Beatriz Bulla / Estadao
Beatriz Bulla / Estadao

Com objetivo de retomar Câmara hoje, democratas miram redutos de Trump

Está em jogo o controle de importantes comissões legislativas que podem investigar o presidente em seus últimos dois anos de mandato

Beatriz Bulla, Enviada Especial / Utica, EUA, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2018 | 05h00
Atualizado 06 Novembro 2018 | 16h23

Ao norte da cidade de Nova York, o antigo polo fabril de Utica, no interior do Estado, passou quase 70 anos sem receber a visita de um presidente. Apesar de estar entre as dez regiões mais populosas do Estado, Utica era considerada remota demais - e pouco competitiva politicamente - para visitas presidenciais até as eleições de 2018. Em agosto, Donald Trump viajou à cidade para fazer campanha para a deputada republicana Claudia Tenney, rival do democrata Anthony Brindisi.

A região que elegeu Trump com 16 pontos de vantagem sobre Hillary em 2016 pode colaborar nesta terça-feira, 6, para impor ao presidente a derrota na Câmara se uma "onda democrata" apontada em pesquisas eleitorais se confirmar e retirar dos republicanos a maioria na Casa. Uma pesquisa da CNN Poll conduzida pelo instituto SSRS e divulgada na segunda-feira aponta que 55% dos eleitores preferem que os democratas obtenham o controle da Câmara dos deputados, contra 42% a favor dos republicanos.

Além da eleição para a Câmara, os americanos votam nesta terça-feira para renovar 35 das 100 cadeiras do Senado e 36 dos 50 governadores.  Trump trabalha até o último minuto como cabo eleitoral do partido. Não só porque as eleições de meio de mandato são consideradas o teste de popularidade de um presidente, mas também porque perder a Câmara significará turbulência na segunda metade de seu mandato, já que os democratas encabeçarão comissões de investigação - e Trump tenta se esquivar das apurações da Justiça sobre suposto conluio com a Rússia para interferência estrangeira nas eleições de 2016 e de problemas nas finanças da sua campanha presidencial.

O 22º Distrito Eleitoral de NY, do qual Utica faz parte, é considerado um potencial "swing district", que pode virar democrata na Câmara após ter eleito uma republicana na última eleição. A região é uma das 75 consideradas competitivas para a Câmara, isto é, onde o resultado é incerto.

Na cidade, os eleitores deixam clara a polarização política americana e o nome do presidente surge imediata e naturalmente quando a pergunta é "em quem votar". "Eu sou um republicano e fui apoiador de Trump desde o princípio", diz o pequeno empresário James Colomb. "Trump faz um trabalho muito bom, muito bom", completa.

A campanha da republicana Claudia Tenney colou a sua imagem em Trump e o nome do presidente é tão presente tanto quanto o dela em um dos escritórios de campanha. No sábado, Claudia teve o reforço da porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, para engajar a militância - um desafio que já levou ainda dois filhos de Trump à região. Sob garoa fina e 5ºC, apenas os voluntários - democratas ou republicanos - foram às ruas, entrando ou saindo de comitês de campanha.

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Sobre o risco de os republicanos perderem a maioria na Câmara, Colomb afirma que muitas pesquisas presidenciais estiveram erradas nos EUA e subestimaram o poder de Trump. "Acho que o mesmo vai acontecer agora", afirmou, cético sobre as pesquisas e sobre a imprensa americana crítica a Trump. Para o republicano, o tema central da campanha é a economia, a redução de impostos empreendida por Trump e a criação de empregos no país mês após mês - principais plataformas de campanha do presidente.

Utica é uma das 42 cidades do Estado de Nova York que viu a população diminuir entre 2010 e 2017, diante de estagnação econômica após um processo de desindustrialização semelhante ao que ocorreu mais à oeste, no chamado Cinturão da Ferrugem. Depois de ser um polo de indústria têxtil dos EUA a cidade ainda recebeu uma fábrica General Eletrics (G.E.) até 1992, mas desde a saída das empresas vive a diminuição da sua população. Na cidade, 31% da população é considerada pobre, segundo o Censo dos EUA - mais do que o dobro da taxa nacional (12,3%).

O Cinturão da Ferrugem, essencial para eleger o republicano em uma mudança de padrão eleitoral em 2016, será outro teste de força de Trump. Em artigo no New York Times, Timothy Carney, autor de Alienated America (América alienada, em tradução livre) - sobre a prosperiedade e colapso nos EUA -, avalia que Trump não conseguiu resolver os problemas sociais da região, o que pode fazer com que ele perca o apoio. "Os eleitores do Cinturão da Ferrugem nas últimas eleições e nestas declaram uma profunda insatisfação que persiste mesmo em tempos econômicos bons, porque está fundamentada em algo cultural e profundamente local: o colapso da comunidade", escreve.

Trump usou o apelo econômico na visita à cidade: "Eles (democratas) querem aumentar seus impostos, abrir as fronteiras e (…) querem acabar com a Segunda Emenda (à Constituição)", disse sobre os opositores. A menção à Segunda Emenda - que protege o direito da população de manter e portar armas - também sensibiliza eleitores na cidade, que abrigou uma fábrica de armas que atendeu o Exército americano durante a 1ª Guerra e a 2ª Guerra, com registro de 9 mil funcionários trabalhando.

Atualmente, o prédio de tijolos que domina um quarteirão inteiro está completamente abandonado. No final dos anos 70, o local foi vendido e se tornou um outlet, chamado Charlestown USA Mall - nome pelo qual é conhecido pelos moradores da região até hoje -, e viveu seu esplendor nos anos 80 com lojas e restaurantes e empresas, mas foi fechado em 1991.

O candidato democrata, Anthony Brindinsi, rejeita ser anti-Trump. "Somos pró-povo. As pessoas no distrito sentem que a atual representante ignora as necessidades da população", disse o candidato ao Estado.

Para o jamaicano Damian Ffrench, que trabalha em empresa de seguros de saúde e vive no país há quase 30 anos, é preciso mudar a maioria da Câmara. "Os republicanos deixam Trump seguir com o que ele quer e não há nada humano nele. Tudo o que ele vê é dinheiro. Sou o único negro no meu trabalho, antes de Trump as pessoas não ousariam te odiar na sua cara", afirma, em referência à retórica agressiva do presidente americano, o que rendeu a Trump uma tormenta na reta final da campanha após o atentado a uma sinagoga de Pittsburgh. Ffrench faz parte dos 52% da população americana que desaprova o mandato de Trump, segundo o agregador de pesquisas FiveThirtyEight.

No Senado, a situação de Trump é mais confortável. Os republicanos devem manter a maioria, já que das 35 vagas em disputa, apenas 9 são de senadores republicanos - as outras 24 são de democratas, a maioria eleita em 2012, durante mandato de Barack Obama.

O voto não é obrigatório nos EUA. Por isso, o grande desafio de ambos os partidos é incentivar seus eleitores a votar. Além disso, a economia americana, que normalmente seria um fator positivo e tema da campanha republicana, perdeu espaço para a imigração – um assunto muito mais emocional.

O presidente foi sincero na sexta-feira, em comício feito no Estado de Virgínia Ocidental. "Todo mundo pede para eu falar sobre a economia", disse Trump. "Temos hoje a melhor economia de toda a história dos EUA. Mas falar de economia muitas vezes é muito chato. Que tal falar sobre a caravana?", continuou o presidente - em referência à marcha de 7 mil imigrantes da América Central que se aproxima dos EUA.

Anti-Trump e indecisa

Naomi Starsiak, nascida e criada no norte do Estado de Nova York, ainda não sabe em quem votará nas eleições legislativas para a Câmara dos Deputados. Ela é parte dos 9% indecisos do 22º Distrito Eleitoral do Estado, segundo pesquisa divulgada no New York Times, e que portanto poderá definir se o partido de Trump ganha ou perde cadeiras no Congresso.

A americana se diz mais próxima dos republicanos, mas não gosta de Trump. "Eu sou cristã. E as palavras que ele usa, o que ele fala, não são coisas que um cristão diria ou pregaria. Ele está mentindo sobre ser cristão e, se mente sobre isso, sobre o que mais vou saber que mentiria para conquistar um grupo de eleitores?", questiona, em crítica a discursos do presidente republicano que considera agressivos.

Ela também critica medidas protecionistas empreendidas pelo governo americano, como a imposição de tarifas sobre produtos chineses e diz que, em todo o país, há industriais sofrendo com as medidas.

Naomi é doula, auxilia mulheres no parto, e já foi voluntária em eleições anteriores. Nesta, não sabe se dá suporte ao partido de Trump ou muda para os democratas. Um dos fatores que a faz tender para os republicanos no Congresso novamente, segundo ela, é o receio de que os democratas empreendam no Estado uma regulação mais forte do porte de armas de fogo.

"Essa é uma região onde a caça é muito importante", afirma. "E também somos muito orgulhosos da revolução", diz, ao mencionar o movimento de independência com relação à Inglaterra. "Somos dessa região, aprendemos essas questões culturais, relacionadas à importância e ao direito na 2ª Emenda sobre armas", afirma.

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