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