Com Ômicron, países decidem conviver com o coronavírus, mas especialistas alertam para perigo

O coronavírus não vai desaparecer, mas isso não significa que resistir é inútil, afirmam cientistas

Joel Achenbach, The Washington Post - O Estado de S.Paulo

Países de todo o mundo estão fazendo um giro sutil mas significativo em sua guerra contra o coronavírus. Vencer o vírus não é mais a estratégia. Muitos países estão simplesmente atrás do empate.

Trata-se de um recuo estratégico, sinalizado de maneiras explícitas e sutis, de Washington a Madri, a Pretória, África do Sul, a Camberra, Austrália. De maneira perceptível, poucos países atualmente além da China - que está aplicando lockdowns em certas cidades - aferram-se a uma estratégia "covid zero".

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A frase com frequência ouvida dos EUA e muitos outros países é "conviva com o vírus".  Essa nova posição é aplaudida por algumas autoridades e cientistas - e é elogiada por pessoas cansadas com as dificuldades e perturbações da emergência de saúde global que entra em seu terceiro ano.

Pessoas usam máscara em mercado público na cidade de Jammu, na Índia. Foto: AP Photo/Channi Anand

Mas também há especialistas em doenças que temem a possibilidade do pêndulo oscilar demais para o outro lado. Eles se preocupam que líderes mundiais estejam apostando em um resultado relativamente benigno do surto de Ômicron e mandando mensagens que levarão pessoas normalmente prudentes a abandonar o distanciamento social e o uso de máscaras, que sabidamente limitam a disseminação do patógeno. Epidemiologistas afirmam que a estratégia "conviva com isso" subestima perigos apresentados pela Ômicron.

"Essa noção de aprender a conviver com o coronavírus para mim sempre significou render-se, desistir", afirmou a epidemiologista Maria Van Kerkhove, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A virologista Angela Rasmussen, da Universidade de Saskatchewan, teme, da mesma maneira, que as pessoas estejam relaxando prematuramente as precauções sensatas. "Entendo a tentação de dizer, 'Eu desisto, isso é demais'. Dois anos é muito tempo. Todo mundo está cansado disso. Eu odeio isso. Mas isso não significa que o jogo está perdido."

A OMS declarou oficialmente a situação internacional de emergência de saúde pública em 30 de janeiro de 2020, quando havia na China 7.711 casos confirmados de covid-19 e 170 mortes decorrentes da doença - além de outros 83 casos espalhados por 18 países e nenhuma morte nesses lugares.

Dois anos depois, o vírus matou mais de 5,5 milhões de pessoas, e a pandemia continua. Mas a emergência de saúde global evoluiu - transformada pelas ferramentas acionadas para combatê-la, incluindo as vacinas. O coronavírus e a doença que ele causa se tornaram tão familiares que já não assustam tanto quanto no início da pandemia.

Nenhum líder nacional diria que é hora de parar de lutar, mas o tom do desafio mudou, com poucas menções a superar, erradicar ou derrotar o vírus. O SARS-CoV-2 é agora parte do mundo, um vírus "pantrópico" capaz de infectar pessoas, cervos, martas, ratos e todo tipo de mamíferos.

Muitos países continuam a impor obrigatoriedades de uso de máscara e vacinação e restrições a viagens. Mas poucos líderes de sociedades democráticas detêm capital político para adotar medidas duras para suprimir a transmissão. Mesmo a chegada da ultra transmissível variante Ômicron não fez o mundo retroceder ao inverno de 2021, quando o objetivo principal ainda era impedir a disseminação viral a qualquer custo - muito menos à primavera de 2020, quando as pessoas foram orientadas a ficar em casa, desinfetar embalagens e alimentos e não tocar no rosto.

Mesmo as autoridades da Austrália, bastião desde o início da supressão do vírus a qualquer custo, escolheram aliviar algumas restrições nas semanas recentes.

O país chegou às manchetes de todo o planeta pela maneira como tratou o não vacinado campeão de tênis Novak Djokovic. Mas outro assunto nacional na Austrália é o debate a respeito das restrições que foram relaxadas. Líderes nacionais e estaduais tinham acordado que as medidas rígidas seriam levantadas quando 80% da população qualificada para vacinação fosse imunizada. Esse índice foi alcançado meses atrás, e agora mais de 90% da população qualificada para vacinação se imunizou. O uso de máscaras ainda é obrigatório em alguns ambientes internos, e existem limites de frequência em estabelecimentos abertos ao público, mas líderes da oposição e alguns especialistas denunciam uma estratégia de "deixar rolar".

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16/01/2022

"A decisão de remover restrições no momento de surto da Ômicron teve um custo muito alto", declarou um relatório de um grupo independente de especialistas chamado  OzSAGE. "A estratégia do 'deixar rolar' e a narrativa derrotista de que 'todos vamos nos contaminar' ignoram a dura realidade vivida pelas pessoas vulneráveis da nossa sociedade."

Na África do Sul, onde as autoridades soaram inicialmente o alarme a respeito da Ômicron, o governo aliviou protocolos em dezembro, apostando que contatos anteriores da população com o vírus lhe deram imunidade suficiente para evitar índices significativos de casos graves. A onda de Ômicron abrandou rapidamente no país, causando poucas hospitalizações, e cientistas acham que um dos motivos para isso seja que muita gente - perto de 80% da população - já tinha sido infectada por variantes anteriores do coronavírus.

A Ômicron também parece ser menos virulenta - e menos capaz de causar doenças. Essa variante amplamente mutante consegue evitar a defesa de frente dos anticorpos gerados por vacinas e infecções anteriores, mas parece não ser capaz de invadir os pulmões nem de escapar das defesas mais profundas do sistema imunológico.

No cenário ideal, a alarmante onda de infecções pela Ômicron atingirá o pico rapidamente, deixando atrás de si um rastro de imunidade que manteria uma ampla fatia da população menos vulnerável a futuras infecções. Esta poderia ser a última grande onda da pandemia disruptiva globalmente. O coronavírus ainda circularia, mas não seria classificado numa categoria especial, separada de outros vírus não fatais que circulam rotineiramente, como o influenza.

Há outros cenários menos atraentes. Cientistas apressam-se em apontar que não sabem quanto dura a imunidade induzida pela Ômicron. O vírus continua a sofrer mutações. Variantes esquivas, carregadas de maior virulência, poderiam emergir, e virologistas afirmam que, ao contrário do que às vezes se afirma, os vírus não evoluem inexoravelmente para variantes mais brandas.

Mas os humanos também mudam. Fora da China em lockdown, a maioria das pessoas perdeu a ingenuidade imunológica em relação ao coronavírus. Cientistas acreditam que este fator influi sobre a relativamente baixa gravidade da covid causada pela Ômicron. No longo prazo, humanos e vírus tendem a alcançar um empate. Somente um vírus causador de doença, o da varíola, foi erradicado até hoje.

No curto prazo, especialistas acreditam que a Ômicron é essencialmente incontrolável, mas apresenta ameaça limitada para as pessoas, mesmo provocando caos social. Ali Mokdad, epidemiologista do Instituto para Métricas e Avaliações em Saúde da Universidade de Washington, afirmou acreditar que aproximadamente metade da população dos EUA será infectada pela Ômicron nos próximos três meses, com a maioria dos casos de covid assintomática.

"Não há como impedir sua disseminação - a não ser que adotemos medidas como da China, e sabemos que isso não é possível nos EUA", afirmou Mokdad.

'Nova normalidade'

Não existe uma resposta unificada e global à pandemia. Apesar dos chamados por "seguir a ciência", a pesquisa científica não pode ditar as melhores políticas para alguns assuntos mais complicados - como o momento de reabrir escolas para o ensino presencial, quem deve ser priorizado para tomar a vacina ou se pessoas sem sintomas devem ser testadas regularmente.

As estratégias nacionais refletem tipicamente a cultura dos países, sua riqueza, a estrutura de seu governo, demografia e condições de saúde subjacentes. Também refletem sua geografia: a Nova Zelândia foi capaz de registrar apenas algumas dezenas de mortes por covid-19, um dos índices per capita mais baixos do mundo, valendo-se de seu isolamento no Pacífico Sul.

Japão, Cingapura e Coreia do Sul, países com um longo histórico de uso de máscaras e medidas agressivas de supressão de epidemias, conseguiram em grande parte manter o coronavírus sob controle sem lockdowns draconianos nem grandes sacrifícios às suas economias.

O Peru, castigado pelas variantes Lambda e Gama antes das ondas de Delta e Ômicron se assomarem, apresentou o mais alto índice de mortes per capita do mundo, de acordo com o site de monitoramento do coronavírus da Universidade Johns Hopkins. Países do Leste Europeu, com populações mais idosas e alto índice de ceticismo em relação às vacinas, ficam pouco atrás.

Países têm maneiras diferentes e por vezes não confiáveis de documentar a pandemia, mas algumas tendências gerais são evidentes. Entre os países mais ricos, os EUA - onde a pandemia é amplamente polarizada, a desinformação é descontrolada e uma fatia significativa da população rejeita a vacinação - tiveram uma pandemia excepcionalmente mortífera. De acordo com o site da Universidade Johns Hopkins, os EUA ocupam a 21.ª posição no ranking de países com mais mortes per capita. O Reino Unido não desempenhou muito melhor, ocupando o 28.º lugar, enquanto o Canadá é o 82.º.

Um grupo de médicos que aconselhou o presidente Biden durante a transição presidencial pediu uma nova estratégia que reconheça a "nova normalidade" na convivência com o coronavírus, que tem pouca chance de ser erradicado e provavelmente continuará a provocar casos tipicamente brandos de covid-19 e exigirá doses de reforço de vacina a um ritmo ainda a ser determinado.

Biden assumiu a presidência quase um ano atrás prometendo acabar com a pandemia, após vencer a eleição em parte por enfatizar a necessidade de uma postura mais agressiva contra o contágio do que a do ex-presidente Donald Trump. O governo Biden estimulou com força a vacinação e na primavera viu milhões de pessoas arregaçarem a manga diariamente para tomar a injeção. No 4 de Julho, após o número de casos baixar, Biden reuniu uma multidão no Gramado Sul da Casa Branca para celebrar sua independência em relação ao vírus.

Mas a alta nas infecções e mortes decorrentes da variante Delta provou que a celebração foi prematura, e os Centros para Controle e Prevenção de Doenças revisaram suas diretrizes afirmando que até pessoas completamente vacinadas deveriam voltar a usar máscaras em ambientes fechados. A onda da variante Delta começou a recuar no outono, mas a Ômicron, repleta de mutações que a tornaram extremamente mais transmissível e evasiva ao sistema imunológico, emergiu no fim de novembro.

A estratégia de Biden contra a Ômicron não é significativamente diferente da que o presidente empregou contra as variantes anteriores. Em 2 de dezembro, ele detalhou seus planos primeiramente anunciando o que não faria: "lockdowns". Biden prometeu distribuir 500 milhões de testes rápidos e dobrou esse número nos dias recentes. Sua força-tarefa de combate à covid continua a enfatizar a importância de vacinas, tratamentos e testagens em vez de restrições sobre mobilidade e reuniões.

Fatalismo e fadiga

A mudança na direção da estratégia "conviva com isso" em muitos países, incluindo nos EUA, com frequência ocorre sem o reconhecimento formal de seus líderes nacionais. A Espanha é uma das exceções: o primeiro-ministro Pedro Sánchez disse querer que a União Europeia pare de rastrear a covid separadamente enquanto doença e reconheça que o coronavírus está se tornando um patógeno endêmico.

Do outro lado dos Pirineus, as casas noturnas francesas fecharam com a disseminação da Ômicron. Uso de máscaras em ambientes internos é exigido, independentemente do status de vacinação das pessoas. Em bares, os frequentadores não podem consumir álcool de pé. A França, como a Itália e muitos outros países europeus, tem se apoiado fortemente nos passaportes de vacinação.

O presidente francês, Emmanuel Macron, é franco a respeito de seu desejo de dificultar a vida dos não vacinados limitando seu acesso a espaços públicos. Em entrevista a um jornal, ele usou linguagem vulgar, que foi traduzida ao português como "Eu realmente quero encher o saco deles".

Muitos líderes globais, incluindo dos EUA e da Europa, têm colocado o foco na vacinação como o principal elemento para mitigar a pandemia. As vacinas realmente diminuem o risco de casos graves de covid. O que elas não fazem bem é impedir a transmissão do coronavírus, nem casos brandos de infecção. A velocidade da disseminação da Ômicron é o fator-chave na equação que determina quanta pressão a variante colocará sobre os hospitais - que atualmente atendem um número recorde de pacientes infectados por covid nos EUA.

"Se nós simplesmente relaxarmos por completo e permitirmos que a epidemia de Ômicron se alastre naturalmente, sobrecarregaremos completamente nosso sistema de saúde e ficaremos diante de uma situação pior do que a do início de 2020", afirmou  James Lawler, codiretor do Centro Global para Segurança Sanitária do Centro Médico da Universidade de Nebraska.

Ele não está vendo as mesmas precauções que viu no início da pandemia, quando esteve entre os primeiros especialistas a soar o alarme a respeito da extrema transmissibilidade do coronavírus. No início da semana, quando foi ao mercado comprar alimentos, ele era praticamente a única pessoa usando máscara. Esse é o estado das coisas em Omaha, afirmou ele.

"Não há obrigatoriedade", afirmou ele. "Ao longo de toda a trajetória da humanidade, deveríamos ter aprendido, a este ponto, que a única maneira de obter altos índices de observância a recomendações de segurança é tornando-as obrigatórias. Foi assim com os cintos de segurança."

Após Lawler fazer esses comentários, um comissário local de saúde impôs uma obrigatoriedade de uso de máscaras que abrangeu Omaha, mas o procurador-geral de Nebraska abriu um processo judicial para bloquear a medida.

Existe um fatalismo que se mistura à fadiga em relação à pandemia e, em alguns países, à negação da ciência ou a alguma rejeição ideológica em relação a restrições e obrigatoriedades que muitos especialistas em saúde consideram medidas de bom senso durante uma pandemia. E de maneira individual as pessoas podem considerar racionalmente que a batalha está perdida e que o vírus venceu.

Autoridades de saúde pública alertam que essa atitude é perigosa. É verdade que individualmente o risco pode ser baixo. Mas quando um vírus se espalha tão rapidamente quanto a variante Ômicron do coronavírus, essa equação subitamente adquire resultados alarmantes: milhões de pessoas doentes ao mesmo tempo, muitas delas com problemas subjacentes que já as colocam à beira do abismo, vulneráveis a um mero empurrão.

Rasmussen, a virologista da Universidade de Saskatchewan, integra o time de especialistas que consideram que as pessoas confundem o conceito de endemicidade - o ponto em que um vírus continua a circular em baixa intensidade, sem gerar surtos de nível epidêmico. Ela teme que algumas pessoas percebam a narrativa do "vírus endêmico" como um sinal de que é inútil resistir.

"As pessoas acham que isso significa simplesmente desistirmos", afirmou ela. "Acham que 'endêmico' significa que todos pegaremos covid, por fim. Escuto pessoas dizerem, 'Por que não pego covid logo e fico à prova de balas?' Nada disso significa endemicidade." /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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Joel Achenbach, The Washington Post - O Estado de S.Paulo

Países de todo o mundo estão fazendo um giro sutil mas significativo em sua guerra contra o coronavírus. Vencer o vírus não é mais a estratégia. Muitos países estão simplesmente atrás do empate.

Trata-se de um recuo estratégico, sinalizado de maneiras explícitas e sutis, de Washington a Madri, a Pretória, África do Sul, a Camberra, Austrália. De maneira perceptível, poucos países atualmente além da China - que está aplicando lockdowns em certas cidades - aferram-se a uma estratégia "covid zero".

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Pessoas usam máscara em mercado público na cidade de Jammu, na Índia. Foto: AP Photo/Channi Anand

Mas também há especialistas em doenças que temem a possibilidade do pêndulo oscilar demais para o outro lado. Eles se preocupam que líderes mundiais estejam apostando em um resultado relativamente benigno do surto de Ômicron e mandando mensagens que levarão pessoas normalmente prudentes a abandonar o distanciamento social e o uso de máscaras, que sabidamente limitam a disseminação do patógeno. Epidemiologistas afirmam que a estratégia "conviva com isso" subestima perigos apresentados pela Ômicron.

"Essa noção de aprender a conviver com o coronavírus para mim sempre significou render-se, desistir", afirmou a epidemiologista Maria Van Kerkhove, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A virologista Angela Rasmussen, da Universidade de Saskatchewan, teme, da mesma maneira, que as pessoas estejam relaxando prematuramente as precauções sensatas. "Entendo a tentação de dizer, 'Eu desisto, isso é demais'. Dois anos é muito tempo. Todo mundo está cansado disso. Eu odeio isso. Mas isso não significa que o jogo está perdido."

A OMS declarou oficialmente a situação internacional de emergência de saúde pública em 30 de janeiro de 2020, quando havia na China 7.711 casos confirmados de covid-19 e 170 mortes decorrentes da doença - além de outros 83 casos espalhados por 18 países e nenhuma morte nesses lugares.

Dois anos depois, o vírus matou mais de 5,5 milhões de pessoas, e a pandemia continua. Mas a emergência de saúde global evoluiu - transformada pelas ferramentas acionadas para combatê-la, incluindo as vacinas. O coronavírus e a doença que ele causa se tornaram tão familiares que já não assustam tanto quanto no início da pandemia.

Nenhum líder nacional diria que é hora de parar de lutar, mas o tom do desafio mudou, com poucas menções a superar, erradicar ou derrotar o vírus. O SARS-CoV-2 é agora parte do mundo, um vírus "pantrópico" capaz de infectar pessoas, cervos, martas, ratos e todo tipo de mamíferos.

Muitos países continuam a impor obrigatoriedades de uso de máscara e vacinação e restrições a viagens. Mas poucos líderes de sociedades democráticas detêm capital político para adotar medidas duras para suprimir a transmissão. Mesmo a chegada da ultra transmissível variante Ômicron não fez o mundo retroceder ao inverno de 2021, quando o objetivo principal ainda era impedir a disseminação viral a qualquer custo - muito menos à primavera de 2020, quando as pessoas foram orientadas a ficar em casa, desinfetar embalagens e alimentos e não tocar no rosto.

Mesmo as autoridades da Austrália, bastião desde o início da supressão do vírus a qualquer custo, escolheram aliviar algumas restrições nas semanas recentes.

O país chegou às manchetes de todo o planeta pela maneira como tratou o não vacinado campeão de tênis Novak Djokovic. Mas outro assunto nacional na Austrália é o debate a respeito das restrições que foram relaxadas. Líderes nacionais e estaduais tinham acordado que as medidas rígidas seriam levantadas quando 80% da população qualificada para vacinação fosse imunizada. Esse índice foi alcançado meses atrás, e agora mais de 90% da população qualificada para vacinação se imunizou. O uso de máscaras ainda é obrigatório em alguns ambientes internos, e existem limites de frequência em estabelecimentos abertos ao público, mas líderes da oposição e alguns especialistas denunciam uma estratégia de "deixar rolar".

Seu browser não suporta vídeos em HTML5

16/01/2022

"A decisão de remover restrições no momento de surto da Ômicron teve um custo muito alto", declarou um relatório de um grupo independente de especialistas chamado  OzSAGE. "A estratégia do 'deixar rolar' e a narrativa derrotista de que 'todos vamos nos contaminar' ignoram a dura realidade vivida pelas pessoas vulneráveis da nossa sociedade."

Na África do Sul, onde as autoridades soaram inicialmente o alarme a respeito da Ômicron, o governo aliviou protocolos em dezembro, apostando que contatos anteriores da população com o vírus lhe deram imunidade suficiente para evitar índices significativos de casos graves. A onda de Ômicron abrandou rapidamente no país, causando poucas hospitalizações, e cientistas acham que um dos motivos para isso seja que muita gente - perto de 80% da população - já tinha sido infectada por variantes anteriores do coronavírus.

A Ômicron também parece ser menos virulenta - e menos capaz de causar doenças. Essa variante amplamente mutante consegue evitar a defesa de frente dos anticorpos gerados por vacinas e infecções anteriores, mas parece não ser capaz de invadir os pulmões nem de escapar das defesas mais profundas do sistema imunológico.

No cenário ideal, a alarmante onda de infecções pela Ômicron atingirá o pico rapidamente, deixando atrás de si um rastro de imunidade que manteria uma ampla fatia da população menos vulnerável a futuras infecções. Esta poderia ser a última grande onda da pandemia disruptiva globalmente. O coronavírus ainda circularia, mas não seria classificado numa categoria especial, separada de outros vírus não fatais que circulam rotineiramente, como o influenza.

Há outros cenários menos atraentes. Cientistas apressam-se em apontar que não sabem quanto dura a imunidade induzida pela Ômicron. O vírus continua a sofrer mutações. Variantes esquivas, carregadas de maior virulência, poderiam emergir, e virologistas afirmam que, ao contrário do que às vezes se afirma, os vírus não evoluem inexoravelmente para variantes mais brandas.

Mas os humanos também mudam. Fora da China em lockdown, a maioria das pessoas perdeu a ingenuidade imunológica em relação ao coronavírus. Cientistas acreditam que este fator influi sobre a relativamente baixa gravidade da covid causada pela Ômicron. No longo prazo, humanos e vírus tendem a alcançar um empate. Somente um vírus causador de doença, o da varíola, foi erradicado até hoje.

No curto prazo, especialistas acreditam que a Ômicron é essencialmente incontrolável, mas apresenta ameaça limitada para as pessoas, mesmo provocando caos social. Ali Mokdad, epidemiologista do Instituto para Métricas e Avaliações em Saúde da Universidade de Washington, afirmou acreditar que aproximadamente metade da população dos EUA será infectada pela Ômicron nos próximos três meses, com a maioria dos casos de covid assintomática.

"Não há como impedir sua disseminação - a não ser que adotemos medidas como da China, e sabemos que isso não é possível nos EUA", afirmou Mokdad.

'Nova normalidade'

Não existe uma resposta unificada e global à pandemia. Apesar dos chamados por "seguir a ciência", a pesquisa científica não pode ditar as melhores políticas para alguns assuntos mais complicados - como o momento de reabrir escolas para o ensino presencial, quem deve ser priorizado para tomar a vacina ou se pessoas sem sintomas devem ser testadas regularmente.

As estratégias nacionais refletem tipicamente a cultura dos países, sua riqueza, a estrutura de seu governo, demografia e condições de saúde subjacentes. Também refletem sua geografia: a Nova Zelândia foi capaz de registrar apenas algumas dezenas de mortes por covid-19, um dos índices per capita mais baixos do mundo, valendo-se de seu isolamento no Pacífico Sul.

Japão, Cingapura e Coreia do Sul, países com um longo histórico de uso de máscaras e medidas agressivas de supressão de epidemias, conseguiram em grande parte manter o coronavírus sob controle sem lockdowns draconianos nem grandes sacrifícios às suas economias.

O Peru, castigado pelas variantes Lambda e Gama antes das ondas de Delta e Ômicron se assomarem, apresentou o mais alto índice de mortes per capita do mundo, de acordo com o site de monitoramento do coronavírus da Universidade Johns Hopkins. Países do Leste Europeu, com populações mais idosas e alto índice de ceticismo em relação às vacinas, ficam pouco atrás.

Países têm maneiras diferentes e por vezes não confiáveis de documentar a pandemia, mas algumas tendências gerais são evidentes. Entre os países mais ricos, os EUA - onde a pandemia é amplamente polarizada, a desinformação é descontrolada e uma fatia significativa da população rejeita a vacinação - tiveram uma pandemia excepcionalmente mortífera. De acordo com o site da Universidade Johns Hopkins, os EUA ocupam a 21.ª posição no ranking de países com mais mortes per capita. O Reino Unido não desempenhou muito melhor, ocupando o 28.º lugar, enquanto o Canadá é o 82.º.

Um grupo de médicos que aconselhou o presidente Biden durante a transição presidencial pediu uma nova estratégia que reconheça a "nova normalidade" na convivência com o coronavírus, que tem pouca chance de ser erradicado e provavelmente continuará a provocar casos tipicamente brandos de covid-19 e exigirá doses de reforço de vacina a um ritmo ainda a ser determinado.

Biden assumiu a presidência quase um ano atrás prometendo acabar com a pandemia, após vencer a eleição em parte por enfatizar a necessidade de uma postura mais agressiva contra o contágio do que a do ex-presidente Donald Trump. O governo Biden estimulou com força a vacinação e na primavera viu milhões de pessoas arregaçarem a manga diariamente para tomar a injeção. No 4 de Julho, após o número de casos baixar, Biden reuniu uma multidão no Gramado Sul da Casa Branca para celebrar sua independência em relação ao vírus.

Mas a alta nas infecções e mortes decorrentes da variante Delta provou que a celebração foi prematura, e os Centros para Controle e Prevenção de Doenças revisaram suas diretrizes afirmando que até pessoas completamente vacinadas deveriam voltar a usar máscaras em ambientes fechados. A onda da variante Delta começou a recuar no outono, mas a Ômicron, repleta de mutações que a tornaram extremamente mais transmissível e evasiva ao sistema imunológico, emergiu no fim de novembro.

A estratégia de Biden contra a Ômicron não é significativamente diferente da que o presidente empregou contra as variantes anteriores. Em 2 de dezembro, ele detalhou seus planos primeiramente anunciando o que não faria: "lockdowns". Biden prometeu distribuir 500 milhões de testes rápidos e dobrou esse número nos dias recentes. Sua força-tarefa de combate à covid continua a enfatizar a importância de vacinas, tratamentos e testagens em vez de restrições sobre mobilidade e reuniões.

Fatalismo e fadiga

A mudança na direção da estratégia "conviva com isso" em muitos países, incluindo nos EUA, com frequência ocorre sem o reconhecimento formal de seus líderes nacionais. A Espanha é uma das exceções: o primeiro-ministro Pedro Sánchez disse querer que a União Europeia pare de rastrear a covid separadamente enquanto doença e reconheça que o coronavírus está se tornando um patógeno endêmico.

Do outro lado dos Pirineus, as casas noturnas francesas fecharam com a disseminação da Ômicron. Uso de máscaras em ambientes internos é exigido, independentemente do status de vacinação das pessoas. Em bares, os frequentadores não podem consumir álcool de pé. A França, como a Itália e muitos outros países europeus, tem se apoiado fortemente nos passaportes de vacinação.

O presidente francês, Emmanuel Macron, é franco a respeito de seu desejo de dificultar a vida dos não vacinados limitando seu acesso a espaços públicos. Em entrevista a um jornal, ele usou linguagem vulgar, que foi traduzida ao português como "Eu realmente quero encher o saco deles".

Muitos líderes globais, incluindo dos EUA e da Europa, têm colocado o foco na vacinação como o principal elemento para mitigar a pandemia. As vacinas realmente diminuem o risco de casos graves de covid. O que elas não fazem bem é impedir a transmissão do coronavírus, nem casos brandos de infecção. A velocidade da disseminação da Ômicron é o fator-chave na equação que determina quanta pressão a variante colocará sobre os hospitais - que atualmente atendem um número recorde de pacientes infectados por covid nos EUA.

"Se nós simplesmente relaxarmos por completo e permitirmos que a epidemia de Ômicron se alastre naturalmente, sobrecarregaremos completamente nosso sistema de saúde e ficaremos diante de uma situação pior do que a do início de 2020", afirmou  James Lawler, codiretor do Centro Global para Segurança Sanitária do Centro Médico da Universidade de Nebraska.

Ele não está vendo as mesmas precauções que viu no início da pandemia, quando esteve entre os primeiros especialistas a soar o alarme a respeito da extrema transmissibilidade do coronavírus. No início da semana, quando foi ao mercado comprar alimentos, ele era praticamente a única pessoa usando máscara. Esse é o estado das coisas em Omaha, afirmou ele.

"Não há obrigatoriedade", afirmou ele. "Ao longo de toda a trajetória da humanidade, deveríamos ter aprendido, a este ponto, que a única maneira de obter altos índices de observância a recomendações de segurança é tornando-as obrigatórias. Foi assim com os cintos de segurança."

Após Lawler fazer esses comentários, um comissário local de saúde impôs uma obrigatoriedade de uso de máscaras que abrangeu Omaha, mas o procurador-geral de Nebraska abriu um processo judicial para bloquear a medida.

Existe um fatalismo que se mistura à fadiga em relação à pandemia e, em alguns países, à negação da ciência ou a alguma rejeição ideológica em relação a restrições e obrigatoriedades que muitos especialistas em saúde consideram medidas de bom senso durante uma pandemia. E de maneira individual as pessoas podem considerar racionalmente que a batalha está perdida e que o vírus venceu.

Autoridades de saúde pública alertam que essa atitude é perigosa. É verdade que individualmente o risco pode ser baixo. Mas quando um vírus se espalha tão rapidamente quanto a variante Ômicron do coronavírus, essa equação subitamente adquire resultados alarmantes: milhões de pessoas doentes ao mesmo tempo, muitas delas com problemas subjacentes que já as colocam à beira do abismo, vulneráveis a um mero empurrão.

Rasmussen, a virologista da Universidade de Saskatchewan, integra o time de especialistas que consideram que as pessoas confundem o conceito de endemicidade - o ponto em que um vírus continua a circular em baixa intensidade, sem gerar surtos de nível epidêmico. Ela teme que algumas pessoas percebam a narrativa do "vírus endêmico" como um sinal de que é inútil resistir.

"As pessoas acham que isso significa simplesmente desistirmos", afirmou ela. "Acham que 'endêmico' significa que todos pegaremos covid, por fim. Escuto pessoas dizerem, 'Por que não pego covid logo e fico à prova de balas?' Nada disso significa endemicidade." /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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