Mary Turner/The New York Times (16/03/2021)
Mary Turner/The New York Times (16/03/2021)

Com lockdowns na Europa, aumentam confrontos entre a polícia e manifestantes

No Reino Unido e em outros lugares, manifestantes de esquerda e de direita se rebelam contra as restrições impostas pelo vírus, provocando reações duras da polícia e dúvidas quando à legitimidade dos agentes

Mark Landler e Stephen Castle, The New York Times

24 de março de 2021 | 10h00

LONDRES - Em Bristol, cidade universitária inglesa onde os pubs costumam ficar repletos de estudantes, ocorreram confrontos entre a polícia e manifestantes. Em Kassel, na Alemanha, muito conhecida pelos seus festivais de arte contemporânea, a polícia usou spray de pimenta e recorreu a canhões de água para dispersar manifestantes que protestavam contra o lockdown.

Um ano depois de os líderes europeus ordenarem à população para ficar em casa para combater uma pandemia mortal, milhares de pessoas tomam conta das ruas e praças. Com frequência são recebidas com cassetetes e escudos, gerando questionamentos sobre as táticas e o papel da polícia em sociedades onde as liberdades pessoais cederam lugar às preocupações com a saúde pública.

Da Espanha à Dinamarca, Áustria e Romênia, as pessoas frustradas criticam violentamente as restrições sobre sua vida quotidiana. Com grande parte da Europa enfrentando uma terceira onda de infecções, o que pode manter em vigor os lockdowns por semanas ou até meses mais, analistas alertam que as tensões nas ruas provavelmente irão se intensificar.

No Reino Unido, onde a rapidez da vacinação deu esperanças de uma abertura mais acelerada da economia do que o governo pretende, a frustração com a conduta dos agentes se transformou num debate nacional sobre a legitimidade da polícia - uma discussão que tem ecos distantes do movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos.

"O que estamos observando é um descontentamento crescente da nossa sociedade que considera ilegítima a atuação da polícia neste momento de pandemia", disse Clifford Stott, professor de psicologia social na Keele University e especialista em comportamento coletivo. "Isto tem criado aliados estranhos", acrescentou.

Políticos de direita que criticam as restrições impostas pelos lockdowns estão tão enfurecidos quanto os manifestantes de esquerda que militam pelo clima e regularmente bloqueiam Trafalgar Square em Londres como parte das suas manifestações chamadas de Extinction Rebellion. Os congestionamentos provocados pelos manifestantes foram uma das razões pelas quais as autoridades deram um poder maior para a política restringir essas reuniões.

E a esse sentimento de indignação veio se juntar o caso de Sarah Everard, uma mulher de 33 anos, raptada e morta, supostamente por um oficial de polícia, quando se dirigia para sua casa ao sul de Londres. Posteriormente, a Polícia Metropolitana dispersou uma vigília em homenagem a Everard, alegando que os participantes violaram as regras de distanciamento social estabelecidas.

O potencial para novos confrontos é grande, disse Stott, citando "o clima mais quente, a duração do lockdown e uma crescente insatisfação de setores da comunidade com a imposição de medidas de controle".

Em Bristol o que desencadeou os confrontos foi uma nova lei que dá poderes à polícia para dispersar as manifestações com dureza. Um protesto pacífico, chamado Kill the Bill (morte à lei) no College Green, área central da cidade, se tornou violenta quando alguns dos manifestantes se dirigiram para uma delegacia de polícia próxima e começaram a lançar fogos de artifício e projéteis contra os policiais.

O prefeito de Bristol, Marvin Rees, criticou duramente a violência acusando agitadores estranhos à manifestação que, segundo ele, aproveitam o protesto pacífico para provocar o establishment.

Mas Rees, político do Partido Trabalhista, também se opôs ferrenhamente à lei. Para ele foi uma medida apressada e irrefletida - uma aposta inescrupulosa de um governo conservador para "reunir sua base em torno da lei e da ordem", durante uma pandemia.

Uma versão anterior das regras baixadas pelo governo ligadas à pandemia continha uma cláusula que permitia protestos, desde que não violentos. Mas a disposição foi removida da versão mais nova, deixando o direito de reunião pacífica numa espécie de limbo jurídico. De acordo com a nova redação das regras emitidas na segunda-feira, protestos são permitidos em circunstâncias limitadas a partir da próxima segunda-feira.

Essas leis de emergência passaram pelo Parlamento sem o exame normalmente exigido no caso de uma lei. Na falta de uma Constituição escrita, os britânicos que querem sair às ruas tiveram de depender da proteção menos precisa de um ato em favor dos direitos humanos.

"Esta pandemia expôs as fraquezas da nossa Constituição não escrita no tocante a certos direitos", disse Adam Wagner, advogado que atua no campo dos direitos humanos e especialista nas regras emitidas para o coronavírus. "Se você tira a democracia representativa do processo legislativo, vozes que são importantes se perdem".

Inversamente, a Corte Constitucional Federal na Alemanha, manteve no ano passado o direito de os cidadãos protestarem, desde que atendam às regras de distanciamento social. Mas mesmo neste caso, as regras de participação são obscuras.

Em Kassel, a polícia foi criticada por permitir que os manifestantes se reunissem em praças públicas sem usar máscaras e não respeitando o distanciamento social. Somente depois, quando alguns atacaram a polícia é que os agentes investiram contra a multidão com spray de pimenta, cassetetes e canhões de água.

A indignação aumentou depois que apareceram fotos de um policial desenhando um símbolo com forma de coração em um manifestante que carregava um cartaz, ao passo que outro golpeava a cabeça de uma mulher contra o aro da sua bicicleta, ao procurar conter as pessoas contrárias à manifestação. O episódio provocou questionamentos sobre quem a polícia estava tentando proteger.

"É um tapa na cara da nossa cidade", disse o prefeito de Kassel, Christian Geselle ao jornal Frankfurter Allgemeine. Ele tentou, sem sucesso, proibir a manifestação alegando que seria um evento "superpropagador" do vírus./ TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

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