Jalil Rezayee/EFE
Jalil Rezayee/EFE

Taleban toma a 4ª maior cidade do Afeganistão e se aproxima da periferia de Cabul

Milícia agora está a 11 km da capital do país; presidente resiste e diz que não desistirá de 'conquistas' dos últimos 20 anos

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2021 | 10h27
Atualizado 14 de agosto de 2021 | 17h29

CABUL - O Taleban conquistou mais territórios neste sábado, 14, e se aproximou dos arredores da capital do Afeganistão. Os insurgentes tomaram uma grande cidade do norte, Mazar-e-Sharif, que era defendida por combatentes fiéis ao governo. A milícia já invadiu todo o norte, oeste e sul em uma ofensiva muito rápida, três semanas após os Estados Unidos retirarem suas últimas tropas. Há o temor de uma outra guerra civil no país.

Neste sábado, 14, o Taleban tomou toda a província de Logar, ao sul da capital, Cabul, e deteve autoridades locais, disse Hoda Ahmadi, uma parlamentar da província. Ela disse que a milícia já se instalou no distrito de Char Asyab, a apenas 11 quilômetros ao sul da capital.

Os insurgentes também tomaram  capital de Paktika, na fronteira com o Paquistão, segundo Khalid Asad, parlamentar da província. Ele disse que os combates começaram os ataques em Sharana no início deste sábado, mas cessaram a investida após intervenção de negociadores locais. Asad disse que o governador e outras autoridades se renderam e já estavam a caminho de Cabul.

Em Mazar-e-Sharif, a milícia atacou em várias frentes, desencadeando combates pesados ​​em seus arredores, de acordo com Munir Ahmad Farhad, porta-voz do governador da província. Não houve relatos sobre vítimas.

O Taleban já havia feito grandes avanços nos últimos dias, incluindo a tomada de Herat e Kandahar, a segunda e a terceira maiores cidades do país.  A queda de Mazar-e-Sharif, a quarta maior cidade do Afeganistão, entrega aos insurgentes o controle sobre todo o norte do país. A milícia agora controla 21 das 34 províncias, deixando o governo apoiado pelo Ocidente comandando um punhado de territórios no centro e no leste, além de Cabul.

O presidente afegão, Ashraf Ghani, fez um discurso pela TV neste sábado, 14, na sua primeira aparição pública desde a recente investida da milícia. Ele prometeu não desistir das "conquistas" dos 20 anos desde que os EUA tiraram o Taleban do poder no país após os ataques de 11 de setembro.

Negociadores americanos mantêm tratativas de paz entre o governo e o Taleban, no Catar desde o começo da semana. A comunidade internacional advertiu que um governo talibã criado pela força não será aceito. Os insurgentes, porém, parecem ter pouco interesse em fazer concessões ao mesmo tempo em que avançam suas tropas.

“Iniciamos consultas, dentro do governo, com líderes políticos, representantes de diferentes níveis da comunidade, bem como nossos aliados internacionais”, disse Ghani. “Em breve os resultados serão compartilhados com vocês”, acrescentou, sem dar mais detalhes.

"A remobilização de nossas forças de segurança e defesa é nossa prioridade número um e medidas sérias estão sendo tomadas para esse fim", disse Ghani, no discurso. 

O presidente voou para Mazar-e-Sharif na quarta-feira para reunir as defesas da cidade, e se encontrou com vários comandantes da milícia, incluindo Abdul Rashid Dostum e Ata Mohammad Noor, que comandam milhares de combatentesEles permanecem aliados do governo, mas durante  combates anteriores no Afeganistão eles mudaram de lado para sua própria sobrevivência. Ismail Khan, um poderoso comandante, que tentou defender Herat, foi capturado pelo Taleban quando os insurgentes tomaram a cidade ocidental após duas semanas de combates intensos.

Moradores de Mazar-e-Sharif disseram estar com medo. “A situação é perigosa fora e dentro da cidade”, disse Mohibullah Khan, acrescentando que muitos também estão com dificuldades financeiras. “A situação de segurança na cidade está piorando”, disse Kawa Basharat. “Eu quero paz e estabilidade. A luta deve ser interrompida.”

A retirada das forças estrangeiras e a rápida saída das próprias tropas do Afeganistão - apesar de centenas de bilhões de dólares em ajuda dos EUA ao longo dos anos - gerou temores de que o Taleban possa retornar ao poder ou que o país possa ser destruído por combates entre facções rivais, como aconteceu depois da retirada soviética em 1989.

Os primeiros fuzileiros navais, de um total de 3 mil homens, chegaram na sexta-feira, 13, para ajudar a evacuar parcialmente a embaixada dos Estados Unidos. O restante deve chegar neste domingo, 15.

Retirada das tropas dos EUA foi prometida para o fim do mês

No início deste ano, o presidente Joe Biden anunciou um cronograma para a retirada de todas as tropas dos EUA até o final de agosto, prometendo encerrar a mais longa guerra americana. Seu antecessor, Donald Trump, havia chegado a um acordo com o Taleban para preparar o caminho para a retirada dos homens.

O anúncio de Biden desencadeou a mais recente ofensiva. O Taleban, que há muito controla grande parte do interior do Afeganistão, agiu rapidamente para tomar as capitais provinciais, pontos de fronteira e outras infraestruturas importantes.

Dezenas de milhares de afegãos fugiram de suas casas, muitos temendo a volta do regime opressor do Taleban. O grupo já havia governado o Afeganistão sob uma versão severa da lei islâmica em que as mulheres ficavam confinadas em casa.

A embaixada dos EUA em Cabul ordenou que sua equipe destruísse documentos confidenciais e símbolos americanos que poderiam ser usados pelo Taleban "para fins de propaganda". 

Londres anunciou a redistribuição de 600 soldados para ajudar os britânicos a partir.

Vários países - Holanda, Finlândia, SuéciaItália e Espanha - também anunciaram na sexta-feira a redução ao mínimo de sua presença no país, bem como programas de repatriação para seus funcionários afegãos.  / AP e AFP

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