Letícia Duarte / ESTADÃO
Letícia Duarte / ESTADÃO

Letícia Duarte / ESPECIAL PARA O ESTADO  / TIJUANA, MÉXICO, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 05h00

Desde que voltou do Afeganistão, depois de dois anos em combate pelo Exército americano, Miguel Perez Jr., de 40 anos, tem pesadelos. Sente cheiro de sangue. Vê corpos mutilados. Tem ataques de pânico. Não consegue ficar no meio de multidões. O estresse pós-traumático não impediu que há quatro meses ele entrasse para a lista de veteranos deportados. Segundo a organização Unified United States Deported Veterans Resource Center, são pelo menos 300 casos, 60 deles conhecidos em Tijuana.

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Desorientado ao retornar a uma pátria que não considera sua, Miguel hoje perambula pelos corredores do supermercado Walmart na cidade mexicana para tentar se sentir mais próximo dos EUA. Vai ao supermercado pelo menos três vezes por semana. Passa até duas horas pelos corredores sem comprar nada, só para se sentir mais próximo do país onde vivia com a família desde a infância. “Comecei a ler os rótulos e os ingredientes. Não me importo, mas não querem que pensem que estou aqui para roubar”, diz.

Pelas regras americanas, qualquer residente pode se alistar no Exército, com promessas de cidadania americana pelos trabalhos prestados. Mas nem tudo são honrarias quando o serviço termina. “Eles geralmente entram muito jovens no Exército, e lá são reprogramados para matar, para sobreviver. Quando voltam, não há um processo de reajustamento, é difícil para que se integrem na comunidade. Então, começam a se automedicar, com álcool e drogas, e isso os leva a encrencas. Muitos acabam expulsos do país pelo qual arriscaram a vida”, descreve Robert Vivar, diretor da organização em Tijuana.

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Seguindo o padrão, Miguel tornou-se dependente de álcool e cocaína ao retornar do Afeganistão. Diz que era usuário, mas acabou preso por tráfico. Ele alega que estava em companhia de um amigo que vendia drogas. Na prisão, o advogado o aconselhou a admitir a culpa para que fosse libertado rapidamente. Foi condenado a 15 anos, cumprindo metade em regime fechado. Quando estava prestes a ser libertado, descobriu que seria deportado. Chegou a fazer greve de fome de 40 dias em protesto e o caso foi parar nos jornais. Não adiantou. “Não acreditava que isso pudesse acontecer, servi o meu país!”. 

Quando estava sendo retirado dos EUA, lembra que o agente encarregado de acompanhá-lo o questionou: “Por que você nunca entrou com os papéis para pedir a cidadania depois do Exército?” “Nunca passou pela minha cabeça”, respondeu. “Passou pela minha. Não nasci aqui, vim da República Dominicana, mas me alistei para ter a cidadania”, disse o agente. “Esta é a nossa diferença. Você lutou pela cidadania, eu lutei porque amava este país”, replicou.

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Seus pais, duas irmãs e dois filhos, de 11 e 21 anos, moram em Chicago. Semanas atrás, diz ter planejado suicídio. Com uma arma em casa, preparou o ambiente e postou mensagens de despedida no Facebook. Arrependido, publicou depois um vídeo falando sobre a depressão. Na gravação, vestia uma camiseta dos EUA e exibia a tatuagem que leva no braço direito: a estátua da Liberdade e uma cruz de batalha, em homenagem a duas vítimas da guerra. Com ajuda da família e de amigos, conseguiu alugar um apartamento para morar sozinho. Poderia comprar um carro, mas recusa a ideia. “Não quero começar uma vida aqui.” Com esperança de retornar aos EUA, mantém correspondência com senadores americanos. Acredita que um dia seu caso será revisto. 

Professor de relações internacionais da San Diego State University, nos EUA, e veterano do Exército americano, o colombiano Alex Gomes, de 49 anos, está produzindo um documentário sobre os ex-colegas deportados. O filme, com patrocínio da ONG Veterans for Peace, será concluído em julho e apresentado em festivais de San Diego e Los Angeles. “Há muita hipocrisia, é uma retórica duplamente moralista. Eles são usados e depois jogados fora. Têm de jurar a bandeira e dar a vida pelos EUA, depois terminam assim. É injusto.”

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Letícia Duarte / ESPECIAL PARA O ESTADO / TIJUANA. MÉXICO, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 05h00

Quando cruzou a fronteira de volta ao México, em meio a uma leva de 400 deportados, Samuel Casas Sanches Icon, de 43 anos, sentia-se um estrangeiro no país onde nasceu. Morando desde os 4 anos de idade nos EUA, nem sequer sabia falar espanhol no desembarque em Tijuana, oito meses atrás. Sem parentes na cidade nem dinheiro no bolso, vagou por dois dias como indigente pelas ruas até encontrar um abrigo para migrantes, onde agora tem uma cama e aulas de idioma.

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“Estou me sentindo como um bebê: chorando, aprendendo a falar, a caminhar, a existir neste país. Quando cheguei só sabia falar ‘buenos días’ e ‘buenas tardes’”, contou, em inglês, no albergue do Desayunador Salesiano Padre Chava.

Localizada na fronteira com San Diego, Tijuana pertence ao Estado de Baja California, o que mais recebe deportados no México. Dos 93.365 que regressaram ao país, entre janeiro e maio deste ano, quase um terço passou pela região. E a proliferação de casos como o de Samuel indica uma mudança no perfil dos recém-chegados.

Das 3 mil crianças ainda sob custódia, 102 têm menos de 5 anos e teriam de ser devolvidas até terça-feira.

Enquanto nos últimos anos do governo Barack Obama o alvo prioritário eram aqueles apanhados ao cruzar ilegalmente a fronteira ou que apresentavam antecedentes criminais, na era Trump todo imigrante sem documento passou a ser sujeito à detenção. 

Um estudo feito pelo centro de pesquisa americano Trac mostra que, em março, apenas 10% dos processos de deportação envolviam recém-chegados aos EUA, enquanto 43% deles tinham como alvo imigrantes estabelecidos há pelo menos dois anos no país. No último mês do governo Obama, a proporção era inversa: 72% dos casos eram de migrações recentes, e apenas 6% atingiam residentes por dois anos ou mais.

“Não é verdade que os imigrantes estão infestando os EUA, como Trump diz. O fluxo dos que tentam cruzar até diminuiu, pois muitos ficaram com medo de Trump, mas as deportações continuam porque começaram a tirar os que já estavam lá dentro, os que tinham uma vida assentada nos EUA”, analisa o pesquisador José Israel Ibarra González, que estuda migrações em seu doutorado pelo Colegio de La Frontera Norte, em Tijuana.

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Para Samuel, o sonho americano acabou numa manhã em que foi abordado pela polícia de imigração quando saía de casa, na cidade de Tulare, na Califórnia. Ele saía para visitar a filha mais velha, que tem 23 anos e nasceu nos EUA. Ao constatar que seu cartão de residência estava vencido, o agente o levou para a prisão. Três meses depois, foi mandado embora do país. “Tenho dois filhos americanos, minha mãe tem cidadania americana. Eu cresci nos EUA, sempre falei inglês. Nunca achei que precisasse me preocupar.”

Em Tulare, Samuel tinha uma oficina mecânica, onde ganhava de US$ 2 mil a US$ 3 mil por semana. Hoje, como auxiliar de cozinha em um restaurante em Tijuana, recebe US$ 150 pela mesma jornada. Deprimido, chora todos os dias escondido.

A casa que o acolheu tem capacidade para 70 abrigados, mas oferece café da manhã diariamente para uma média de 800 a 1.200 pessoas, a maioria deportados. Cortes de cabelo, auxílio para documentação e encaminhamento para emprego são alguns dos serviços oferecidos. “Os migrantes vêm com esperança, já os deportados não têm esperança nenhuma. Chegam muito vulneráveis. Damos apoio para evitar que caiam nas drogas ou nas ruas”, diz a coordenadora do Desayunador Salesiano Padre Chava, Claudia Portela.

Se a separação dos filhos de imigrantes ao ingressar nos EUA ganhou atenção mundial recente, os que são mandados embora vivem uma outra face do fenômeno. Enfrentam o dilema de deixar seus filhos para trás ou submetê-los à mudança involuntária. Para Samuel, o afastamento foi drástico. Como havia perdido seu telefone antes da deportação, não se lembrava dos números da família, nem tinha conta em redes sociais, ficou oito meses sem contato, até ser encontrado pela mãe em Tijuana, com ajuda do albergue salesiano. “Pensaram que eu estivesse morto”, diz.

Já entre as crianças americanas que acompanham os pais no caminho de volta, o primeiro desafio é a readaptação escolar. Dos 600 mil estudantes da educação básica no Estado de Baja California, 8,8% são estrangeiros, a maioria proveniente dos EUA. Apenas em Tijuana, são 30 mil alunos nesta condição.

“Eles são socializados em inglês e isso traz sérios problemas de adaptação”, constata a professora Eunice Vargas Valle, do Colegio de la Frontera Norte, que pesquisa o tema.

Em 2017, Eunice coordenou um estudo com mil alunos sobre a inserção de estudantes transnacionais em 84 escolas da região. Os resultados mostram que 18% deles perderam pelo menos um ano em sua vida escolar, enquanto o índice médio entre os mexicanos é de 8%. Frequentemente, filhos americanos de deportados precisam repetir de ano porque não dominam o idioma ou os conteúdos exigidos no México.

Kayla Cortes, por exemplo, deveria estar na terceira série se ainda morasse nos EUA, onde nasceu. Hoje, repete a segunda. Desde que se mudou para Tijuana com a mãe, que foi deportada há oito meses, depois de 25 anos morando em território americano, a menina de 9 anos se esforça para aprender a ler e escrever em espanhol. Nos primeiros dias de aula, reclamava de dores de cabeça. “Doía porque ela não entendia o que estava sendo dito. É difícil, é muita mudança para ela”, lamenta a mãe, Silvia Cortes, de 51 anos.

Em San Diego, Silvia trabalhava como camareira em um hotel. Foi denunciada para a imigração quando estava grávida da caçula por uma colega mexicana legalizada que, segundo ela, estava insatisfeita porque Silvia se sujeitava a fazer horas extras e a trabalhar sem férias. Após nove anos batalhando na Justiça para tentar permanecer nos EUA, perdeu o caso. “Minha mágoa é que foi uma latina que me denunciou.”

Na sala de casa, Kayla apanha um porta-retrato e apresenta os irmãos: Jair, de 17 anos, Victor, de 22, e Luiz, de 27. Luiz é o único nascido no México. Com lágrimas nos olhos, a mãe diz que a menina volta e meia acorda chorando. “Ela sente falta dos irmãos”, lamenta.

Coordenadora da ONG Madres y Familias Deportadas en Acción, a assistente social Maria Galletas oferece apoio para famílias como a de Kayla. Diz que é comum as crianças sofrerem de depressão e bullying na escola, por não falarem bem o idioma. 

Entre os adultos, o abalo na autoestima é o que mais dificulta o recomeço. “Eles voltam cheios de traumas. Conheço casos até de gente que já tinha o green card e foi deportada quando tentava a naturalização americana, porque no seu histórico de 20 anos atrás foi encontrada alguma pequena infração. É muito duro para os deportados, se fecham todas as portas.”

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Deportados chegam ao México com medo, porque não falam espanhol

As deportações estão entre os fatores que contribuem para a flutuação do número de estudantes no Estado de Baja California, no México. Dos 56 mil alunos estrangeiros que ingressaram na rede, 3,2 mil chegaram no meio do ano letivo.

Letícia Duarte / ESPECIAL PARA O ESTADO / TIJUANA. MÉXICO, O Estado de S.Paulo

15 Julho 2018 | 05h00

TIJUANA. MÉXICO - As deportações estão entre os fatores que contribuem para a flutuação do número de estudantes no Estado de Baja California, no México. Dos 56 mil alunos estrangeiros que ingressaram na rede, 3,2 mil chegaram no meio do ano letivo. Na Escola Secundária Ignacio Manuel Altamirano, cerca de 30 dos 860 alunos vieram de fora. “Eles não gostam da mudança.

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Chegam com medo, porque não falam espanhol. No início, há muita resistência. Depois, percebem que não têm outra opção e acabam se adaptando”, disse a professora de espanhol Alma Santiago.

Ela lembra do caso de um aluno americano que, ao ser transferido, aparecia um dia e faltava outros quatro. Ao conversar com ele, descobriu que ele tinha vergonha de ir à aula. “Por que ir se eu não entendo, se riem de mim?”, questionou o menino, que hoje está adaptado.

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Para facilitar a inclusão, a instituição promove atividades para estrangeiros. No mês passado, 25 alunos americanos foram levados para um passeio em San Diego, na Califórnia. “Queremos que se sintam integrados. Eles voltaram contentes, livres, sentindo que também são parte de lá”, conta Alma.

Outra estratégia é estimular alunos fluentes nos dois idiomas a atuar como tutores dos novatos. Nascida nos EUA, Bethany Cornejo, de 13 anos, auxilia neste trabalho. Como seu pai foi deportado em 2006, ela se mudou ainda pequena para Tijuana. De lá para cá, Bethany tem alternado temporadas em escolas americanas e mexicanas. “Nunca estou na mesma escola por mais de um ano.”

Ela diz que se sente bem ajudando os colegas com traduções. Mas, na hora de escrever, hesita ao transitar entre uma língua e outra. “Não acho difícil, mas às vezes me confundo, pois uma coisa é falar. Outra é escrever.” Assim como a filha, os pais também enfrentam dilemas. A mãe de Bethany, Veronica Cornejo, de 37 anos, que é americana, preferia que a filha e seus dois irmãos continuassem a estudar nos EUA, mas a falta de permissão de residência impediu a matrícula, mesmo que sejam cidadãos americanos. 

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Por dois anos, Veronica e os filhos chegaram a fixar moradia nos EUA, visitando o pai nos fins de semana. No ano passado, regressaram para Tijuana. “Eu me perguntava, o que é mais importante? A família unida ou uma boa educação para os filhos? Por que não podemos ter ambos?”, questiona a mãe, professora primária nos EUA.

Mestre em educação, Veronica pretende transformar o dilema familiar em seu novo ramo profissional. “Quero ajudar outras crianças americanas que estão aqui, passando pela mesma situação”, afirma. Em casa, a família fala inglês. Por viverem mais a cultura americana, o pai, Alex Cornejo, diz que uma das maiores dificuldades é ajudar Bethany e os irmãos nas tarefas da escola mexicana. Ele trabalha em telemarketing em Tijuana, prestando atendimento em inglês para empresas americanas – um dos empregos mais comuns entre os deportados. 

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