Com menos autonomia, Obama adota tom conciliador ao celebrar reeleição

Ao subir no palco para seu discurso de vitória, em Chicago, o presidente Barack Obama conclamou o país à união. Obama venceu com o apoio dos eleitores latinos, mulheres, jovens e negros, grupos que seu rival republicano Mitt Romney não conseguiu sensibilizar. Também ajudou seu argumento sobre a diferença entre sua visão de governo e a de seu adversário.

DENISE CHRISPIM MARIN, ENVIADA ESPECIAL / CHICAGO, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2012 | 02h01

"Nesta noite, mais de 200 anos depois de uma ex-colônia ter ganhado seu direito de determinar seu próprio destino, a tarefa de aperfeiçoar nossa união segue adiante. E vai em frente por causa de vocês. Porque vocês reafirmaram o espírito que tirou este país da profundeza do desespero às mais elevadas esperanças", disse.

A mensagem veio acompanhada, pouco adiante, por uma inusitada promessa, a de reunir-se com Romney nas próximas semanas para conversar sobre "como trabalhar juntos". Fustigado pela polarização política em Washington, que impediu a aprovação de várias de suas promessas de campanha, Obama apresentou-se mais conciliador, menos disposto a repetir erros e ansiosamente disposto a dialogar.

O suposto convite, porém, foi considerado uma forma de pressão. Thomas Mann, analista do Brookings Institution, afirmou ao Estado que Obama sempre esteve aberto ao diálogo com os republicanos, que sempre se recusaram. "Agora, ele está tentando pressioná-los a sentar-se à mesa. Os republicanos terão de mudar. Terão de se tornar menos ideológicos e mais prontos a resolver problemas, menos excludentes e mais respeitosos das diferenças, menos propensos ao individualismo e mais abertos à visão de comunidade."

A trégua tem chances remotas com a posse dos novos congressistas. O novo Congresso está ainda mais polarizado, com maior presença da esquerda no Senado e da direita radical na Câmara. A necessidade de os republicanos repensarem suas políticas deve demorar a ser digerida. A rigor, o eleitor republicano está se resumindo, cada vez mais, aos eleitores brancos. Obama foi eleito com 93% de votos dos negros - que compõem 13% do eleitorado -, 71% de votos dos latinos, 55% do voto feminino e 60% dos jovens.

Romney não indicou estar aberto ao diálogo, apesar de ter enfatizado em seu discurso ontem que está preocupado com a "situação crítica" vivida pelos EUA. "Eu rezo para o presidente ter sucesso na condução do país", disse. "Essa eleição terminou, mas os nossos princípios permanecem. Eu realmente queria preencher nossas esperanças e liderar o país em uma direção diferente, mas a nação escolheu outro líder."

O primeiro teste de diálogo entre Obama e a oposição republicana ocorrerá antes mesmo de sua posse para o segundo mandato, em 21 de janeiro. Sem acordo com a maioria opositora na Câmara, o impasse envolvendo o ajuste nas contas públicas pode levar o país à crítica situação de suspensão dos pagamentos de despesas correntes e da dívida federal logo no primeiro dia do ano. Obama poderá ser forçado a realizar um corte automático de despesas adicionais nas áreas social e de defesa. É o chamado "abismo fiscal", que levaria o país a uma nova crise e arruinaria o segundo mandato do presidente.

Segundo Thomas Mann, a polarização está clara no resultado eleitoral. Outros componentes, porém, podem facilitar a união entre democratas e republicanos. Entre esses fatores está o fracasso da estratégia republicana de manter uma oposição veemente ao governo Obama. O alerta do presidente foi direto ao ponto: sem acordo, a família americana morrerá toda abraçada.

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