Andrew Harnik/AP
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Com foco nas alianças e na China, Biden deve restaurar estabilidade no Pentágono, dizem analistas

Linha de ação deve ser relativamente firme, mas equipe promete pausa na política externa frequentemente caótica do governo anterior

Missy Ryan, The Washington Post

16 de novembro de 2020 | 21h36

WASHINGTON - Acredita-se que a presidência de Joe Biden estabelecerá uma linha de ação relativamente firme no Pentágono, que possibilite restaurar a estabilidade na tomada de decisões do Exército enfatizando novamente as alianças e prosseguindo com as iniciativas para fazer frente à ascensão da China.

Entretanto, o próximo governo também terá, provavelmente, de enfrentar dificuldades semelhantes àquelas com as quais o governo Trump se defrontou, porque as novas lideranças do Departamento de Defesa tentam acabar com as operações de contra-insurgência e assumir difíceis compromissos a fim de avançar em direção à Ásia.

O presidente eleito Joe Biden e sua equipe “terão a vantagem de um novo começo com algum capital político”, afirmou Mark Cancian, ex-coronel da Marinha e diretor do Orçamento da Casa Branca, que é assessor sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Mas Cancian aconselhou cautela para o fato de que o Pentágono de Biden precisará identificar diversos objetivos básicos, ou “perderá o momento de superar a inércia e a oposição partidária”.

A equipe de segurança nacional de Biden tentará trazer maior previsibilidade ao Pentágono, segundo analistas, depois de um período de turbulência na liderança e demissões em cargos de alto nível, que incluiu seu quarto secretário de Defesa Mark Esper, depois das eleições de 3 de novembro, e aumentar o número de assessores leais à Casa Branca no Pentágono.

Prometendo uma pausa no campo da política externa frequentemente caótica, a nova administração deverá adotar uma posição menos contraditória em relação ao Irã, que Trump definiu como um dos principais adversários americanos. Como parte do seu plano de reviver a cooperação internacional, a campanha de Biden abriu a porta para a volta dos EUA ao acordo nuclear de 2015 com o Irã, abandonado por Trump.

A mudança poderá reduzir a probabilidade da arriscada diplomacia no campo militar que caracterizou os últimos anos do governo Trump, quando o presidente autorizou a morte de um general de alto escalão iraniano, e Teerã revidou lançando mísseis contra tropas americanas. Mas é improvável que o Irã deixe de apoiar grupos armados que agem em seu nome, que lançaram ataques contra o pessoal americano durante o mandato de presidentes de ambos os partidos.

A estratégia de Biden será em parte definida pelo destino do Senado, onde a disputa por algumas cadeiras se concluirá no início do próximo ano. Os analistas afirmaram que se o Senado for controlado pelos republicanos provavelmente significará que o novo governo proporá custos mais modestos para os gastos militares, que se estabilizaram depois dos aumentos determinados por Trump, do que poderia acontecer de outro modo.

Além disso, um Senado republicano provavelmente favorecerá a indicação de membros mais centristas para as mais altas posições no Pentágono, acrescentaram. Em primeiro lugar na lista de possíveis candidatos para secretário da Defesa está Michele Flournoy, que chefiou o departamento de operações estratégicas no governo do presidente Barack Obama e foi considerada para um papel de destaque pelo primeiro secretário da Defesa de Trump, Jim Mattis. Se indicada, Flournoy, que faria história como a primeira mulher na chefia do Pentágono, seria rapidamente confirmada.

Outros que talvez seriam considerados são o ex-secretário de segurança nacional Jeh Johnson, que também foi diretor do departamento jurídico do Pentágono no governo Obama e seria o primeiro afro-americano no ministério da Defesa; e o almirante da reserva William McRaven, que foi chefe do Comando de Operações Especiais dos EUA e se destacou como um crítico enérgico de Trump.

Nos últimos quatro anos, Trump frequentemente surpreendeu os chefes do Pentágono com afirmações no Twitter sobre variadas questões, desde a Síria a bases com o nome de líderes confederados. As suas repentinas declarações enfraqueceram líderes do Pentágono, obrigando-os a responder à sua definição de uma redução da tropa para a Alemanha como retaliação em razão de insuficientes gastos militares ou as tentativas de Trump de derrubar as decisões do Departamento em sensíveis questões de justiça militar.

“Acho que será muito menos provável que vejamos estas guinadas repentinas e o não cumprimento de promessas presidenciais”, afirmou Richard Fontaine, CEO do Center for a New American Security.

Entre as áreas em que está sendo previsto um claro rompimento no governo Biden estão as políticas a respeito do pessoal: o presidente eleito afirmou que derrubaria as normas da era Trump que impedem que indivíduos transgêneros sirvam no Exército, e tomará medidas destinadas a proteger as tropas que não dispõem da permanência legal e suas famílias da deportação.

Mas em outras questões políticas centrais, o novo governo provavelmente adotará uma linha semelhante. Em uma de suas promessas iniciais, Biden, assim como Trump, se comprometeu a acabar “para sempre com as guerras” dos Estados Unidos. Mas, como aconteceu com o presidente atual, isto se revelará muito mais complexo.

Em alguns casos, os parlamentares poderão contestar a eliminação de missões contra-insurgentes, como fizeram com os cortes de tropas propostos na África.

Os analistas preveem que Biden continuará com os cortes de tropas no Afeganistão, onde a violência está recomeçando, enquanto os diplomatas buscam convocar conversações de paz. Mas embora o governo Trump tenha enviado mensagens contrastantes sobre a possível retirada de todas as tropas nos próximos meses, em um acordo entre EUA e o Taleban, a campanha de Biden sugeriu que optará por deixar uma pequena força para fazer frente à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico.

Mas há incerteza no que diz respeito ao sucesso dos diálogos de paz e a fragilidade do governo afegão. Se as ações não forem bem-sucedidas, será necessária uma missão americana maior naquela região. 

Kori Schake, diretora de estudos e de política de defesa externos no American Enterprise Institute, disse que a Casa Branca de Biden provavelmente procurará reduzir a missão americana no Iraque, onde Trump já reduziu o número de tropas, e autorizará uma presença militar mínima na Síria.

Devido à sua tendência a fazer declarações explosivas como as que surpreenderam os líderes do Pentágono, Trump prometeu por duas vezes que retiraria todas as tropas da Síria, obrigando certa ocasião a tamanho atropelo que as forças americanas tiveram de bombardear sua própria base.

Apesar disso, Trump autorizou a permanência de uma força de cerca de 700 homens como uma barreira de proteção contra o Estado Islâmico e o Irã.

Um governo Biden “será mais comedido ao tratar destas coisas, mas, acredito, com o mesmo fim desejado pelo governo Trump e inclusive pelo governo Obama”, afirmou Schake.

Mas não será fácil chegar aos compromissos exigidos para liberar as tropas e os recursos para uma região em que a pegada militar americana tradicionalmente tem sido rara.

Rever o sistema de aquisições do Pentágono também será uma tarefa formidável enquanto os EUA tentam competir melhor com a China, que pode controlar a inovação do setor privado, ao contrário do governo americano.

Schake disse que o governo Biden poderá sentir-se tentado a exercer um controle maior sobre as decisões militares da Casa Branca, prática que foi motivo de queixas do Pentágono durante o governo Obama.

“Estabelecer objetivos políticos e não querer partir para opções operacionais e táticas é a estratégia mais inteligente", segundo ela. “Eles poderão conseguir considerável boa vontade do Pentágono”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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