Com ou sem Chávez, EUA falam em 'avanço' de relações com Venezuela

Países não mantêm embaixadores em Caracas e Washington desde 2010.

BBC Brasil, BBC

10 de janeiro de 2013 | 15h21

Enquanto Hugo Chávez se encontra em Havana em um estado de saúde aparentemente grave, mas desconhecido, os Estados Unidos expressam seu desejo de "avançar" nas relações bilaterais "independentemente do que acontecer" com o presidente venezuelano.

Ao usar essas palavras nesta semana, data do que seria a posse do novo mandato de Chávez, a porta-voz do Departamento de Estado, Victoria Nuland, suscitou em alguns correspondentes em Washington a impressão de que o governo americano imagine um "reinício" - em um cenário sem Chávez - para uma relação há muito tempo hostil entre os dois países.

Entretanto, para outros analistas, as palavras demonstram a cautela do governo americano neste momento, consciente de que qualquer gesto percebido como interferência pode injetar volatilidade na política de um dos países mais avessos à sua influência no hemisfério.

"Independentemente do que acontecer politicamente na Venezuela, se o governo venezuelano e o povo venezuelano pretenderem avançar (na relação) conosco, achamos que há um caminho que é possível. Só que são necessárias duas pessoas para dançar um tango", disse a porta-voz, em entrevista coletiva.

"Nós nunca personalizamos (a nossa relação com a Venezuela). Já vimos dizendo que se os venezuelanos estiverem dispostos a trabalhar conosco, estamos dispostos a considerar o que seria possível. Mas simplesmente tem havido dificuldades."

Desconfiança

Por um lado, os Estados Unidos têm evitado entrar no debate legal sobre a constitucionalidade das decisões que afetam os rumos do país a partir desta quinta-feira, quando o presidente Chávez deveria estar sendo empossado para o seu quarto mandato.

Na quarta-feira, a porta-voz do Departamento de Estado voltou a se esquivar de oferecer uma solução made in America para o problema venezuelano, afirmando que "o mais importante é como os venezuelanos veem esta decisão".

"Essa é uma decisão que tem de ser tomada pelos venezuelanos para os venezuelanos, e que precisa tomar em conta a visão de uma grande porção de interessados", disse Nuland. "Isso tem de ser consensual, tem de ser de concordância de todos, tem de ser transparente. Não é uma decisão que nos caiba tomar, cabe aos venezuelanos."

Por outro lado, Nuland quis deixar claro que os Estados Unidos mantêm contatos com integrantes do atual governo, inclusive com o vice-presidente, Nicolás Maduro, autorizado pelo Supremo venezuelano a continuar encabeçando o país durante este período de incertezas.

Em novembro, a secretária-adjunta para o hemisfério, Roberta Jacobson, discutiu com Maduro maneiras de melhorar as relações nas áreas de combate ao narcotráfico e terrorismo, e também há contatos entre diplomatas americanos e venezuelanos em Washington.

Desde 2010, ambos os países estão sem embaixadores em suas respectivas capitais, que são hoje encabeçadas por encarregados de negócios.

"O governo americano precisa continuar tentando melhorar as relações com a Venezuela, porque há questões de interesse nacional envolvidas", afirma Christopher Sabatini, diretor de Políticas do Conselho das Américas, uma organização empresarial com contatos no governo e no setor privado, que provê estudos e análises sobre a região.

"Agora, se esses esforços vão dar frutos, ninguém sabe."

Sabatini diz que a cooperação "esporádica" entre Estados Unidos e Venezuela resultou na prisão de chefes do tráfico internacional em território venezuelano. Mas que, quando o assunto é a economia, Washington já deixou claro às empresas americanas que "invistam na Venezuela por sua própria conta e risco".

Ecos de 2002

A cautela com que os Estados Unidos têm lidado com as incertezas na Venezuela ilustra o quanto a relação entre os dois países ainda é marcada pelas cicatrizes da tentativa de golpe contra Chávez em 2002, que contou com a simpatia do então presidente George W. Bush.

Se não há evidências de que os Estados Unidos estiveram intelectual ou materialmente envolvidos no putsch, é público que os opositores mais radicais do regime venezuelano eram bem-vindos em Washington e que contavam com financiamento americano para organizações que tinham como finalidade desestabilizar o governo eleito.

Desde o episódio, Chávez intensificou a sua retórica antiamericana - em parte, avalia Sabatini, para surfar no nacionalismo e contornar qualquer crítica internacional. O presidente venezuelano também se aproximou de inimigos dos Estados Unidos na arena internacional, como a Síria e o Irã.

Com ou sem razão, diz o especialista, o resultado é que neste momento qualquer "aparência de partidarismo" - algo que o governo Bush não havia respeitado - pode reacender as tensões de 2002 e injetar instabilidade na dividida sociedade venezuelana.

"O governo americano sabe que qualquer gesto pode ser visto como interferência e isso pode ter o efeito oposto ao de ajudar nesta situação", afirma.

'Lavando as mãos'

O estado de observação de países potencialmente simpatizantes, como os Estados Unidos, é uma fonte de frustração para a oposição venezuelana, que discorda da decisão do Supremo do seu país e insiste que o presidente da Assembleia, Diosdado Cabello, assuma no lugar de Chávez.

Isso, para os opositores, desencadearia uma contagem regressiva para a convocação de novas eleições em prazos que variam de um a seis meses, dependendo do entendimento de cada um.

Em entrevista à BBC Brasil de Miami, o porta-voz nos Estados Unidos do bloco de oposição Mesa de Unidade Democrática (MUD), Pedro Mena, disse que a partir desta quinta-feira o gabinete venezuelano é formado por "usurpadores do poder", porque não há presidente para nomeá-los nas funções que estão cumprindo.

A MUD enviou uma carta à Organização dos Estados Americanos (OEA) protestando contra o que chamou de "franca violação" da Constituição venezuelana e pedindo ao organismo que atue contra a "ruptura da ordem constitucional" com sanções previstas em seu regulamento.

O secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, que está no Chile, disse, no entanto, que prefere não interferir no problema venezuelano por enquanto.

"Há uma série de coisas propriamente políticas, mais que jurídicas, que estão entremeadas. Acredito que o melhor é que sejam resolvidas pelos venezuelanos, antes de nos pronunciarmos sobre elas", declarou Insulza à rádio chilena ADN Radio.

Pedro Mena disse que a declaração do secretário-geral da OEA foi "irresponsável" e que o executivo está "lavando as mãos" para o problema. Além das manifestações na Venezuela, a MUD promete atos nos Estados Unido para protestar contra a saída legal adotada para o imbróglio. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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