Com Merkel como favorita, alemães decidem tendência de novo governo

Futuro da Europa. Pesquisas de opinião indicam que eleição de hoje deve manter no cargo a chanceler da Alemanha, aprovada por 60% da população, mas especialistas apontam que há três cenários muito distintos para a nova base do governo no Parlamento

RENATA MIRANDA, ESPECIAL PARA O ESTADO, BERLIM, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2013 | 02h07

Os olhos da Europa estarão voltados hoje para a Alemanha, que definirá em votação para o Bundestag (Parlamento) o governo que vai liderar o país pelos próximos quatro anos. Enquanto a reeleição da chanceler Angela Merkel para um terceiro mandato é dada quase como certa pelas pesquisas e por analistas, a coalizão que ela fará para formar o governo deve permanecer um mistério até o último minuto.

Pesquisas indicam uma disputa acirrada entre a centro-direita - representada pelos democratas-cristãos (CDU), de Merkel, por sua versão bávara (CSU) e pelos liberais (FDP) - e a centro-esquerda, dos social-democratas (SDP), dos verdes e do partido Die Linke (A Esquerda).

De acordo com análise feita a pedido do Estado pelo Departamento de Democracia e Democratização do Centro de Ciências Sociais de Berlin WZB, há três opções de coalizão possíveis: a atual, entre CDU, CSU e FDP; uma entre o SPD e os verdes; e uma terceira, chamada de "grande coalizão", entre CDU,CSU e SPD, semelhante à que governou o país de 2005 a 2009.

O candidato do SPD, Peer Steinbrücke, já disse que é contra a coalizão com Merkel, mas muitos analistas acreditam que a probabilidade de ela ser concretizada é alta, já que o FDP, atual parceiro de governo da CDU, vai mal nas pesquisas e muitos temem que a legenda não alcance nem os 5% dos votos necessários para enviar representantes ao Bundestag.

"É uma eleição de alta tensão, como há tempos não víamos aqui", disse o cientista político Jürgen Falter, da Johannes Gutenberg-Universität Mainz. "O resultado que indicará como será o próximo governo ainda é incerto, mas há grandes chances de Merkel continuar no poder."

Os índices de aprovação da chanceler são altos e ela é tão querida pela população que recebeu o apelido de "Mutti" (mamãe). Mais do que simpatizar com Merkel, o povo alemão confia nela. "Ela é uma figura política sóbria, que não promete o que não pode cumprir. E o eleitorado valoriza muito essa qualidade da chanceler", ressaltou Falter, que acredita que será o último mandato dela, caso seja confirmada no cargo.

Apesar dos dois mandatos que já somam oito anos no poder, a imagem de Merkel continua forte entre os alemães. "Ela conseguiu separar a sua popularidade pessoal da avaliação de seu governo e é por isso que, hoje, 60% da população quer que ela continue no cargo", afirmou o pesquisador Sven Regel, do Departamento de Democracia e Democratização do Centro de Ciências Sociais de Berlin WZB.

Essa alta aceitação do público foi usada por Merkel que, durante a campanha, adotou uma estratégia chamada por analistas de "desmobilização assimétrica", cujo princípio fundamental foi evitar se posicionar em tópicos controvertidos que pudessem afastar partidários.

"Um exemplo é a demanda do SPD pela criação de um salário mínimo na Alemanha", explicou o pesquisador Mario Datts, do Instituto de Ciências Políticas Otto-Suhr, da Freie Universität, de Berlim. "Embora a CDU não concorde com esse projeto, o partido evitou assumir uma posição clara e apoiou um estatuário mínimo em setores sem acordos coletivos salariais."

Mesmo sem saber qual será o próximo governo, seus principais desafios já estão definidos: lidar com as políticas energéticas, no âmbito interno, e gerenciar a crise econômica na Europa, no âmbito externo. "Como a Alemanha é atualmente o país com a economia mais sólida da região, é certo que as eleições terão um impacto forte na Europa como um todo", disse Regel.

Analistas acreditam que as políticas implementadas pelo governo devem continuar seguindo a linha atual mesmo que uma grande coalizão com o SPD seja formada. "A única diferença poderia ser o SPD insistir em uma estratégia mais orientada para o crescimento dos países mais endividados", explicou Datts.

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