Com ida à Ásia, Obama retoma plano de mudar eixo da política externa

Três anos depois de anunciar o seu "pivô para a Ásia", o presidente americano, Barack Obama, viaja nesta semana à região com o objetivo de reafirmar a orientação de sua política externa a aliados que enfrentam uma China cada vez mais assertiva e nutrem dúvidas em relação aos compromissos de segurança americanos, aprofundadas depois da anexação da Crimeia pela Rússia.

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2014 | 02h13

Na terça-feira, Obama chegará ao Japão para uma visita de três dias, ao fim dos quais seguirá para Coreia do Sul, Malásia e Filipinas. A China está fora do roteiro, mas estará presente em grande parte das discussões, em especial no Japão e nas Filipinas, países que protagonizam as mais intensas disputas territoriais com Pequim na região.

Com a visita, o governo americano espera resgatar a credibilidade dO "pivô para a Ásia", no momento em que a atenção de Washington é desviada para a crise na Ucrânia e o secretário de Estado, John Kerry, concentra grande parte de seus esforços no Oriente Médio.

Quando os EUA anunciaram o reequilíbrio de sua política externa, em 2011, a ideia era aproveitar o fim das guerras do Iraque e do Afeganistão para direcionar recursos militares, diplomáticos e econômicos para a região que mais cresce no mundo. Sob a ótica de Pequim, o "pivô para a Ásia" tem mais um objetivo, não declarado de maneira expressa: limitar seu poder e influência na região.

Um dos maiores desafios de Obama durante a viagem será o de reafirmar os compromissos de segurança com seus aliados tradicionais sem que isso afete a relação estratégica com a China, avaliou Michael Green, especialista em Ásia do Center for Strategic & International Studies (CSIS), de Washington. Segundo ele, desde que anunciou a mudança no eixo da política externa, Obama teve uma relação pendular entre a China e seus aliados tradicionais. Agora, deve buscar o equilíbrio entre esses dois polos. "Obama terá a chance de acertar o seu discurso para a Ásia", afirmou Green, em entrevista sobre a visita na semana passada.

Para Green, não foi apenas a anexação da Crimeia pela Rússia que abalou a confiança dos aliados asiáticos em relação aos EUA. A atuação vacilante de Obama depois do uso de armas químicas na Síria em 2013 também abalou a imagem americana, observou.

A Ucrânia abriu mão de suas armas atômicas em 1994 e, em troca, recebeu a garantia de proteção de potências na hipótese de agressão externa. Em fevereiro, a Rússia anexou a Crimeia e criou uma situação na qual ficaram evidentes as limitadas opções de Washington.

A viagem ocorre depois de Obama ter cancelado sua participação na reunião de cúpula da Associação Econômica Ásia-Pacífico em outubro, em razão do fechamento do governo nos EUA. A ausência deixou a China no papel de maior potência do encontro e colocou mais uma vez em dúvida a credibilidade do pivô asiático.

Sem anúncios concretos de peso, a viagem que Obama começa terça-feira será importante pela mensagem e o gesto simbólico de destacar o comprometimento com a região. Para a Malásia, a simples presença dele será significativa, já que Obama é o primeiro presidente dos EUA a visitar o país desde 1966.

A expectativa no ano passado, quando a visita começou a ser organizada, era de que os EUA e o Japão pudessem anunciar o fechamento de um acordo no âmbito da Parceria Trans-Pacífica (TPP, na sigla em inglês). Mas os dois países, que representam quase 80% do bloco, continuam a ter divergências em relação a produtos agrícolas e automotivos.

Sem que os dois principais sócios se entendam, é pouco provável que o pacto avance - os outros integrantes são Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Chile, México, Peru, Malásia, Brunei, Vietnã e Cingapura.

Além das divergências com o Japão, Obama enfrenta resistência de seu próprio partido no Congresso na tentativa de obter a autorização para negociar o acordo comercial e submetê-lo na íntegra aos parlamentares, que poderiam aprová-lo ou rejeitá-lo, mas não mudar os seus termos.

Na opinião de Victor Cha, especialista em Península Coreana do CSIS, um dos principais destinos da mensagem americana de comprometimento com a região deve ser o regime de Pyongyang. "A Coreia do Norte pode ter aprendido algo com a Crimeia", disse, em referência à criação de fatos consumados que não podem ser revertidos sem riscos. "A mensagem é que ninguém deve vir com ideias malucas na Ásia."

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