Com posse de Obama, EUA começam a mudar em estilo e conteúdo

Primeiro negro a chegar à presidência da maior potência do planeta tem como desafio recuperar a economia e reconstruir o multilateralismo

Fernando Dantas, O Estadao de S.Paulo

20 de janeiro de 2009 | 00h00

Ninguém pode afirmar que o 44º presidente dos EUA, Barack Obama, que toma posse hoje, conseguirá promover as mudanças capazes de satisfazer as imensas expectativas de seus eleitores americanos e simpatizantes. É certo, porém, que haverá uma alteração drástica no estilo e no conteúdo do governo americano no momento em que George W. Bush passar o comando para o primeiro negro a chegar à presidência da maior potência do planeta. Siga a cobertura online da posse, ouça analistas e veja trajetória de ObamaAlgumas mudanças esperadas são a volta do multilateralismo na política externa, a maior intervenção do Estado e transparência na economia, e uma tentativa de unir os EUA em torno de uma agenda interna de profundas reformas em setores como saúde, política energética e meio ambiente. Na economia e nas reformas, Obama gostaria de construir ao menos uma base mínima de consenso bipartidário. Tudo isso contrasta com o governo sectário, belicista e conservador de Bush.O primeiro ato da política econômica de Obama será um ataque mais direto e avassalador para tentar tirar o país da maior crise desde a Grande Depressão. Mas o novo presidente terá como desafio mostrar que é capaz de realizar gastos superiores a US$ 1 trilhão previstos no plano de estímulo fiscal, com um nível inédito de transparência. "O povo americano vai saber para onde está indo o precioso dinheiro dos seus impostos", prometeu Obama.A política externa já começa pressionada pelo confronto em Gaza, cujo frágil cessar-fogo não deve aumentar em quase nada o espaço de manobra de Obama e da secretária de Estado, Hillary Clinton. Os primeiros passos em relação ao conflito serão analisados com lupa pelos que acreditaram no compromisso de Obama de enterrar o unilateralismo belicista de Bush. No entanto, provavelmente não há nenhum outro desafio de política externa no qual seja tão difícil aplicar a parcela de "poder brando", contida na estratégia de "poder inteligente" que Hillary assumiu como eixo estratégico da sua gestão.O poder brando consiste na persuasão, por meio da diplomacia e do magnetismo da cultura e da influência americanas. Junto com o "poder duro" da superioridade militar e a ajuda financeira direta (ou a suspensão de sanções econômicas), o poder brando compõe o arsenal da "caixa de ferramentas" do poder inteligente. Obama e Hillary, porém, sinalizaram que vão manter a posição de Bush de não negociar com o Hamas. "Podem mudar as pessoas encarregadas, pode haver outras mudanças simbólicas, mas vai haver continuidade na política americana (em relação ao conflito) porque a realidade objetiva dos fatos não vai mudar", diz Robert Lieber, professor de Relações Internacionais da Georgetown University, em Washington. Já Aaron Miller, do Centro Woodrow Wilson em Washington e ex-negociador americano no Oriente Médio, prevê mudanças na abordagem do conflito, já que Obama "levará a diplomacia a sério".Nas relações com o Irã, os sinais de uma mudança estratégica na direção do emprego do poder inteligente são mais promissores. Em sua sabatina no Senado, Hillary manteve as acusações de que o país islâmico busca possuir armas nucleares, mas acrescentou que vai tentar um "engajamento" com o Irã.Na política interna, Obama, além do esforço inicial para aprovar no Congresso e implementar o pacote de estímulo fiscal, tem pela frente sua agenda de compromissos de campanha, que inclui pontos como uma profunda reforma do sistema de saúde. Juntamente com uma série de outros compromissos - da política em relação aos homossexuais nas Forças Armadas à desativação do presídio de Guantánamo -, as reformas compõem um programa ambicioso de mudanças de grande apelo para o eleitorado mais à esquerda de Obama. Não é surpresa, portanto, que já haja desconforto desses setores com sinais de que o novo governo pode andar mais devagar nesses temas, por causa da prioridade conferida à economia.No entanto, como observa George Edwards, cientista político da Universidade A&M do Texas, a energia política desse eleitorado é fundamental para aquela que talvez seja a mais inovadora das mudanças pretendidas por Obama: "Ele vai tentar manter as organizações de base popular que participaram na sua campanha como grupo de pressão a favor da sua agenda econômica e de reformas."Outras mudanças, diz o acadêmico, serão a tentativa de atrair o apoio de republicanos e a nomeação de poderosos assessores responsáveis por áreas como economia, energia e meio ambiente. Quanto ao esforço na direção do bipartidarismo, Edwards é cético: "Ele vai ter mesmo é de contar com o Partido Democrata."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.