REUTERS/Manuel Hernandez
REUTERS/Manuel Hernandez

Com fronteira aberta, venezuelanos cruzam para a Colômbia para comprar alimentos

Com passagens liberadas por apenas 12 horas, milhares de pessoas foram em busca de remédios e alimentos que faltam na Venezuela

O Estado de S. Paulo

10 de julho de 2016 | 21h08

CÚCUTA, COLÔMBIA - Milhares de venezuelanos cruzaram neste domingo, 10, a pé a fronteira com a Colômbia, aproveitando a abertura temporária por 12 horas da passagem de pedestres - fechada há 11 meses - para comprar, na cidade de Cúcuta, alimentos e remédios que faltam em seu país.

“Estamos felizes porque temos supermercado. Na Venezuela não tem nada. Não tem nem remédio para as crianças e elas estão morrendo. Só a cúpula tem comida. O presidente (Nicolás Maduro) diz que há comida, isso é mentira”, disse à agência France Press a venezuelana Tulia Somaza, exaltada e entre aplausos dos seus compatriotas, que lotavam um supermercado em Cúcuta.

“Nós, os mortais, não temos nem sabão para lavar roupa”, acrescentou Somaza, uma das milhares de pessoas que atravessaram os cerca de 700 metros que separam a cidade venezuelana de San Antonio del Táchira e a colombiana de Cúcuta para comprar comida e remédios.

O fechamento da fronteira havia sido ordenado por Maduro por motivos de segurança, mas ele autorizou a abertura de uma passagem de pedestres na manhã de domingo entre as pontes Simón Bolívar, na Venezuela, e Francisco de Paula Santander, na Colômbia.

Longas filas se formaram diante dos postos alfandegários desde às 5 horas (6 horas em Brasília), à espera da abertura da passagem, que ocorreria uma hora depois. Muitas pessoas dormiram em veículos estacionados nas ruas próximas ao local para poder cruzar a fronteira logo cedo e aproveitar o dia de compras.

As autoridades venezuelanas haviam anunciado que a passagem ficaria aberta durante apenas 12 horas. Algumas versões extraoficiais afirmaram que esse período seria de oito horas.

Comemorações. “O #CorredorHumanitárioFronteiriço já beneficiou cerca de 25 mil pessoas que compraram alimentos e remédios”, publicou no Twitter, quase sete horas após a abertura, William Villamizar, governador do Departamento colombiano de Norte de Santander, onde fica Cúcuta.

“Graças a Deus”, era a exclamação mais repetida pelos venezuelanos ao chegarem à cidade, ou às filas dos supermercados, onde compravam produtos básicos como farinha, óleo, papel higiênico e xampu. 

“Agradecemos por essa acolhida (da Colômbia). O povo da Venezuela nesse momento passa por uma grave situação de escassez de remédios, comida, produtos básicos”, disse José Gregorio Sánchez, habitante da localidade fronteiriça de Ureña. 

“O governo venezuelano acabou com as indústrias que abasteciam o povo”, afirmou Sánchez, acrescentando que, embora seja caro fazer compras na Colômbia, em razão da desvalorização da moeda venezuelana, é “muito mais barato” do que comprar na Venezuela de revendedores - conhecidos como “bachaqueros” -, que oferecem os produtos regulados pelo governo a preços muito mais altos.

Caos. Do lado venezuelano, houve momentos de desespero durante o cruzamento da fronteira. Uma hora após a abertura da passagem, uma aglomeração se formou em frente aos postos alfandegários e a multidão atravessou, em disparada, os controles militares. As autoridades retomaram rapidamente o controle da situação.

Para evitar esse tipo de incidente, cerca de 300 policiais colombianos foram mobilizados na região. O efetivo organizou os consumidores e protegeu, especialmente, os dois maiores centros de distribuição de alimentos da cidade.

Muitos venezuelanos chegavam aos supermercados do centro da cidade de transporte público, enquanto outros eram levados por policiais desde a fronteira em veículos habilitados para a ocasião.

A decisão de abrir a passagem por 12 horas foi tomada na semana passada, após cerca de 500 mulheres forçarem o cruzamento da fronteira, rompendo um cordão militar, para comprar produtos básicos em Cúcuta. 

A escassez atinge em média 80% dos alimentos básicos e remédios na Venezuela, afetada pela queda dos preços do petróleo, mas se agravou na zona limítrofe em razão do fechamento da fronteira, segundo organizações privadas.

O presidente Maduro afirma que essa escassez é fruto de uma “guerra econômica” de “empresários de direita”, a qual acusa de especulação e de monopólio de produtos básicos para desestabilizar seu governo, criando mal-estar e desespero na população.

O líder chavista ordenou o fechamento da fronteira em agosto de 2015, após um ataque de supostos paramilitares colombianos contra uma patrulha militar venezuelana. O episódio deixou três feridos na cidade de San Antonio del Táchira, provocando tensões entre ambos os governos.

Na semana passada, os ministros da Defesa da Colômbia, Luis Carlos Villegas, e da Venezuela, Vladimir Padrino, retomaram as conversas sobre a segurança na área, com a possibilidade de restabelecer a passagem na fronteira de 2,2 mil km.

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e sua chanceler, María Ángela Holguín, também visitaram Cúcuta esta semana, para monitorar a situação e defender a reabertura da fronteira.

Somente nas cidades colombianas próximas à Venezuela como La Parada, Cúcuta e Villa del Rosario passaram cerca de 35 mil venezuelanos até a noite de ontem, disse o governador de Norte de Santander. A fronteira com a cidade colombiana de Ureña também foi reaberta. /AFP e REUTERS

 

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