Rodger Bosch, Pool via AP
Rodger Bosch, Pool via AP

Com foco em corrupção e desigualdade, África do Sul vai às urnas

Favorito é o atual presidente, Ramaphosa, do partido de Mandela, no poder desde 1994

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2019 | 16h35

PRETÓRIA - Nesta quarta-feira, 8, a África do Sul vai às urnas para eleger seu Parlamento. Os vencedores serão responsáveis por escolher o presidente do país, neste que é o sexto pleito multirracial sul-africano desde 1994. O atual presidente, Cyril Ramaphosa, do Congresso Nacional Africano (CNA), partido de Nelson Mandela, é o favorito. 

A eleição na economia mais desenvolvida da África ocorre em meio a um desgaste causado por corrupção e desigualdade. Mais da metade dos sul-africanos vive abaixo da linha de pobreza, com notórios reflexos na maioria negra, mesmo após os 25 anos de democracia em vigor no país.  

A pobreza está presente em quase uma a cada duas residências ocupadas pelos negros, que são 77% da população; em um terço das casas da população mestiça; e apenas em 0,8% dos imóveis com a minoria branca, que são 10% dos sul-africanos.  

No poder desde 1994, o CNA é visto como um dos grandes responsáveis pela corrupção no país. O problema é apontado como causa de índices econômicos ruins, a exemplo do desemprego de 27% e o baixo crescimento do PIB, de 0,8% em 2019. Ramaphosa chegou ao poder após a renúncia forçada de Jacob Zuma, presidente entre 2009 e 2018, líder de um governo repleto de escândalos de corrupção. 

"Estivemos em um ambiente de muito pouco crescimento. Acredito que isso tem a ver com a liderança econômica do país, com os políticos, mas também com a confiança empresarial, que foi negativa na maior parte da última década", explicou Mike Schussler, analista da consultora privada Economists.co.za. 

O mandato de presidente na África do Sul é de cinco anos, e 48 partidos estão regularizados para a disputa das eleições desta quarta-feira. Historicamente, o CNA alcançou patamares acima dos 60% dos votos, número que caiu para 53,91% na última eleição. Os partidos na oposição com maior destaque são a Aliança Democrática (AD) de Mmusi Maimane; e os Lutadores pela Liberdade Econômica (EFF, na sigla em inglês), de Julius Malema. 

Maimame é o primeiro líder negro apontado pela AD, sigla com origens no Partido Progressista, formada por brancos liberais em oposição ao apartheid, e que teve a segunda maior bancada nas eleições de 2014. O terceiro lugar no Parlamento naquele ano ficou com a sigla de Malema, que fundou a EFF após ser desligado do CNA, e prega uma política voltada à esquerda mais radical, com destaque para as propostas de nacionalização de minas. 

Desde a transição para a democracia, razão pela qual Nelson Mandela e o ex-presidente Frederick De Klerck foram laureados com o prêmio Nobel da Paz, a África do Sul é governada pelo CNA. Para o pleito de 2019, 26,75 milhões de eleitores estão inscritos. Nesta data, também serão escolhidas as autoridades de cada província do país. 

Dificuldade nas reformas 

Líder do CNA desde dezembro de 2017, Ramaphosa representou esperanças para a África do Sul quando chegou ao poder, em fevereiro de 2018. Um dos empresários mais bem-sucedidos do país, o presidente foi um proeminente opositor ao regime do apartheid. No entanto, os principais problemas sul-africanos persistem: desemprego, pobreza, criminalidade, corrupção e deficiência dos serviços públicos. 

Ramaphosa prometeu a criação de 300 mil empregos, e apontou intensificar a luta contra a corrupção e recuperar a confiança dos investidores para atrair receitas. No exterior, uma das medidas de maior repercussão foi a de redistribuir terras para a maioria negra, apoiando uma proposta da oposição para flexibilizar compensações.

 

Uma das principais dificuldades apontadas para o próximo mandato é a de reparações na empresa pública de energia Eskom. Constantes blecautes são indicados como estratégia governamental para evitar o colapso da rede elétrica. A questão das terras e os reparos na Eskom são vistos como fundamentais para conquistar a confiança dos investidores.  

Analistas indicam que estas e outras medidas de interesse para investidores serão de difícil realização, à exemplo também da flexibilização das leis trabalhistas. “Nós não vemos reformas estruturais firmes mesmo depois das eleições”, disse John Morris, estrategista do Bank of America Merrill Lynch. 

Em importantes cidades, como Pretória e Johanesburgo, o apoio ao CNA diminuiu nos anos recentes. E é justamente dentro do próprio partido que fontes apontam que Ramaphosa deve ter algumas de suas maiores dificuldades. A lista parlamentar do CNA conta com dura oposição às reformas liberalizantes, e parte desta deve estar apta a apontar postos chaves no próximo governo. /EFE e Reuters 

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