AFP PHOTO / Diyar MUSTEFA
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Com mobilização da comunidade, Afrin se une para enfrentar ofensiva turca

Autoridades curdas da região ordenam 'mobilização geral', contrariando conservadorismo da sociedade síria, fomentam igualdade gênero - até mesmo na linha de frente da batalha -, e dizem que todas as formas de ajudar combatentes são válidas

O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2018 | 15h57

AFRIN, SÍRIA - Duas mulheres tiram a carne picada de uma panela fumegante. Em Afrin, alvo de uma ofensiva turca no norte da Síria, mães, tias e demais mulheres preparam a comida para as tropas curdas na frente de batalha.

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Apesar do conservadorismo da sociedade síria, que não garante direitos iguais para mulheres e homens, os curdos no norte do país fomentam a igualdade de gênero, incluindo na linha de frente das batalhas. Neste sentido, as autoridades da região decretaram uma "mobilização geral" para resistir à ofensiva de Ancara.

Assim, as mulheres que por algum motivo não puderem se juntar à batalha participam da preparação diária de centenas de almoços para os combatentes das Unidades de Proteção do Povo (YPG) e também para as combatentes das Unidades de Proteção das Mulheres (YPJ).

"Ajudamos nossos filhos, nosso povo, ajudamos a resistência", diz com orgulho Amal Adbu. Três de seus sobrinhos estão alistados nas forças curdas para combater a ofensiva da Turquia concentrada nesta cidade síria.

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Desde 20 de janeiro, Ancara conduz uma operação militar sem precedentes, com bombardeios contra este enclave fronteiriço para expulsar a milícia YPG, considerada terrorista pelo governo turco.

"Com nossa alma, como nossos filhos, defendermos Afrin até nossa última gota de sangue", insiste Abdu, mãe de uma menina e três meninos.

Os combatentes curdos, apoiados pelos EUA, foram essenciais na luta contra o grupo terrorista Estado Islâmico. Algumas mulheres, como a comandante Rojda Felat ou Clara Raqqa integraram o alto comando da ofensiva para a reconquista da cidade de Raqqa, então bastião dos jihadistas no norte do país.

Em nome da mulher

No menu do dia estão quibe e almôndegas de carne moída com triguilho, pratos típicos do Oriente Médio. Para acompanhar, Abdu lava pimentões verdes em uma bacia.

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A cozinha improvisada foi montada por iniciativa de Kongreya Star, uma organização feminista curda. Na região, há outras deste tipo. 

"Viemos em nome das mulheres para apoiar nossas forças YPG e YPJ", enaltece Amina Hamo, membro da Kongreya Star. "Muitas mulheres vêm de todos os cantos de Afrin para ajudar."

"Os turcos devem saber que as forças curdas não estão sós. Estamos ao lado dos combatentes e estamos preparadas para qualquer coisa que nos peçam", garante esta jovem de 23 anos.

Na frente dela, seis mulheres de várias idades sentadas no chão descascam e cortam cebolas. Em um canto do cômodo há dezenas de caixas de ovos empilhadas, juntamente com sacolas plásticas cheias de batatas.

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Como uma arma

Sentada em uma cadeira, uma mulher lava uma vasilha. Alguns tomates maduros estão de molho em um recipiente maior. 

Fatma Sliman supervisiona as operações na cozinha para a Kongreya Star. Seu filho e sua filha participam dos combates contra as forças turcas e os rebeldes sírios aliados de Ancara.

"Quando cozinhamos (para os combatentes e as combatentes), lhes damos força contra o inimigo", diz Fatma, que elogia todos os voluntários: "Tenho a impressão que eu também defendo (Afrin). O que fazemos é como uma arma, faz parte do combate". / AFP

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