REUTERS/Tumay Berkin
REUTERS/Tumay Berkin

Com mais de 265 mortos, governo declara fim da tentativa de golpe e anuncia repressão

Quase 3 mil soldados teriam sido detidos, enquanto grupos de oposição desconfiam de que Erdogan estaria usando o caso para incrementar seus poderes

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

16 Julho 2016 | 11h03

GENEBRA - O governo turco declarou neste sábado, 16, que a tentativa de golpe de estado promovido por parte dos militares fracassou e indicou que vai conduzir uma verdadeira repressão contra aqueles que apoiaram a tentativa de derrubar o governo.

Grupos de oposição chegaram a levantar dúvidas sobre o golpe, alertando sobre uma possível tese de que a manobra estava sendo usada pelo governo, já com tendências autoritárias, de ainda mais seu controle no poder. Quase 3 mil pessoas foram presas e, depois de uma reunião de emergência, mais de 2,7 mil magistrados, incluindo cinco juízes do supremo tribunal do país, foram demitidos por pertencer supostamente a grupos envolvidos com o golpe. Ancara acusa o ex-aliado Fethullah Gülen de ter orquestrado o golpe, o que ele nega.

Na manhã deste sábado, depois de uma noite de caos e violência, as autoridades afirmam que fizeram mais de 2,9 mil prisioneiros entre os soldados, deixando até agora 265 mortos. Os principais organizadores do golpe teriam sido o general Akin Ozturk, aposentado desde 2015, e o coronel Metin Iyidil. 

Umit Dundar, um dos chefes militares do país, revela que pelo menos 104 pessoas envolvidas diretamente na tentativa de golpe foram mortas. Além deles, cerca de 160 civís morreram durante a noite. Mais de 1,6 mil feridos também foram registrados. 

Para ele, depois de quatro tentativas de golpe nos últimos anos por grupos das Forças Armadas, "o capítulo dos golpes militares está fechado". "As pessoas tomaram as ruas e mostraram seu apoio pela democracia. Foi um ato de cooperação entre o governo e o povo. A nação nunca vai esquecer essa traição", disse, garantindo que os autores do golpe serão "punidos".

O primeiro-ministro Binali Yildirim convocou uma coletiva de imprensa para anunciar que o golpe tinha chegado ao fim e que era uma "mancha negra" na história do país. Ele também indicou punições severas contra os responsáveis e apontou que seu governo poderia voltar a propor a pena de morte, o que permitiria executar os autores do golpe. 

Chamando os golpistas de "terroristas", ele pediu que a população voltasse a sair às ruas para demonstrar apoio ao governo com bandeiras turcas. 

5º Golpe. Esse havia sido o quinto golpe em 60 anos na Turquia. Mas o governo rapidamente pediu que a população tomasse as ruas para resistir. Os militares não abandonaram seus postos e confrontos foram registrados por toda a Turquia. O grupo alegava que estava tomando o poder para garantir a democracia e os direitos humanos. Televisões foram ocupadas e redes sociais suspensas. 

Mas o desembarque de Recep Erdogan, em plena madrugada, no aeroporto de Istambul deixou claro a fragilidade do movimento. Ancara não estava ainda sob controle. A chegada do presidente na cidade turca, interropendo férias num balneário no Sul do país, também tranquilizou potências estrangeiras, alarmadas com as consequências de um eventual vácuo de poder num dos países mais importantes na região, que já vive o caos.

"A Turquia tem um governo democraticamente eleito e estamos sob comando", disse Erdogan, que contou que o hotel onde ele estava foi atacado logo depois de sua saída. "Não vamos abandonar o país", insistiu. Para ele, o golpe havia sido um "ato de traição" e alertou que os responsáveis pagarão "um preço muito alto." 

Os militares haviam decretado uma ordem para exigir que ninguém deixasse suas casas. Mas, desafiando a determinação, a população ocupou ruas e praças. A noite ainda foi marcada por ataques contra o Parlamento e tiroteios. Televisões foram ocupadas e jornalistas atacados. 

Já era início da manhã quando as televisões mostraram ao vivo grupos inteiros de soldados se entregando. Líderes da oposição que não medem críticas a Erdogan, entre eles o partido curdo HDP, deixaram claro que não apoiavam o golpe. "A única solução é a política democrática", declarou.

Oito militares pediram asilo na Grécia, enquanto um grupo circulou um email alertando que não havia decretado o fim do processo. Uma fragata ainda foi sequestrada pelos golpistas e alguns dos chefes militares continuavam até meados da tarde de sábado sequestrados. Mas, para o governo, o golpe estava "90% terminado".  

Pela Europa, o governo turco emitiu comunicados para dar sinais de que estava no comando. "A tentativa foi derrotada pelo povo turco em unidade e solidariedade", disse uma nota emitida pelas embaixadas turcas. "Nosso presidente e governo estão no comando. As Forças Armadas turcas não estiveram envolvidas em sua totalidade no golpe. Foi apenas um grupo dentro dos militares e recebido com a resposta que merecia por nossa nação", indicou.   

Poder. Mas não faltaram os alertas de que o movimento seria usado por Erdogan para reforçar ainda mais seu poder. O presidente, depois de mais de uma década no poder, havia conseguido acalmar diversos grupos diante do crescimento econômico no país. Ele ainda havia distribuído cargos a seus aliados, na esperança de evitar um eventual golpe. 

Mas com a crise, os mais de 2,7 milhões de refugiados, gestos autoritários e a explosão de atentados, Erdogan havia dividido a sociedade. A guerra na Síria ainda desbordou para o lado turco, já fazendo centenas de vítimas do Estado Islâmico. 

Nos últimos dias, Erdogan se voltou contra Gülen, por ter supostamente promovido o golpe. No Judiciário e nas Forças Armadas, o governo iniciou uma limpeza geral de qualquer pessoa com simpatias a um dos líderes da oposição. 

Falando dos EUA, ele "categoricamente negou" qualquer envolvimento. "Condeno o golpe militar. Governos devem ser vencidos pelas eleições", insistiu. Segundo ele, era "especialmente insultante" ser acusado pelo golpe depois que ele mesmo sofreu diversas tentativas de derrubada por décadas. 

Entre as entidades de direitos humanos, o temor é de que Erdogan responda ao golpe com uma repressão ainda maior. A Anistia Internacional pediu que uma investigação independente ocorra. Mas alertou que Erdogan não pode abrir mão dos direitos humanos. O Relator da ONU para Liberdade de Expressão, David Kaye, pediu maior garantia às imprensa, sob ataque no governo de Erdogan.

O colunista Mahir Zeynalov ainda apontou para o fato de o presidente ter declarado na noite de sexta que o golpe era "um presente de Deus." 

Para a escritora Anne Applebaum, Erdogan vai ser cobrado por ter conseguido se manter no poder depois de um golpe graças às forças que ele justamente queria suprimir: oposição democrática e imprensa livre. 

Reações. O que também garantiu a volta de Erdogan foi a resposta da comunidade internacional, alarmada diante do risco de ver mais um país na região sucumbir ao caos, depois do Iraque e Síria. O presidente americano, Barack Obama, pediu que todos os partidos na Turquia apoiassem o governo eleito, denunciando o golpe. 

Na Europa, que teme a reabertura das fronteiras da Turquia e uma nova onda de refugiados, líderes também denunciaram a iniciativa dos militares. "A Turquia é um parceiro chave para a Europa", indicaram Jean-Claude Juncker, Federica Mogherini e Donald Tusk. "Apoiamos o governo eleito democraticamente", disseram.  

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