Angela Weiss / AFP
Angela Weiss / AFP

Com reabertura, quase a metade dos Estados americanos registra aumento da covid-19

Aumento na média semanal de casos de coronavírus em comparação com a semana anterior é de pelo menos 10%; protestos também podem ter contribuído para alta, mas especialistas alertam que mais testes e rastreamento evitariam nova onda

Joel Achenbach e Chelsea Janes, The Washington Post

06 de junho de 2020 | 11h25

WASHINGTON - O coronavírus parece recuar em regiões dos EUA que se movimentaram mais rápido para contê-lo depois de serem atingidas com intensidade, incluindo os Estados de Nova York e New Jersey. No entanto, a pandemia persiste e se espalha agressivamente em partes do Sul, Centro-Oeste e Oeste, locais que foram os últimos a impor isolamento social e os primeiros a levantá-lo.

Dados compilados pelo jornal The Washington Post mostram que 23 Estados (quase a metade dos 50), assim como o Distrito de Columbia e Porto Rico (território dos EUA), observaram um aumento na média semanal de casos de coronavírus em comparação com a semana anterior. A maioria registrou um aumento de 10% ou mais.

O aumento colocou as autoridades de saúde pública em atenção em  todo o país para identificar e contabilizar os casos e hospitalizações para ver se essa alta tem relação com os protestos em massa contra o racismo e a violência policial.

As manifestações, desencadeadas pelo assassinato de George Floyd, no Memorial Day, pela polícia de Minneapolis, ocorreram ao ar livre. Já se sabe que o vírus é transmitido mais facilmente em espaços fechados e com pouca ventilação. Mesmo assim, o aglomerado de manifestantes por horas a fio em circunstâncias caóticas, juntamente com o uso de agentes químicos pela polícia, pode levar a um aumento nos casos nos próximos dias e semanas .

"Uma pessoa pode infectar centenas. Se você estava em um protesto, faça um teste, por favor", disse o governador de Nova York, Andrew Cuomo, em uma entrevista na quinta-feira, 4 . "Os manifestantes também têm um dever cívico aqui."

Algumas autoridades locais aproveitam o afrouxamento das restrições de locomoção, para tentar reerguer a economia, algumas aproveitam para se juntar aos protestos. Em Michigan, a governadora democrata Gretchen Whitmer juntou-se a uma marcha pelos direitos civis na quinta-feira, 4 - ela usava uma máscara. Uma carta aberta elaborada por pesquisadores da Universidade de Washington e assinada por pelo menos 1,2 mil médicos incentivou os atos afirmando que a importância dos protestos supera os riscos de contágio em grandes reuniões.

“Protestos contra o racismo sistêmico, que promove o ônus desproporcional da covid-19 sobre as comunidades negras e também perpetua a violência policial, devem ser apoiados”, afirmou a carta, acrescentando que os manifestantes ainda devem seguir as “melhores práticas de saúde pública”, como distanciamento social e o uso de máscaras.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) divulgou  comunicado dizendo que estava "monitorando de perto" as manifestações. "Protestos e grandes reuniões dificultam a manutenção de nossas diretrizes recomendadas de distanciamento social e podem colocar outras pessoas em risco", afirmou o CDC. “É muito cedo para saber o que, se houver, o efeito desses eventos na resposta federal à covid-19. Toda situação é diferente dependendo da região.”

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O mapa do coronavírus é, de fato, confuso atualmente - tão complicado quanto o próprio vírus, que pode levar à doença potencialmente letal ou deixar uma pessoa infectada sem nenhum sintoma. Epicentro inicial, a cidade de Nova York fez grandes progressos na redução de casos e taxas de mortalidade e os hospitais não estão mais sobrecarregados.

No entanto, um documento elaborado pela Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (FEMA, na sigla em inglês) e distribuído na quinta-feira, 4, a altos funcionários federais capturou a escala dos desafios restantes. A FEMA rastreia quantos dias seguidos um Estado registra queda em novos casos diários de coronavírus. Treze Estados - Arizona, Califórnia, Idaho, Kentucky, Mississippi, Nebraska, Oregon, Carolina do Sul, Tennessee, Texas, Virgínia, Washington e Wisconsin - não apresentaram uma queda diária sustentada a partir de terça-feira, de acordo com o documento, cuja cópia foi obtida pelo The W. Post.

O levantamento aponta ainda que a maioria dos municípios em que os casos do covid-19 estão se multiplicando mais rapidamente está no Sul, Centro-Oeste e Sudoeste.

Uma análise mais detalhada dos dados levando em conta os condados revela a natureza da colcha de retalhos que se tornou a epidemia, com algumas comunidades mostrando picos dramáticos - um triplo ou mais de casos nas últimas duas semanas - mesmo quando as áreas do entorno permanecem estáveis. 

Os surtos localizados têm ocorrido em municípios que contêm fábricas de processamento de carne, prisões ou asilos. Novos dados mostram que quase um terço das mortes em âmbito nacional ocorreu em lares de idosos.

Novos casos assustam as autoridades dos locais dos EUA

 O aumento nos casos pressiona as autoridades. Nesta semana, o governador do Mississippi, Tate Reeves, anunciou que o número de pacientes entubados nos hospitais do Estado atingiu um novo recorde no fim de semana passado e alertou que "a ameaça da covid-19 é maior do que nunca".

A Flórida divulgou na quinta-feira, 4, seu maior número de novos casos diários (1.419) desde que o Estado começou a divulgar essas estatísticas em março, segundo o jornal Miami Herald. Mais da metade dos casos foram notificados nos condados de Broward, Miami-Dade, Monroe e Palm Beach, no sul da Flórida.

A Califórnia está lidando com um surto maciço no Condado Imperial, na fronteira sudeste com o México. Na semana passada, mais de 60 pacientes foram enviados ao vizinho Condado de Riverside para aliviar o aumento nos hospitais locais. O município, com uma população de cerca de 181 mil habitantes, teve 2.540 casos até a noite de quinta-feira, 4.

O condado de Yuma, Arizona, que faz fronteira com a Califórnia e o México, também está vendo picos de hospitalização, de acordo com Cara Christ, diretora de saúde do Estado.

Christ e o governador republicano Doug Ducey disseram que grande parte do aumento do número de casos no Estado pode ser atribuída a maior quantidade de testes aplicados. Mas os dados do Estado também mostram um aumento nas hospitalizações, sugerindo que o teste não é totalmente responsável pelo aumento do número de casos. "O vírus é generalizado", disse Ducey. "Não está desaparecendo."

"Ainda acho que temos muitos casos por vir", disse Julie Swann, ex-consultora do CDC e professora de engenharia industrial e de sistemas da Universidade Estadual da Carolina do Norte. Para ela, a disseminação contínua não era inevitável e poderia ter sido interrompida com mais testes e rastreamento.

A transmissão pode ser sutil. O vírus normalmente leva cerca de cinco ou seis dias para incubar a ponto de causar sintomas, como febre, dores de cabeça, dores no corpo ou tosse seca. Mesmo quando os sintomas aparecem, muitos dias podem passar antes que uma pessoa procure um teste de coronavírus. Há outro atraso  antes que os resultados cheguem aos departamentos de saúde pública. Como resultado, os especialistas veem os dados atuais como refletindo como era a transmissão algumas semanas antes.

A doença assintomática também complica o processo para entender a pandemia. Muitas pessoas que viajaram para praias e outros locais no fim de semana do Memorial Day e participaram de protestos contra a violência policial são jovens e menos propensas do que as pessoas mais velhas a desenvolver uma forma mais grave da doença. Eles podem nunca mostrar sintomas. Eles podem, no entanto, transmiti-lo.

"Pode haver um ressurgimento do vírus no início do verão", disse David Rubin, diretor do Children's Hospital, da Filadélfia, que tem um modelo que abrange cerca de 400 municípios que preveem um pico de transmissão. "Se não vemos um impacto, isso pode sugerir que a transmissão ao ar livre é um componente relativamente menor da epidemia durante o verão."

O papel do clima na transmissão deste vírus não está bem estabelecido. Em geral, os vírus não gostam de calor e umidade. Um novo relatório publicado na revista Science diz que o clima não é tão importante quanto a suscetibilidade: a maioria das pessoas ainda não foi exposta a esse vírus e não tem imunidade.

"A falta de imunidade da população é o fator muito mais fundamental do que o clima", disse a principal autora do estudo, epidemiologista Rachel Baker, do Instituto Ambiental de Princeton.

O vírus se espalhou até meados de março, quando as primeiras ordens de desligamento e a ampla adoção do distanciamento social começaram a aplainar a curva epidemiológica. Os dados compilados pelo The W. Post mostram pelo menos 107 mil mortes pelo coronavírus na sexta-feira, 5.

As piores semanas de mortes por coronavírus foram no início de abril. Como o número de mortes diárias caiu, o mesmo ocorreu com as precauções de muitos americanos. Em muitos lugares, as pessoas já não usam rotineiramente máscaras.

A natureza heterogênea da epidemia nos Estados Unidos se revela na Carolina do Sul. Charleston não foi atingida, de acordo com Christine Carr, professora de medicina de emergência e ciências da saúde pública na Universidade Médica da Carolina do Sul. Mas os relatórios diários do Estado mostram que a área conhecida como Pee Dee, no canto nordeste, e as comunidades ao longo do muito movimentado corredor de estradas I-95 foram atingidas.

Carr supõe que os viajantes na interestadual possam levar o vírus a essas áreas. Essas seções do Estado já são vulneráveis: possuem serviços de saúde limitados, altas taxas de pobreza e uma população fortemente negra, que sofreu desproporcionalmente com a covid-19.

Muitos dos Estados que experimentam aumentos no número de casos abrigam municípios rurais com acesso limitado ou inexistente ao hospital. Aqueles que têm hospitais geralmente são mal equipados para lidar com grandes surtos. No Alabama, condados rurais perto de Montgomery estão enviando pacientes para hospitais da cidade para tratamento, embora Montgomery também esteja lidando com o crescimento de casos. 

De acordo com Donald Williamson, presidente da Alabama Hospital Association, vários hospitais na área de Montgomery estão se aproximando da capacidade em suas unidades de terapia intensiva.

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