Com país em crise, governo somali barra ajuda humanitária

Ataques com carros-bomba e conflitos de rua na Somália elevaram nesta terça-feira, 24, o número de mortos no país para aproximadamente 1,5 mil em menos de um mês. A crise levou o governo somali a reter ajuda humanitária vital que deveria ser distribuída a dezenas de milhares de pessoas na região.Os combates na terça-feira estouraram horas depois de o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-Moon, ter feito um pedido aos combatentes para que suspendam a luta e permitam que a ajuda humanitária chegue aos necessitados. O governo da Somália e seus aliados da Etiópia tentam esmagar uma rebelião islâmica e os civis estão em meio aos violentos combates.A ONU afirma que mais de 320 mil dos 2 milhões de habitantes da capital somali, Mogadiscio, fugiram das suas casas desde fevereiro, levando a colunas de refugiados nas estradas, que se dirigem a campos esquálidos onde existe pouca alimentação, não há abrigo e as doenças se propagam. A Somália sofre a pior crise humanitária da sua história recente, diz a ONU.Mas o fraco governo de transição faz questão de inspecionar todos os carregamentos de comida e remédios da ajuda humanitária, retendo no caminho um meio potencial para salvar vidas, alertaram funcionários europeus e americanos em cartas obtidas nesta terça-feira pela Associated Press.CartasA ONU, a União Européia (UE) e o embaixador americano responsável pela Somália e o Quênia fizeram apelos ao presidente da Somália, Abdullahi Yusuf, e ao primeiro-ministro, Ali Mohamed Gedi, em cartas nos últimos trinta dias, para que o governo abrande as restrições à entrega da ajuda aos refugiados."Os esforços das agências internacionais em ajudar às pessoas atingidas pela guerra estão sendo comprometidos, de uma parte pelas milícias que saqueiam os suprimentos e tratam com violência os trabalhadores humanitários, e de outra parte pelos obstáculos administrativos impostos pelo governo federal de transição", escreveu o embaixador da Alemanha no Quênia, em nome da União Européia, em uma carta de 20 de abril a Yusuf.O embaixador dos EUA, Michael Ranneberger, escreveu uma carta em 17 de abril a Yusuf pedindo que o governo pare "de interromper a distribuição de comida, através de inspeções." Ele também disse que pelo menos um governador regional "exigiu pagamento para permitir o tráfego de mercadorias de ajuda humanitária. Essas práticas são inaceitáveis e minam a legitimidade do governo".No dia 9 de abril, o ministro do Interior da Somália, Mohamed Mohamud Guled, escreveu em carta à ONU que "nenhuma distribuição de comida poderá ocorrer em qualquer lugar da Somália sem o alimento ser antes inspecionado e aprovado pelo governo."Inspeções governamentais não são estranhas a agências humanitárias, mas a nova administração da Somália não tem tido a capacidade de fazê-las em grande escala. Vários carregamentos de ajuda humanitária em comida e remédios voltaram de navio, porque não houve liberação do governo, dizem diplomatas e agências humanitárias.Nesta terça-feira, os combates continuaram em Mogadiscio, embora o primeiro-ministro da Etiópia, Meles Zenawi, tenha manifestado a esperança de que as lutas durem no máximo uma ou duas semanas até a rebelião islâmica ser esmagada. Ele também afirma que o número de baixas civis foi "exagerado".Último atentadoNos últimos sete dias, 358 pessoas foram mortas e outras 680 ficaram feridas na capital somali. Nesta terça-feira, um carro-bomba explodiu na frente do Ambassador Hotel, matando sete civis. Outro carro-bomba explodiu na frente de uma base militar etíope, a 30 quilômetros da capital.O atentado suicida foi registrado no distrito de Afgoi, a cerca de 30 quilômetros da capital Mogadíscio. É o segundo em menos de uma semana, e ambos se dirigiram contra bases do Exército etíope instaladas na Somália. As autoridades responsabilizaram células clandestinas da rede terrorista internacional Al-Qaeda pelo atentado. Segundo o governo de transição somali, elas lutam junto com milicianos das Cortes Islâmicas.A Somália não tem governo efetivo desde 1991, quando senhores da guerra derrubaram o ditador Mohamed Siad Barre e mergulharam o país no caos e na guerra civil. O atual governo provisório foi formado em 1994, mas não consegue ganhar o controle do país.Os insurgentes são ligados ao Conselho das Cortes Islâmicas, um movimento linha-dura que ganhou o controle de Mogadiscio e da parte sul do país por seis meses durante 2006. Tropas somalis e etíopes derrubaram o grupo do poder na virada do ano, com apoio dos EUA. Os militantes muçulmanos rejeitam o governo secular e dizem que lutarão até a Somália virar um Estado islâmico.

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