Lam Yik Fei/The New York Times
Lam Yik Fei/The New York Times

Com nova lei de segurança em Hong Kong, internautas limpam redes sociais

Internautas têm apagado contas e limpado histórico de navegação de seus acessos pessoais

Yan Zhao e Su Xinqi / AFP, O Estado de S.Paulo

03 de julho de 2020 | 14h09

Desativar as contas, migrar para outras redes "seguras" e limpar o histórico de navegação. A lei de segurança imposta por Pequim provocou uma onda de pânico entre os internautas de Hong Kong, convencidos da importância vital de apagar dos computadores os vestígios de seu compromisso pró-democracia.

Na tarde de terça, o regime chinês impôs à ex-colônia britânica um texto polêmico que, segundo países estrangeiros, viola o princípio "um país, dois sistemas", garantidor das liberdades de Hong Kong inexistentes em outras regiões da China.

Até o último minuto, Pequim manteve em segredo o conteúdo dessa lei que busca suprimir a subversão, a secessão, o terrorismo e o conluio com forças estrangeiras, e que é uma resposta ao movimento de protesto que surgiu há um ano, sem precedentes desde 1997. Muitos juristas alertaram sobre a redação vaga de um texto que, à luz de qualquer interpretação, leva à autocensura.

Pequim garante que as liberdades políticas de Hong Kong não estão ameaçadas. Muitos lembram, porém, que o Partido Comunista costumava usar essas leis para reprimir a dissidência na China. 

Cuidado

"Alterei o nome do meu perfil e adotei uma conta privada para que minha empresa não possa ver minhas publicações que poderiam ser consideradas antichinesas, ou uma violação da lei de segurança nacional", diz o funcionário de uma grande empresa, cuja diretoria é, segundo ele, "pró-Pequim".

Ele acrescenta, sob anonimato, que será "muito cauteloso" em suas próximas publicações, por medo de que seus colegas, ou mesmo amigos, possam denunciá-lo.

Depois que a lei foi aprovada, muitas pessoas de Hong Kong anunciaram que estavam excluindo suas contas no Twitter, no Telegram, ou no Signal, enquanto outras compartilharam conselhos sobre as melhores maneiras de reduzir os rastros deixados na internet. "Para sua segurança, estamos excluindo todas as mensagens", anunciou o administrador de um grupo no Telegram muito seguido pelos grupos pró-democracia.

"Por favor, tenham cuidado com o que dizem", orientaram os administradores desse grupo. Um advogado simpatizante do movimento pró-democracia enviou uma mensagem para um jornalista da AFP pedindo-lhe que apagasse completamente sua conversa no WhatsApp. Outros relataram que migraram para o Signal, uma rede social considerada mais segura.

Os críticos da nova legislação denunciam, em particular, o fato de que a China terá jurisdição sobre alguns casos constitutivos de delito, minando a soberania judicial de Hong Kong, e que os policiais chineses poderão operar em Hong Kong, algo inédito até então. Outras preocupações incluem os poderes ampliados de vigilância concedidos à polícia, especialmente na área de escutas e acesso a comunicações na internet - sem supervisão judicial.

Questão de sobrevivência

Os provedores de redes virtuais privadas (VPN) constataram um aumento das vendas desde o anúncio da lei. Billie, assistente de 24 anos de um vereador, diz que começou a usar uma VPN em maio, quando a China anunciou seu projeto. Livrou-se de alguns seguidores em suas contas nas redes sociais e apagou postagens "sensíveis", mesmo que, em tese, a nova lei não seja retroativa.

"Sinto vergonha e me sinto desconfortável. Nunca quis fazer isso, mas me sinto obrigado. É uma questão de sobrevivência", diz ele à AFP, pedindo que sua identidade não seja revelada. "Foi uma parte de mim que desapareceu", desabafa. Essa limpeza não é apenas virtual. 

Vários restaurantes "pró-democracia" também decidiram tirar a colorida propaganda que decorava seus salões, sinais de apoio à rejeição ao regime chinês. Gordon Lam, um ativista pró-democracia, contou que pelo menos um restaurante lhe pediu conselhos após uma visita da polícia, que disse que os folhetos e cartazes nas paredes "poderiam estar violando a lei de segurança nacional".

"Parece que o governo está usando essa lei para pressionar as empresas amarelas", comentou ele, referindo-se à cor atribuída ao movimento pró-democracia, em oposição ao azul, que designa empresas favoráveis ao poder. 

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