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Claudia Müller, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2016 | 22h37

Enquanto o presidente Nicólas Maduro e a oposição lutam pelo poder na Venezuela, a opção de muitos que querem escapar da crise não é outra se não a de deixar o país. Em meio a escassez de alimentos, falta de remédios até mesmo em hospitais, violência crescente e alta da inflação, venezuelanos de diversas idades e classes sociais procuram recomeçar a vida em outro lugar.

Para aqueles sem condições financeiras, o trajeto é feito de ônibus em rotas quase continentais. Eles se reúnem, formam grupos e trocam experiências de como proceder, achar o melhor itinerário e buscar oportunidades de emprego. Muitos escolhem permanecer na América Latina, em países como Chile e Equador. O Brasil também é um dos destinos, mas a barreira da língua desencoraja alguns dos imigrantes. 

Ainda assim, o número de solicitações de refúgio de venezuelanos para o País é maior do que a soma dos dois últimos anos, apenas nos primeiros sete meses de 2016. De janeiro a julho deste ano, o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) recebeu 1.247 pedidos de refúgio da Venezuela, ante 868 em 2015 e 223 no ano anterior. O perfil socioeconômico dessas pessoas, entretanto, só será conhecido após o processamento das solicitações, de acordo com o Conare.

O Estado conversou com pessoas de diferentes idades e condições econômicas, que têm em comum a falta de esperança na Venezuela. Com apenas 22 anos, Kevin terá de passar por quatro países numa travessia de mais de 6 mil quilômetros. Já Amy F. viu a família espalhar-se pelo continente americano com a crise. Ela também se mudou, para João Pessoa (PB), com o marido brasileiro. E Elaina Carrion, publicitária, começa a vender seus bens para sair do país.

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Claudia Müller, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2016 | 22h37

Aos 22 anos, Kevin está vendendo as poucas coisas que tem – uma geladeira, um computador e as peças de um celular quebrado – para juntar dinheiro para sair da Venezuela. Desanimado com a falta de segurança no país, ele pretende tomar um ônibus rumo ao Chile, levando o irmão de 17 anos. Quando chegar lá, precisa arrumar emprego e um lugar para morar – e então levará os pais, que agora ficarão na Venezuela.

Ao todo, a travessia deve durar quase uma semana. Somente a parte brasileira custará a eles de três a quatro dias, em mais de 2,8 mil quilômetros de viagem com saída de Puerto Ordaz, na Venezuela, e passagens por Manaus, Porto Velho e Guajará-Mirim, na divisa de Rondônia com a Bolívia. Até Porto Velho o trajeto será feito de ônibus, depois seguirão de táxi para a cidade rondoniense. Da casa dele no Estado de Táchira até o destino previsto no Chile, Iquique, são mais de 6,4 mil km.

Kevin pretende conseguir US$ 600 antes de sair do país, o que está programado para o fim de outubro. A viagem custará a ele US$ 200 e a outra parte do dinheiro será usada para recomeçar a vida. “Nós já vamos levar comida suficiente para dois e, caso precisemos dormir fora do ônibus, será na rodoviária, porque não temos dinheiro para alugar um lugar para ficar.”

No Chile não há nada arranjado, a ideia é conseguir qualquer emprego que aparecer. A única ajuda vem de uma amiga, que ofereceu moradia por um mês na casa da irmã, caso ele não consiga um lugar para morar.

Em dois anos Kevin se formaria em Letras, mas diz que não pode esperar. “Eu não quero ser morto por um celular ou um par de tênis antes da minha graduação”. A esperança em um país melhor se esvaiu há seis meses, quando viu a família cada vez mais pobre em meio a inflação e sem ninguém por perto que pudesse ajudar. “Eu estava pagando aluguel e comprando comida para nós quatro desde que meu pai perdeu o emprego, no começo da crise.” 

Um dos maiores problemas da família é a fome. Atualmente, eles fazem apenas duas refeições por dia: o café da manhã às 11 horas e o almoço às 17 horas, raramente conseguem jantar. De manhã, comem arepas, prato típico da Venezuela feito de massa de pão com milho moído. “Para o almoço temos arroz com ovo ou massa, carne apenas uma ou duas vezes na semana”. O arroz, entretanto, é um tipo destinado à animais, o único disponível para compra e quase do mesmo preço que a versão tradicional.

Kevin diz que nos tempos em que Hugo Chavéz era presidente “as coisas não eram melhores”, mas também o país não era tão destruído economicamente. “Eu trabalhava por menos da metade do salário que tenho hoje e conseguia viajar para a praia ou comprar roupas novas o tempo todo”, lembra. “Nós podíamos até comer fora de casa pelo menos duas vezes por mês. Hoje isso tudo é só um sonho”.

Nesse tempo, ele trabalhava em uma loja no shopping vendendo roupas. Com a chegada da crise, começou a trabalhar em um restaurante e agora é cozinheiro. “Quero conseguir muita experiência para minha viagem”. O pai era segurança quando foi demitido, mas conseguiu um emprego com um amigo e passou a vender peças de carros, ganhando pouco menos de um salário mínimo. “Sinto saudades daquele tempo quando podia sair à noite sem achar que levaria um tiro a cada esquina ou quando era possível comprar um carro, uma bicicleta, uma casa”, lamenta.

Ele conta com o apoio dos pais, que o ajudam a conseguir o dinheiro necessário. “Eles querem que eu faça essa viagem porque sabem que não há futuro para nós aqui, está frustrante e depressivo morar na Venezuela”. E não sabe explicar como se sente diante do desafio de emigrar. “Às vezes mal, às vezes encorajado, mas isso é o que tenho de fazer e tenho esperanças de que vou conseguir”. 

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Claudia Müller, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2016 | 22h37

O jantares em família em Monagas não existem mais. Para fugir da crise, a mãe de Amy F. partiu para os EUA em 2008. Ela sentiu que as coisas piorariam e decidiu sair. “Ela é uma mulher de negócios, uma empresária muito elegante, que hoje trabalha em uma fábrica.”

Uma de suas irmãs, que era uma psicóloga bem-sucedida na Venezuela, também trabalha em uma fábrica nos EUA. Os outros dois irmãos continuam na Venezuela, mas têm planos de partir. “Cada um vai para onde conseguiu trabalho”, conta. 

Há sete meses Amy conseguiu sair da Venezuela. Casada com um brasileiro radicado no país, se mudaram para João Pessoa, na Paraíba, quando o marido foi aprovado no programa Mais Médicos. Apesar dessa conquista, a vinda não foi fácil. “Aqui tem escassez de médicos, mas lá ele tinha um nome, era reconhecido.” 

Para ela, a dificuldade foi ainda maior. “Sinto como se estivesse num limbo, como se não pertencesse nem à Venezuela nem ao Brasil”, conta. Acostumada a trabalhar desde os 13 anos, Amy tinha uma vida consolidada no país de origem. “Aqui eu me sinto como uma menina, sendo sustentada economicamente e começando do zero, não sou mais nada do que era.”

O marido veio alguns meses antes para o Brasil, quando alugou um apartamento e comprou um carro, deixando para trás a vida de classe média que tinha na Venezuela. “Não viemos porque quisemos, mas porque estamos fugindo da criminalidade e da escassez”, relata Amy.

A filha de 6 anos do casal também passa por alguns transtornos na nova vida, como as piadas que escuta das outras crianças por não falar português. “O Brasil é vizinho, mas tem uma cultura muito diferente”, conta Amy. Mas mesmo com a pouca idade, a menina está certa de que quer continuar em João Pessoa. “Ela diz que prefere ficar aqui, onde não tem muitos amigos, do que na Venezuela onde não tem um copo de leite para tomar antes de dormir.”

No começo do mês, o marido e a irmã dele, também médica, foram à Venezuela visitar os irmãos de Amy e levar de tudo, desde papel higiênico até arroz. Quando os amigos médicos souberam da viagem, pediram para que eles também levassem medicamentos. Não há remédio nem para febre. “Além do que ele comprou para levar para os amigos, também deixou com eles roupas usadas e a comida que sobrou para passar a semana”, conta Amy. “Minha cunhada entregou o remédio para um pediatra e disse ‘salve uma vida no hospital’. Que tristeza um médico tendo de pedir remédios”.

Os dois irmãos de Amy, que ainda estão na Venezuela, gastam cerca de US$ 1,5 mil por mês com comida, para uma família de dois adultos e duas crianças. “Uma caixa de ovos com 30 unidades custa cerca de 20% do salário mínimo”, relata. 

Segundo ela, ainda há muitas pessoas em condições financeiras para viajar e sair da Venezuela, mas são obrigadas a ficar porque ninguém no país consegue pagar o que seus bens valem.

Amy também passou por isso e deixou tudo para trás. Ela gerenciava uma empresa familiar de mais de 20 anos, em que comprava casas, as arrumava e as vendia. Quando se preparava para sair do país, tinha ainda três casas. Só conseguiu vender uma e por 10% do preço. “Era uma casa de 287 m², com três quartos, em um condomínio fechado, mas com o dinheiro da venda só deu para comprar um carro usado aqui no Brasil”. As outras duas casas permanecem fechadas.

Na Venezuela, foi assaltada três vezes em um ano. “Eu nem ficava triste mais, sabia que aquelas pessoas tinham filhos chorando de fome e faziam isso no desespero”, explica. “O que mais levaram da minha casa foi comida, até da geladeira”. Eles moravam em um bairro de classe média, mas às 18 horas já estavam fechadas em casa.

De tantos arrombamentos, o carro já não tinha mais seguro. “Era mais caro arrumar a maçaneta da porta do que pagar o seguro, então deixava sem”. Nem mesmo a bateria do carro podia ficar nele. Toda noite, Amy precisava tirá-la e levá-la para dentro de casa para que não fosse roubada, apesar de morar em um condomínio fechado.

Quando já estava no Brasil, o condomínio em que morava foi assaltado. Os vizinhos conseguiram pegar o ladrão e chamaram a polícia. Após quase linchar o homem, o policial disse que deveriam tê-lo matado e queimado, porque ele seria solto no dia seguinte e voltaria a roubá-los. “As cadeias estão em colapso, não cabe mais ninguém, por isso todos estão sendo soltos logo”, explica. “Obviamente os vizinhos não fizeram isso, mas o policial sugeriu um assassinato. Parece o fim do mundo”.

Amy afirma não ter esperanças de voltar à Venezuela. “Deve levar uns 30 anos para o que o país volte ao que era antes.” Para ela, a maior tristeza são os sonhos que ficaram para trás. “O governo roubou meus sonhos de envelhecer junto da minha família.” 

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Claudia Müller, O Estado de S. Paulo

20 Agosto 2016 | 22h37

Elaina Patricia Mirabal Carrion ainda tem esperança no referendo revogatório que retiraria o presidente Nicolás Maduro do poder ainda este ano. Aos 38 anos, a publicitária luta por melhoras no país há 17. Manifestante contra o fechamento de um canal de TV a mando de Hugo Chávez tempos atrás, diz sonhar com o dia em que famílias não mais se despedirão dos filhos em aeroportos. “Acho que essa é a razão pela qual ainda não saí daqui.”

Mas essa luta contra os chavistas está lhe causando problemas e ameaças de simpatizantes do regime. “Meu filho quer ir embora, tem medo de que algo de ruim nos aconteça”. Diante disso, ela pôs à venda tudo o que possui e passou a planejar seu destino. Entre as opções estão Chile, Equador e Brasil. “A cotação do real é muito propícia e eu falo português, embora o alto índice de desemprego me preocupe”, diz.

Apesar dessa dificuldade, ela disse já ter ouvido relatos de pessoas que conseguem empregos que pagam somente o salário mínimo no Brasil, mas que isso é suficiente para comprar comida. “Para nós, venezuelanos, qualquer lugar é muito melhor do que a Venezuela”, lamenta. Elaina conhece histórias de conterrâneos que estão indo para Chile, Uruguai e Paraguai.

Caso se decida pelo Brasil, pretende fazer uma solicitação formal de refúgio. Elaina acredita haver uma crise humana na Venezuela. “Não há remédio nem para dor de cabeça aqui”. Como publicitária, tem um salário muito maior do que o mínimo, diz, mas não é suficiente para fazer compras. “Nossos filhos vivem na angústia de não saber o que vão comer e já estamos comendo um arroz destinado à ração animal.”

O problema da escassez de alimentos não afeta apenas os pobres. “Meu irmão esteve em um bairro de classe alta em Caracas e 1 kg de leite em pó custava 52 mil bolívares, o que equivale a dois salários mínimos”, conta a moradora de Maracay, no Estado de Aragua, a 120 km da capital. “Algumas mulheres da Síria me contaram que nem lá, onde há guerra, existe um problema de fome tão grande como aqui.”

Filha de uma equatoriana e casada com um português, Elaina lembra que o país estava acostumado a receber imigrantes e era rico em cultura. “O lugar que um dia foi o sonho latino-americano para muitos, hoje é um pesadelo para centenas de compatriotas.”

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