Com problemas de sobra, Romney é desconhecido em rincões americanos

Casa Branca em disputa. Depois de ver seu cofre de campanha esvaziar-se e da divulgação de vídeo no qual ele aparece desprezando '47% dos eleitores, que dependem do governo', republicano busca reestruturar estratégias e superar semana difícil

DENISE CHRISPIM MARIN, ENVIADA ESPECIAL , CAMDEN, EUA, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h06

As aposentadas Lalloaf Davis, negra de 70 anos, e Manuela Pintor, porto-riquenha de 50, jamais ouviram falar em Mitt Romney. As duas, arrimos de família e residentes na empobrecida Camden, no Estado de New Jersey, disseram-se prontas para votar pela reeleição do presidente Barack Obama sem saber quem é seu rival republicano.

"Nunca escutei nada sobre ele", afirmou diante de uma televisão de 44 polegadas Lalloaf, mais conhecida como Lolly ou apenas "vovó" na vizinhança. "Quem é esse?", soltou Manuela ao ser questionada sobre o que pensava de Romney.

O desconhecimento por uma parcela do eleitorado é um desafio importante na candidatura do republicano, a apenas 44 dias da eleição presidencial. Ainda mais quando o eleitor é de um Estado governado por um companheiro de legenda - no caso de New Jersey, o carismático republicano Chris Christie. Mas essa não é única dor de cabeça do rival de Obama.

Entre a sexta-feira dia 14 e a terça-feira, Romney fechou-se para reflexão e não apareceu em nenhum evento de campanha. Sua candidatura não decolou depois da Convenção Nacional Republicana, no fim de agosto, os recursos para as propagandas eleitorais em televisão e rádio começaram a escassear e Obama abriu alguns pontos de vantagem.

O republicano voltou a aparecer em público apenas na noite de quarta-feira, em um programa do canal Univision, voltado para o público latino-americano dos EUA. Mas não só teve dificuldades para defender sua ideia de promover a "autodeportação" de imigrantes indocumentados, como ressurgiu em mau momento. Ele já estava sob artilharia intensa por suas declarações sobre o ataque ao consulado americano na Líbia, exatamente 11 anos após o 11 de Setembro.

As notícias ruins continuaram. Um site liberal divulgou um vídeo em que Romney dizia que 47% dos americanos "jamais" votariam nele pois eram "dependentes do governo". Quase metade dos EUA seria composta por pessoas "que se consideram no direito a saúde pública, a alimentação, a moradia, ao não sei o que mais" e como "não pagadores de impostos".

A filmagem foi feita em um encontro para arrecadação de fundos numa mansão de Boca Raton, subúrbio de Miami. Em outro trecho da fala de Romney, o republicano diz que os palestinos não têm "nenhum interesse no processo de paz" e a solução dos dois Estados é "quase impensável".

As revelações colocaram Romney no "mais difícil momento" da sua campanha, admitem até mesmo assessores do candidato. O republicano acabou vítima de fogo amigo: colunistas conservadores passaram a criticá-lo. Peggy Noona, ex-redatora dos discursos de Ronald Reagan, escreveu em sua coluna no Wall Street Journal ter "chegado a hora de se admitir que a campanha de Romney é incompetente". "Não é grande, não é corajosa, não está preparada para enfrentar grandes questões e tem sido pequena demais."

Governo. Em meio a essas intempéries, Tim Pawlenty, copresidente da campanha republicana e colaborador de sua total confiança, decidiu abandonar o barco e virar lobista. Na quinta-feira, a empresa de lobby Financial Services Rountable anunciou sua contratação para os cargos de presidente e executivo-chefe.

O ceticismo corroeu a confiança dos doadores da campanha republicana, a quem Romney e aliados têm tentado acalmar. Apesar dos anúncios de arrecadações recordes nos últimos meses, apenas uma parcela dos recursos caiu efetivamente na campanha para a Casa Branca. As principais empresas orientadas para o financiamento de candidatos republicanos, como a Crossroads GPS, de Karl Rove, homem-forte do governo George W. Bush, indicaram estar mais atentas na conquista do Senado e na ampliação da maioria republicana na Câmara.

As propagandas de Romney na TV estão escasseando nos Estados indecisos e essenciais para a sua vitória.

Apesar da arrecadação de US$ 67 milhões em setembro, Romney dispôs de apenas US$ 13,7 milhões para gastos com propaganda, segundo o Washington Post. Cerca de US$ 20 milhões foram reservados para cobrir gastos com a convenção republicana. Obama, em setembro, arrecadou US$ 90 milhões.

A última etapa da campanha presidencial antes das eleições será marcada por três debates em outubro: Colorado, dia 3; Nova York, dia 16; Flórida, dia 22. Romney tem praticado intensamente para esses desafios, mas considera impossível se sair melhor do que seu rival, como confidenciou a colaboradores. A mudança da estratégia de campanha, anunciada na semana passada, surgiu como derradeira tentativa de reverter o jogo.

Matt Rhodes, gerente da campanha de Romney, informou à imprensa o novo foco na "acentuada diferença de visões" dos dois candidatos sobre os EUA, em substituição ao bombardeio direto a Obama.

A campanha republicana apresentará a visão de Romney dos EUA como a "terra da oportunidade", onde o sucesso da livre iniciativa é admirado, "e não atacado". A visão de Obama será apontada como a de uma sociedade centrada no governo cada vez maior e mais ativo e em favor da distribuição de renda.

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