Com lockdown, média móvel de casos de coronavírus no Reino Unido cai 79%

Com lockdown, média móvel de casos de coronavírus no Reino Unido cai 79%

Com 25% da população vacinada, país europeu deve anunciar plano para relaxar restrições nesta segunda-feira, 22

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 04h00

OXFORD, REINO UNIDO — O terceiro lockdown decretado pelo governo do Reino Unido apresentou bons resultados. Depois de 47 dias de  confinamento no país inteiro, a média móvel diária de novos casos caiu 79%, passando de 59 mil para 12 mil. Também se observa uma redução sustentada no número de internações e mortes e a vacinação está bem adiantada em comparação com outros países da Europa.

O primeiro-ministro Boris Johnson deve anunciar nesta segunda-feira, 22, um plano para aliviar gradualmente as restrições. A primeira atividade a ser retomada provavelmente será o ensino presencial nas escolas, no dia 8 de março. Elas estão fechadas desde 5 de janeiro, quando iniciou o lockdown no país.

“A retomada precisa ser gradual para dar tempo de observar os números e, se necessário, voltar com as medidas severas de isolamento”, explica a infectologista Ana Luiza Gibertoni. A brasileira trabalha no serviço nacional de saúde britânico (NHS, na sigla em inglês) e cursa doutorado na Universidade de Oxford.

Outra consequência visível do lockdown é a diminuição do número de internações. A frase “Fique em casa, proteja o NHS” virou símbolo do lockdown inglês e pode ser vista em pontos de ônibus, letreiros luminosos e em anúncios governamentais nas redes sociais. 

A média móvel diária de pessoas admitidas em hospitais com covid-19 chegou ao pico de 4.230 em 9 de janeiro. No dia 12 de fevereiro, último dado disponibilizado pelo governo, o número estava em 1.583, uma redução de 62,5%. 

A mesma tendência é observada nos óbitos. Em 19 de janeiro o país atingiu o pico, com média móvel diária de 1.280 mortes. Em 12 de fevereiro, a média de mortes por dia caiu para 494, uma redução de 61%.

“O Reino Unido conseguiu provar que o lockdown é uma boa medida para conter o coronavírus”, analisa Ana Luiza. A infectologista diz que outro fator que pesa bastante na estratégia britânica de contenção do coronavírus é a testagem em massa. Todo mês, 150 mil pessoas são testadas aleatoriamente em um monitoramento feito pelo Imperial College para monitorar a situação da epidemia na comunidade. 

A médica do NHS afirma que ainda não é possível afirmar que a vacinação está ajudando no controle da pandemia. “Um estudo do Imperial College mostrou que a redução do número de casos foi proporcional nas faixas etárias”, diz Ana Luiza. Se a vacinação já estivesse contribuindo com os números, deveria haver uma redução muito maior nos casos entre pessoas maiores de 65 anos, prioridades na campanha de imunização do governo.

O Reino Unido é o país que mais vacinou na Europa segundo o site Our World in Data, da Universidade de Oxford. Até a sexta-feira, 19, cerca de 25% da população havia recebido a primeira dose do imunizante, enquanto a média no continente é de 6%. Em números absolutos, 16,8 milhões de pessoas receberam a vacina no país. No entanto, os dados ainda não mostram relação entre a vacinação e a redução no número de casos.

Problemas

Apesar de as medidas do governo serem duras e restringirem significativamente a mobilidade da população, ainda se vê gente circulando pelas ruas do país. Só é permitido sair de casa para atividades essenciais ou exercícios físicos. Para Ana Luiza, falta  fiscalização. “Tem muitas pessoas conversando na rua sem respeitar a distância adequada. Faltam fiscais para orientar a população”, diz.

Outro ponto levantado pela médica é o uso de máscaras. Na Inglaterra, não é obrigatório usar a proteção em locais abertos como ruas e parques. São raras as pessoas que usam máscaras quando saem para praticar exercícios ao ar livre, por exemplo.

“Fico perplexa porque até hoje o governo ainda não estabeleceu uma regra para o uso de máscara na rua. Isso pode até ter relação com o aumento do número de casos no fim do ano passado”, fala.

Mutação

O terceiro lockdown foi decretado no Reino Unido no início de janeiro após um aumento exponencial no número de casos. A principal explicação dos especialistas para isso é uma mutação identificada na região de Kent, no sudeste da Inglaterra, com alta capacidade de transmissão. Ana Luiza esclarece que essas mutações são algo comum.

As variantes são encontradas quando pesquisadores fazem o sequenciamento do genoma dos vírus. O Reino Unido está à frente nesse assunto, que ajuda o governo a acompanhar a evolução da pandemia e entender as medidas que devem ser tomadas.

A nova linhagem, chamada de B117, surgiu no início de setembro. Na época, era encontrada em uma a cada quatro novas infecções. Três meses depois, mais de dois terços dos casos registrados em Londres estavam relacionados à nova cepa. Análises mostraram que enquanto a taxa de transmissão das cepas anteriores era de 0,4, o índice da nova mutação já estava em 0,7. 

No início de novembro, com a pandemia saindo novamente do controle, o governo decretou lockdown nacional por um mês. As restrições eram menos severas do que as atuais e as escolas permaneceram abertas. Em dezembro, mesmo sem controlar a disseminação do vírus, o primeiro ministro Boris Johnson decidiu reabrir os serviços. 

Para Ana Luiza, o lockdown deveria ter continuado por mais tempo. “Havia um dado muito claro de que o número de infecções não baixava. Seria melhor ter pecado pelo excesso”, analisa. No entanto, ela fala que houve muita pressão, especialmente da área econômica, para que a reabertura acontecesse. 

Cerca de um mês depois do relaxamento das medidas, o terceiro e atual isolamento rigoroso foi anunciado. A médica afirma que o governo acertou em retomar as restrições. “As medidas de distanciamento estão corretas. O isolamento tem que ser levado a sério”, diz.  

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Mesmo com restrições severas, Inglaterra mantém escolas abertas para quem precisa

Crianças vulneráveis e filhos de trabalhadores essenciais podem assistir às aulas presencialmente

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 04h00

OXFORD, REINO UNIDO — Mesmo em meio a um lockdown rigoroso, Helian Almeida leva o filho à escola todos os dias. O pequeno Oliver, de 6 anos, passa a manhã inteira e boa parte da tarde na sala de aula, enquanto a mãe trabalha como governanta. Manter as escolas abertas para quem precisa é uma das medidas tomadas pelo governo da Inglaterra para diminuir o impacto do confinamento sobre a vida das pessoas.

Além disso, o governo aumentou em 90 libras por mês (cerca de R$ 673,75) o valor do crédito universal, programa de transferência de renda britânico. Empresas e pessoas físicas que perderam renda durante a pandemia também têm acesso a uma série de benefícios.

As aulas presenciais foram interrompidas para boa parte dos alunos. No entanto, crianças em situação de vulnerabilidade e filhos de trabalhadores essenciais podem continuar frequentando as escolas. Os alunos que ficam em casa assistem às mesmas aulas que seriam oferecidas em sala e recebem suporte do governo, que fornece computador e internet a quem precisa.

Helian conta que ficou relutante e com medo do coronavírus quando a escola ofereceu a possibilidade de Oliver frequentar as aulas em meio ao lockdown. “Mas não tive escolha. Trabalho na casa de um senhor que tem Alzheimer. Ele depende de mim, não posso deixar de ir”, diz.

Para manter as crianças e funcionários seguros, a maioria das escolas criaram bolhas formadas por poucas crianças e uma professora. Esses grupos tomam todos os cuidados para não se misturarem uns com os outros. Quando possível, cada bolha tem seu banheiro e entra na escola por um portão ou horário diferente. Dessa forma, se alguém ficar doente, é mais fácil identificar as pessoas que tiveram contato com o infectado.

Na turma de Oliver há apenas seis crianças e eles devem manter distância entre si o tempo todo. A professora usa uma viseira transparente e evita o contato físico com os pequenos. A hora do lanche, assim como as brincadeiras, passaram a ser individuais, sem muita interação.

Apesar do ambiente escolar estar totalmente diferente, Helian afirma que o filho está aprendendo muito mais na escola do que na época em que precisou estudar em casa. No ano passado, as aulas presenciais foram suspensas por alguns meses e coube à mãe a tarefa de alfabetizar o filho. 

“Tinha momentos que dava vontade de chorar”, diz. Na época, ela conseguiu continuar trabalhando mesmo com as escolas fechadas porque teve o apoio da filha mais velha que estava passando um período na Inglaterra. O colégio também forneceu um computador para que a criança pudesse assistir às aulas.

Na família de Lana Antunes, assistente de reabilitação do Sistema Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês), a situação é parecida. Nos dias em que ela precisa trabalhar presencialmente, a filha mais nova, de 5 anos, vai à escola. Quando a mãe fica em casa, a pequena assiste às aulas de forma remota. A mais velha, de 10, assiste às aulas sempre pelo computador. 

A brasileira acredita que a caçula está aprendendo muito mais agora, na escola, do que no ano passado, quando teve aulas a distância. “Ela está ganhando muito mais em termos de aprendizado e eu não preciso me preocupar tanto em ter de fazer reforço escolar”, diz.

Como Lana trabalha em ambiente hospitalar, não ficou com receio de mandar a filha para a escola. “Aqui eles são muito responsáveis com a saúde das crianças”, fala. Ela conta que há álcool em gel na entrada da escola, as professoras usam máscara, há distanciamento entre as pessoas e a escola está toda setorizada para evitar aglomerações.

Outro ponto positivo na política educacional da Inglaterra, pontua, é o fato de as escolas permanecerem abertas para crianças em situação de vulnerabilidade, que são monitoradas por assistentes sociais. “Quando a criança passa o dia inteiro na escola, os professores conseguem monitorá-la. Caso contrário, pode correr risco de sofrer violência ou abuso”, fala. 

Outras medidas

Além de manter as escolas abertas para quem precisa, o governo inglês tomou uma série de medidas para mitigar o impacto econômico causado por longos períodos de confinamento. Há estratégias voltadas para a população em geral e para as empresas.

O valor do Universal Credit, programa de transferência de renda destinado a quem tem baixo salário, está desempregado ou não pode trabalhar, foi ampliado. Desde abril do ano passado o valor mínimo pago pelo governo passou a ser de 342,72 libras (R$ 2.563,65), aproximadamente um quarto do salário mínimo.

Trabalhadores independentes também contam com ajuda do governo. Eles podem receber até 80% do lucro médio declarado nos últimos três anos (ou menos, se for o caso). O limite é de 2,5 mil libras por mês (cerca de dois salários mínimos).

Para empresas, o governo cancelou alguns impostos e está oferecendo empréstimos a juros baixos. Outro benefício concedido é o pagamento do auxílio-doença dos funcionários que têm diagnóstico confirmado de covid-19 ou estão com suspeita da doença.

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Depois de três confinamentos severos, moradores do Reino Unido criam novas formas de convívio socia

As escolas e os serviços não essenciais estão fechados em todo o país desde 5 de janeiro e a circulação de pessoas está limitada, assim como os encontros

Mariana Hallal, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2021 | 04h00

OXFORD, REINO UNIDO - Todo mês, uma caixa com lembranças da Alemanha chega à casa de Lola, de 12 anos, e de Fausto Santovito, de 17. Os brasileiros, que vivem com a mãe na Inglaterra há cerca de um ano e meio, encontraram no correio uma forma de manter a comunicação com o pai em meio às limitações impostas pela pandemia do coronavírus.

Mas não era para ser assim. Quando decidiram se mudar para a cidade inglesa de Oxford, os filhos da engenheira civil Carla Pacífico, de 47 anos, pretendiam visitar o pai na Alemanha ao menos uma vez a cada dois meses. Com a restrição de viagens gerada pela pandemia e três lockdowns depois, eles estão há um ano sem vê-lo.

“Percebemos que eles precisavam criar uma comunicação mais estreita. Deveria ser algo não só virtual, mas físico também”, diz Carla. Foi aí que surgiu a ideia da caixa. Os jovens passam semanas escolhendo objetos especiais que  falem sobre sua nova rotina para enviar ao pai. Da mesma forma, a caixa volta cheia de lembranças da vida na Alemanha.

“Se os pais não têm a habilidade de criar sonhos diferentes dentro das possibilidades que temos hoje, as crianças ficam mais frustradas e ansiosas”, acredita a engenheira civil. 

Administrar a ansiedade e frustração dos filhos é o que Carla vem fazendo desde março do ano passado, quando o governo da Inglaterra decretou o confinamento pela primeira vez. Na época, eles estavam começando a se adaptar à nova rotina em um país diferente e ansiosos para aproveitar o verão com os amigos da escola. Os passeios no parque foram substituídos por banhos de piscina no quintal e jogos com a família. 

As escolas e os serviços não essenciais estão fechados em todo o país desde 5 de janeiro e a circulação de pessoas está limitada, assim como os encontros. Neste terceiro lockdown, os ingleses podem se reunir apenas com moradores da mesma casa ou, em alguns casos específicos, com sua rede de apoio formada por uma outra família. Pessoas que moram sozinhas e adultos solteiros que vivem com filhos menores de idade, por exemplo, fazem parte da exceção e podem ter apoio externo.

No início desta nova fase de restrições, a falta dos amigos pesou para Fausto e Lola. Enquanto o mais velho questionava o porquê de não poder encontrar os colegas, a pequena se preocupava com a festa de 12 anos. “Ela me perguntava como iria comemorar o aniversário desse jeito e até quando viveremos dessa forma”, diz a mãe.

“No segundo lockdown (que aconteceu no mês de novembro) eles puderam ir à escola e encontrar os colegas de classe”, explica Carla sobre a pergunta dos filhos. Desta vez, as restrições estão mais severas.

Um pouco mais acostumados à rotina caseira e às aulas remotas, os três só saem de casa quando é estritamente necessário, como para fazer compras. Carla ainda é voluntária e entrega remédios a pessoas que são do grupo de risco e não podem ir a farmácias. O único integrante da casa que sai diariamente é o namorado de Carla, Alex, que trabalha no Serviço Nacional de Saúde (NHS, na sigla em inglês) e como entregador de aplicativo.

Rotina

Enquanto a quarentena é uma novidade e um grande desafio para alguns, outros já tinham o isolamento social como forma de proteger a vida há muito tempo. É o caso da britânica Helen Roper, de 40 anos, que luta contra a fibrose cística. A doença genética crônica prejudica, principalmente, os pulmões.

“Minha vida não está tão diferente com o lockdown. Eu já passava bastante tempo dentro de casa”, conta. Além de ter boa parte da rotina comprometida com o tratamento da doença, ela precisa ter muito cuidado ao encontrar outras pessoas. “Se eu pegar um resfriado posso ficar internada por semanas e uma gripe tem potencial para me matar”, diz. 

Por isso, antes mesmo de o coronavírus confinar boa parte do mundo, ela já precisava calcular muito bem os prós e contras de cada passeio ou visita. “Eu tenho de comparar os riscos de ser infectada por algum vírus ou bactéria com as vantagens do convívio social”, explica.

Quando a pandemia começou a ganhar força, essas preocupações aumentaram. “No primeiro lockdown eu não saí de casa nenhuma vez”, fala. Depois disso, porém, a equipe médica que cuida de Helen recomendou que ela fizesse caminhadas diárias para manter a saúde física e mental. “Saio todos os dias para caminhar e fico sempre distante de outras pessoas. Esse é o único motivo que tenho para sair. Não vou fazer compras nem nada do tipo”, fala. 

Além disso, a britânica dá algumas dicas do que fazer para aguentar o peso do isolamento e distrair a mente. “Eu costumo desenhar e pintar. Também gosto muito de conversar com outras pessoas pelo Zoom (aplicativo de videochamadas)”. Ela também mantém um blog, o www.butyoulooksowell.com, onde compartilha o dia a dia com a doença e a espera pelo duplo transplante de pulmão que pode salvar sua vida.

Apesar de estar acostumada a passar longos períodos em casa, a pandemia mudou algumas coisas importantes na vida de Helen. O contato físico com a família, por exemplo, precisou ser reduzido. “A última vez que vi meus pais foi em setembro. Já faz um ano que não encontro meu irmão e meus sobrinhos”, diz.

Em março do ano passado, quando a pandemia começou a ganhar força no mundo todo, ela estava internada no hospital. “Eu fiquei bastante preocupada porque, obviamente, ninguém sabia o que iria acontecer. Foi um período muito estressante”, lembra. 

Agora, quando vê as pessoas menosprezando o vírus e relaxando o cuidado, ela diz que se sente irritada. “Também fico nervosa e preocupada pelo NHS (Serviço Nacional de Saúde). Eu passo bastante tempo nos hospitais e vejo o impacto que o coronavírus está causando”, diz. “As pessoas precisam pensar sobre suas ações e ser menos egoístas."

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