Ben Stansall/AFP
Ben Stansall/AFP

Com pandemia, londrinos revelaram seus segredos em cartões postais

Iniciativa de papelaria atraiu mais de 300 mensagens confidenciando amores, atos ilegais e vontade de nunca deixar o confinamento

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 20h00

LONDRES - Compra em massa de brinquedos sexuais, amores platônicos, desejos polêmicos: centenas de britânicos confiaram seus "segredos de confinamento" a uma papelaria em Londres que os convidou a escrever confidências em cartões postais.

Proprietária da Marby & Elm, localizada em Islington, na capital britânica, Eleanor Tattersfield é a criadora da iniciativa. Para desafogar suas frustrações, conta, começou em janeiro a distribuir cartões que traziam o endereço da papelaria de um lado e um espaço em branco do outro. "Achei que seria ótimo, em pleno confinamento, ter uma válvula de escape para este ano estranho", explicou à Agência France-Presse

O sucesso foi imediato. Eleanor recebeu mais de 300 cartões em seis semanas. Agora, alguns ficam expostos em uma mesa da loja, enquanto outros permanecem armazenados em caixas. "Não esperava que o projeto atingisse essa magnitude", diz Tattersfield, que conta ter ficado surpresa com a criatividade demonstrada por seus clientes na elaboração das mensagens. 

Muitos dos cartões parecem obras de arte em miniatura, decorados com colagens, lantejoulas e glitter. Mas o mais impressionante são as mensagens escritas – reconfortantes, engraçadas, às vezes perturbadoras.

Eleanor conta que os tópicos mais recorrentes são sexo, masturbação, relação com os sogros, pelos corporais, hábitos alimentares estranhos e chamadas de videoconferência. Mas à medida que o confinamento – o terceiro do Reino Unido – se arrastava, as mensagens começaram a trazer também notas de apreensão sobre a possibilidade de reabertura. "Não quero sair do confinamento", reconhece alguém em um cartão-postal, enquanto outro diz: "Sinto muito, mas não sinto falta de nenhum de vocês".

Amores e tabus

Alguns confessam um idílio em formação: o autor de um cartão explica que enviou uma carta a um "médico bastante atraente", enquanto um inquilino admite que deu ao senhorio "muito mais do que aluguel durante o confinamento".

Uma mulher até admite ter sentido uma "atração imprópria" por Patrick Vallance, o principal conselheiro científico do governo que, com seu ar de professor universitário, tornou-se uma figura regular ao lado do primeiro-ministro Boris Johnson na televisão.

Alguns amores reacenderam nesse período: "me dei conta do quanto amo minha esposa", diz uma mensagem. Mas o confinamento também causou muitas rupturas. A autora de um cartão decorado com fotos de brinquedos sexuais explica que "não havia escolha a não ser melhorar suas chances de prazer solitário" após o divórcio.

Algumas mensagens também quebram tabus, especialmente sobre laços familiares: "Papai sobreviveu ao coronavírus, mas eu teria preferido que não", escreveu alguém. Outros cartões chegam a confessar atos ilegais, como a falsificação de "passagens de trem por milhões de libras", ou a sugerir o pior: um cartão rosa contém a lista dos dez mandamentos com cada um deles marcado como "feito" menos o sexto, "não matarás".

Tattersfield espera reunir todos esses cartões em um livro e gostaria de apresentá-los em uma exposição. Garante que já recebeu várias ofertas de galerias. "Juntos, formam um fragmento formidável da história social", diz.

Vários grandes museus britânicos já estão tentando documentar a era covid-19 por meio de objetos do cotidiano. O Museu de Londres, por exemplo, pediu aos visitantes que enviassem seus sonhos e diários, enquanto o Museu Victoria and Albert publicou um blog sobre a escassez de papel higiênico que ocorreu durante o primeiro bloqueio. /AFP

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