Com medo de represálias, venezuelanos ocultam voto

Temendo represálias, vários eleitores venezuelanos que se opõem à política do presidente Hugo Chávez evitam revelar em quem vão votar - pelo menos em entrevistas. A cautela dos eleitores é visível quando se visita a praça de Altamira, num bairro de classe média alta da região leste de Caracas, que já foi o quartel-general da oposição a Chávez. Donato Pontrandolfo, dono de um salão de barbeiro em Altamira, é um dos que evitam revelar o voto. "Tenho um candidato, mas como este é um lugar público, evitamos falar sobre isso", diz ele. "O voto é secreto", justifica.Ele não é o único. O motorista de táxi que fala pronta e espontaneamente contra Chávez, mesmo sabendo que o passageiro é jornalista, e garante que Rosales vai ganhar as eleições de domingo, muda de expressão e se cala quando se pergunta seu nome. "Acho melhor não falar. Nunca se sabe onde isso pode chegar", responde. Foi na praça Altamira que, em 2004, se concentraram os que faziam campanha, primeiro pela realização de um referendo de meio mandato que poderia abreviar o governo de Chávez. E depois, pelo voto em favor da redução do mandato.A violação do anonimato da lista de pessoas que assinaram a petição para a realização do referendo ainda está na lembrança de muitos venezuelanos. O episódio mais traumático é um que ficou conhecido como Lista Tascón, quando o deputado Luis Tascón divulgou a lista de pessoas que assinaram a petição para a realização do referendo para decidir se Chávez cumpria ou deixava o mandato no meio.Muitos venezuelanos denunciaram nos últimos anos que tiveram contratos ou empregos no governo recusados por constarem da lista.Sem medo Mas há eleitores da oposição sem papas na língua. O médico Ricardo Salomon declara abertamente que vai votar em Manuel Rosales por dois motivos: ele acha o governador de Zulia um político competente e ele é de oposição a Chávez."Ele tem uma proposta de governo, tem planos", diz ele. "E fundamentalmente porque os resultados do outro (Chávez) são muito ruins. Nunca entrou tanto dinheiro do petróleo no país e o que faz é dar, permitir que roubem, comprar apoio, como fez com a ONU, comprar o Lula, comprar o presidente da Argentina", afirma.Chávez, critica ele, produziu uma divisão "jamais vista" na Venezuela. "Aqui tem irmãos que não se falam, pais que não falam com os filhos", lamenta. A dona-de-casa Maria de Quiñones, de 78 anos, conta que votou em Chávez na primeira vez que ele se candidatou, em 1998. "Votei pelo que ele dizia que ia fazer, que ia acabar com a corrupção. Mas nada disso aconteceu", reclama. Agora, ela vai votar para tentar tirá-lo do governo, como já fez no referendo de 2004.Naquela época, conta, ela ainda acreditava que Chávez era um bom presidente e no início do processo pensava em votar pela sua permanência até o fim do mandato."Primeiro eu assinei para apoiá-lo. E depois para tirá-lo", contou. Ela acredita que Chávez perdeu o referendo, mas que houve uma fraude nos resultados favoráveis à sua permanência. Ela tem dez filhos, 29 netos e 36 bisnetos e diz que a maioria vai votar para a oposição no domingo. A praça é nossa Nesta sexta-feira, a praça continua sendo freqüentado pelos opositores, mas nesta semana que antecede a eleição presidencial, o local também foi tomado por chavistas. Um grupo de pouco mais de dez pessoas instalou caixas de som em frente à praça e prometia ficar a semana toda até o fim da campanha, na quinta-feira."Estamos aqui para mostrar que a praça é de todos os venezuelanos", disse a funcionária pública Eunice Felix, uma das mais animadas.Apesar do alto volume, os chavistas não conseguiram juntar público no local, ao contrário dos grandes grupos que o presidente consegue atrair em locais que lhe são mais favoráveis.

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