Com oposição silenciada, Irã escolhe amanhã deputados

O ministro do Interior do Irã, Mostafa Najar, afirmou ontem que as eleições parlamentares de amanhã serão "gloriosas", com comparecimento dos eleitores "mais maciço do que no passado", apesar de os principais grupos de oposição terem sido banidos e seus líderes estarem sob prisão domiciliar e impedidos de dar declarações públicas. A oposição conclamou os eleitores a boicotar a votação.

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL / TEERÃ, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2012 | 03h01

"Eles estão sob prisão domiciliar de acordo com a legislação iraniana", disse Najar, respondendo a uma pergunta do Estado durante entrevista coletiva, sobre se essa situação não colocava em questão a legitimidade das eleições.

"Foram eles que se separaram do caminho da nação", continuou o ministro, referindo-se a Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karoubi, principais candidatos da oposição na eleição presidencial de 2009. O anúncio da vitória do presidente Mahmoud Ahmadinejad desencadeou acusações de fraude e uma onda de repressão e perseguições que praticamente dizimou a oposição.

"O que a oposição diz não tem lógica", continuou o ministro. "O que quer que eles digam, vai se voltar contra eles." O ministro assegurou que "quase todos os grupos sociais estão participando das eleições". "Todos os que aceitam o princípio da república islâmica."

De fato há uma disputa, mas é no interior da corrente conservadora, entre os partidários de Ahmadinejad e os que apoiam o líder espiritual, aiatolá Ali Khamenei. O presidente defende o regime islâmico, mas luta por mais poder para os laicos, em detrimento dos clérigos.

Dos 5.395 candidatos, 1.951 (36%), incluindo 35 deputados atuais, foram vetados pelo Conselho Guardião, subordinado a Khamenei. O veto não atingiu apenas reformistas, mas também aliados de Ahmadinejad.

À pergunta sobre rumores de que o próprio presidente defende um boicote, por causa do veto a mais de cem candidatos ligados a ele, Najar riu. "O presidente está encorajando as pessoas a participar." Veterano da guerra Irã-Iraque, assim como Ahmadinejad e a maioria de seu gabinete, Najar é leal ao presidente.

Sobre a ausência de campanha nas ruas, Najar explicou que as campanhas hoje em dia são feitas na internet "24 horas por dia". "Talvez as campanhas mecânicas, físicas, não sejam mais efetivas."

O Estado ouviu ontem eleitores nas ruas. Alguns disseram que vão votar. Mas a maioria se mostrou apática. Parte deles está desencorajada pelo que aconteceu na eleição presidencial de 2009, manchada pelas suspeitas de fraude e pela violenta repressão aos protestos. Outros disseram estar desiludidos há mais tempo, diante da falta de opções mesmo em eleições anteriores.

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