REUTERS/Stringer
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Com Hillary ou Trump, reaproximação EUA-Cuba se mostra irreversível

Para Havana, porém, fim do embargo ainda é 'grande prioridade' de seu país, um ano depois do restabelecimento das relações com Washington, e sua eliminação será 'essencial' para o avanço dos vínculos

O Estado de S. Paulo

21 Julho 2016 | 16h28

HAVANA - O fim do embargo ainda é uma "grande prioridade" para Cuba, um ano depois do restabelecimento das relações com os Estados Unidos, e sua eliminação será "essencial" para o avanço dos vínculos, insistiu a diretora para a América do Norte da chancelaria da ilha, Josefina Vidal. No entanto, na opinião de analistas, a reaproximação é acelerada e irreversível, independente de quem for o próximo presidente dos EUA.  

Os dois países celebram esta semana um ano da reabertura de suas respectivas embaixadas em Havana e Washington. No dia 20 de julho de 2015, as Seções de Interesses de Cuba e EUA se tornaram oficialmente embaixadas, o que impulsionou uma série de avanços coroados com a histórica visita do presidente Barack Obama a Havana em março, na qual ele chamou os cubanos a enterrar os últimos vestígios da Guerra Fria. 

Mas o embargo ainda é um entrave nessa reaproximação. Em entrevista ao jornal oficial Granma, Josefina reconheceu que o processo para seu levantamento "será longo e complexo", devido ao fato de, no diálogo entre as duas nações, ainda coexiste "uma interação bilateral inédita com a permanência de políticas do passado".

Josefina, chefe negociadora da ilha após o "degelo" iniciado em dezembro de 2014, lembrou que os "componentes dissuasivos e punitivos do bloqueio", instaurado pelos Estados Unidos em 1962, continuam tendo consequências negativas para o país caribenho. "Por isso, a suspensão do bloqueio continua sendo uma grande prioridade para Cuba e será essencial que seja eliminada para avançar rumo à normalização das relações. O bloqueio é uma política do passado e deve acabar", afirmou.

Por outro lado, na opinião de analistas, o restabelecimento dos laços diplomáticos entre os dois países, ainda que complexo, é acelerado e não tem como retroceder, independentemente de quem assumir a Casa Branca no ano que vem.  "Um ano depois do restabelecimento de relações diplomáticas formais, as relações entre Washington e Havana se moveram muito rápido, muito mais rápido que o ritmo normal de mudanças diplomáticas", disse William LeoGrande, especialista em América Latina da American University em Washington, à agência France-Presse.

Os dois países restabeleceram o correio direto, os cruzeiros americanos voltaram à ilha depois de meio século e, a partir de setembro, voos diretos unirão diversas cidades em ambos os lados do estreito da Flórida. Mesmo que o embargo de Washington ainda proíba o turismo em Cuba, as visitas de americanos duplicaram, a cadeia hoteleira Starwood inaugurou um hotel em Havana e empresas como Netflix e Airbnb já aparecem na ilha.

Cuba espera que "quem quer que seja o próximo presidente" apoie "o curso atual da política" com a ilha, declarou a própria Josefina na entrevista ao Granma. Ela acrescentou que Havana espera que Obama use ao "máximo" suas funções executivas no que resta de seu mandato para "tornar irreversível" a histórica aproximação.

A inesperada aproximação com Cuba foi outra jogada audaciosa de Obama, que está em seus últimos meses como presidente dos EUA, sem mais eleições a ganhar, e frustrado com os empecilhos colocados por seus opositores no Congresso.

Mas para o novo presidente que tomará o controle da Casa Branca em 20 de janeiro de 2017, o tema cubano pode ser um assunto mais sensível, com uma agenda legislativa própria e um capital político a ser gasto de forma meticulosa. "O ritmo de mudança pode ficar mais lento de algum modo, porque o novo presidente terá suas próprias prioridades", disse LeoGrande, co-autor de um livro sobre meio século de diplomacia encoberta entre Washington e Havana.

A aproximação com Cuba foi ressaltada na intensa campanha para a eleição presidencial de novembro, com as manchetes focadas nas incendiárias declarações do candidato republicano Donald Trump e os escândalos de sua rival democrata Hillary Clinton.

Wayne Smith, ex-chefe da Seção de Interesses dos Estados Unidos em Havana, está surpreso, porém, que diferente de alguns anos atrás, as autoridades cubanas já não são mais "os suspeitos habituais" dos republicanos, que realizam sua convenção para nomear Trump como seu candidato nesta semana em Cleveland, Ohio. / AFP e EFE 

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