Com nova usina, iranianos já vivem em um Estado nuclear

Com a recente ativação do reator nuclear de Bushehr, aprovada pela AIEA, o Irã deixou de ser um aspirante a membro do "clube" nuclear para se tornar um Estado nuclear. Assim, não é mais realista a proposta de negociar com Teerã enquanto são aplicadas sanções contra o país como se ele fosse um Estado pré-nuclear. Atualmente, o combustível de Bushehr é fornecido pelos russos, mas logo será substituído por combustível iraniano.

Análise: Alastair Crooke, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2010 | 00h00

E o Irã planeja construir muitos outros reatores. Nenhum país numa posição como esta - com a indústria doméstica cada vez mais dependente da eletricidade gerada por usinas nucleares - deve ter a intenção de permitir que um país estrangeiro seja seu único fornecedor de combustível. Isso equivaleria a manter como refém a maior parte da economia doméstica iraniana, e os estrangeiros seriam capazes de paralisar o país ao interromper a exportação de material nuclear.

Já que o contexto da questão nuclear mudou, a substância das negociações deve inevitavelmente mudar também. Os EUA chegam ao momento da ativação de Bushehr em meio a um prolongado debate em relação ao que deve ser feito se o Irã expulsar os inspetores e prosseguir no desenvolvimento de combustível com qualidade suficiente para a fabricação de uma arma nuclear.

O secretário da Defesa Robert Gates alertou no início do ano para a possibilidade de o urânio de baixo enriquecimento ser transformado secretamente em material suficientemente enriquecido para a fabricação de armas. Ele sugeriu que isso poderia ocorrer sem que o serviço americano de espionagem tomasse conhecimento, representando, assim, o risco de os EUA serem surpreendidos. Gates disse que a única solução para esse dilema seria os EUA influenciarem o Irã a ponto de obrigar o país a entregar a maior parte do seu material radiativo - eliminando, assim, a possibilidade de o Irã reunir combustível suficiente para desenvolver uma arma. "Influenciar" um país que já possui um ciclo de reator e combustível só pode significar ameaçar o Irã com a possibilidade de uma guerra ou uma contenção militar robusta caso seu estoque de combustível não seja devidamente "entregue".

É DIRETOR DO FÓRUM DE CONFLITOS, EM BEIRUTE

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