Victor Ruiz Caballero/Reuters
Victor Ruiz Caballero/Reuters

Com popularidade em baixa, Piñera troca 8 ministérios

Revolta estudantil, gafes presidenciais e erros políticos derrubam apoio ao líder chileno e ameaçam ambições da ''nova direita'' do país

João Paulo Charleaux, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

SANTIAGO

O presidente do Chile, Sebastián Piñera, fez ontem mudanças em oito ministérios. Com a medida, segundo analistas, ele busca melhorar a imagem do governo, que tem apenas 30% de aprovação, de acordo com pesquisas recentes. Piñera trocou os titulares das pastas de Educação, Justiça, Planejamento, Mineração, Energia, Obras Públicas, Economia e seu porta-voz.

Desde que tirou 33 mineiros de um buraco no Deserto do Atacama, há quase um ano, a popularidade de Piñera não para de cair. O que era o resgate da direita chilena transformou-se, em pouco tempo, em um governo sitiado pela rejeição, apesar do crescimento econômico e do relativo sucesso da reconstrução depois do terremoto de fevereiro do ano passado.

Desde junho, dezenas de milhares de manifestantes têm marchado pelas ruas da capital Santiago, ora contra a construção de uma usina hidrelétrica na Patagônia, ora contra uma impopular reforma educacional. Em ambos os casos, os manifestantes contam com enorme respaldo popular.

Na última grande marcha, na quinta-feira, 30 mil estudantes tomaram as ruas de Santiago e entraram em choque com a polícia - 170 pessoas foram presas e dezenas ficaram feridas. Há um mês, estudantes secundaristas e universitários ocupam mais de 700 estabelecimentos de ensino, na maior onda de protestos registrada no Chile nos últimos 20 anos - a maior delas reuniu 100 mil manifestantes. Eles pedem uma reforma constitucional que altere o modelo de financiamento das universidades. Mais de 82% dos chilenos apoiam a revolta estudantil.

Inexperiente, o atual governo - o primeiro de direita desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet - pena para melhorar sua imagem. Mas o presidente não ajuda. Desde que assumiu, em março, Piñera protagonizou gafes constrangedoras - ele já disse que Abel matou Caim, que Robinson Crusoé existiu de verdade, que o poeta chileno Nicanor Parra está morto e o Chile comemora 500 anos de independência, não 200.

A falta de tato irrita até seus aliados mais íntimos. Piñera é visto como um empresário de sucesso, homem prático, mas não um político nato. Ao formar seu gabinete com empresários famosos, contrariou a direita tradicional, agrupada em torno da União Democrática Independente (UDI), que se sente excluída e cobra do presidente fidelidade às bandeiras tradicionais, como a condenação da união estável entre pessoas do mesmo sexo.

Esquerda. "Esse é o presidente com a maior reprovação da história do Chile desde a redemocratização", disse ao Estado o analista político Patricio Navias. "A esquerda nunca estaria contente com Piñera, mas há também uma direita pinochetista, católica e conservadora que não está nada feliz com ele. É um cenário difícil de mudar, ainda mais se consideramos que o pior atributo do presidente é sua credibilidade. As pessoas não acreditam no que ele diz."

O Chile tem um dos mandatos presidenciais mais curtos da região - apenas 4 anos - e sem reeleição. Sucessos ou fracassos são medidos rapidamente e qualquer início de governo já é meio de mandato. Em um contexto assim, reformas ministeriais ou constitucionais imobilizam qualquer gestão.

O desgaste de Piñera, porém, não significa um renascimento da oposição. Depois de ter governado o Chile nos 20 anos de redemocratização, a Concertación, coligação de centro-esquerda, também está desgastada. O grupo foi punido com a derrota nas urnas na última eleição presidencial e corre o risco de tomar um novo tombo nas eleições locais do próximo ano.

Segundo analistas, ao mesmo tempo em que rechaçam a "nova direita", os chilenos também castigam a Concertación. A desaprovação à coligação de centro-esquerda chegou em maio a 68%.

Navias diz que, tradicionalmente, a oposição é mal avaliada no Chile, o que não desperta maiores preocupações. Para ele, o problema maior é mesmo para o governo. "Acho difícil que Piñera consiga aprovar qualquer lei no Parlamento ou realizar qualquer reforma com uma equação tão precária de apoio popular", disse.

Fábrica de gafes

SEBASTIÁN PIÑERA

PRESIDENTE DO CHILE

"Nesta ilha, viveu quatro anos Robinson Crusoé", em discurso no Arquipélago Juan Fernández, onde foi ambientado A Vida e as Estranhas Aventuras de Robinson Crusoé, personagem fictício de Daniel Defoe

"Este foi o ano do bicentenário (da independência do Chile). Podem ser contados nos dedos os países do mundo que tiveram o privilégio de celebrar 500 anos de vida independente"

"Estaremos viajando não apenas entre continentes, mas também entre os planetas de nossa Via Galáxia", confundindo Via Láctea com galáxia

"Que nos subamos, como dizia (Albert) Einstein, sobre os ombros de gigantes", parafraseando Isaac Newton

"E muitas outras espécies, como o leopardo e o corvo do pântano", enumerando espécies em extinção da fauna chilena e incluindo um animal tipicamente africano na lista

"Nunca derrotaremos a delinquência. Desde os tempos bíblicos, quando tivemos o assassinato de Caim por Abel", trocando os nomes dos irmãos

PARA ENTENDER

Quatro mudam apenas de pasta

A reforma ministerial do presidente Sebastián Piñera apenas remanejou quatro ministros. Felipe Bulnes, que era ministro da Justiça, passou a ocupar o Ministério da Educação. Joaquín Lavín, que até então ocupava a pasta da Educação, foi transferido para o Planejamento. Em alguns casos, Piñera apenas trocou o titular de um ministério por outro. O presidente nomeou como ministro da Mineração o engenheiro Hernán de Solminihac, que era ministro das Obras Públicas. Em seu lugar, entrou aquele que era ministro da Mineração, Laurence Golborne - o mesmo que se tornou uma estrela durante o resgate dos mineiros, no ano passado.

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