Ozan Kose / AFP
Ozan Kose / AFP

Com tensão no Oriente Médio, como ficará o futuro da Síria?

Conflito no norte sírio remodela antigas alianças a inicia nova fase da guerra que já dura oito anos

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2019 | 10h15

A inesperada retirada dos soldados americanos de regiões do norte da Síria na semana passada remodelam antigas alianças e iniciam uma nova fase da guerra que já dura oito anos. Veja abaixo algumas questões sobre como deve ficar o futuro da Síria daqui para frente.

Com quem ficará o controle do nordeste da Síria?

Uma faixa da Síria que estava, até então, relativamente estável desde a derrota em março do autoproclamado califado do Estado Islâmico (EI) afundou o país no caos. Enquanto uma força militar (um pequeno contingente americano) abruptamente se retirou de partes do território sírio, outras duas rivais (governos turco e sírio) entraram.

Até pouco tempo atrás, cerca de um terço da Síria era controlado pela milícia do país liderada pelos curdos e apoiada pelos Estados Unidos - as Forças Democráticas da Síria (FDS). O grupo foi a principal força que derrotou o EI na Síria.

Mas no dia 6 de outubro, o presidente americano, Donald Trump, deu à Turquia permissão de cruzar a fronteira e atacar as FDS, consideradas um grupo terrorista por Ancara. 

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Diante da derrota e sem apoio de seus antigos aliados, os líderes da milícia pediram ajuda ao governo sírio, inimigo tanto da Turquia quanto dos EUA. Recentemente, os curdos disseram que alcançaram um acordo para que as tropas do governo da Síria pudessem entrar novamente nas áreas que foram cedidas às forças curdas anos atrás durante uma revolta que varreu o país.

Os recentes eventos estão desencadeando novos riscos, além de aumentar a instabilidade e a violência na região. A Turquia tenta se aprofundar ainda mais no território curdo, usando soldados de oposição à Síria, principalmente árabes e turcos, como tropas terrestres. Esse cenário aumenta o potencial para conflitos étnicos.

A Turquia, membro da Otan, compete por território com o governo sírio, que tem o apoio da Rússia e cujas forças tentam controlar cidades perto da fronteira. Essa situação levanta a possibilidade de um conflito entre Rússia e Otan, mas alguns especialistas acreditam que Ancara e Moscou têm um acordo para alterar o mapa da região. Ambos têm trabalhado juntos na Síria, ainda que oficialmente apoiem facções opostas.

O que está em jogo é o futuro de quase quatro milhões de sírios que vivem sob o controle das FDS e acabaram encontrando um alívio em meio à repressão, tanto do EI quanto do governo sírio, que bombardeou suas próprias cidades e enviou milhares de pessoas a prisões de tortura para permanecer no poder.

Em documentos recentes, os americanos pedem à Turquia que pare com suas ações, e os EUA têm enviado sinais mistos sobre se tentarão manter parte das tropas na área. Mas especialistas argumentam que, ao permitir o início da incursão turca, Washington acabou com sua proteção militar das FDS, ao menos por enquanto. A ofensiva da Turquia torna qualquer continuidade da presença americana insustentável, segundo os analistas, ao bloquear as rotas de fornecimento de itens essenciais e minando a confiança de moradores da região nos EUA.

Como ficarão os curdos?

Sem o apoio dos americanos, os curdos enfrentam um enorme golpe em suas esperanças de manter um certo grau de autonomia. Eles perderam influência em qualquer acordo futuro tanto com a Turquia quanto com o governo sírio. Diante disso, há muitas dúvidas sobre o tipo de pacto alcançado entre curdos e o governo sírio.

As FDS, que praticamente nunca entraram em combate com o governo sírio ou seus aliados, sugeriram que o acordo implica permitir que as forças sírias entrem em suas áreas e levantem a bandeira do governo da Síria, impedindo assim que a Turquia ataque. Contudo, o governo sírio já disse que pedirá a dissolução das FDS.

Os líderes curdos, que nunca confiaram cegamente nos EUA, sempre mantiveram canais de diálogo abertos com Moscou e Damasco. Mas a Síria tem um longo histórico de repressão aos curdos, e o governo do presidente Bashar Assad não é conhecido por fazer acordos. 

Nas regiões que retomou o controle, o país insistiu na total rendição, sem qualquer concessão. Além disso, puniu aqueles que o desafiaram, recrutando e até mesmo fazendo desaparecer aqueles que buscavam autonomia.

Alguns acreditam que os curdos se sairão melhor dessa situação. Mas nas áreas de maioria árabe, o clima é de temor, o que abre as portas para o ressurgimento de uma oposição armada, incluindo extremistas.

Como a população civil está sendo afetada?

Cerca de 100 mil civis fugiram da região de fronteira que está sob ataque da Turquia. As estradas das principais cidades estão lotadas e diversas famílias que conseguiram escapar contam a repórteres que não têm ideia de para onde vão. As vias para a Turquia também estão bloqueadas.

Alguns tentam fugir para regiões curdas do Iraque, outros para territórios das FDS mais ao sul do país, onde oficiais da milícia alegam que estão realocando alguns campos de refugiados.

Mas ambas as regiões estão exaustas e destruídas após anos de combate ao EI e contam com poucos recursos para oferecer aos refugiados. Para piorar, o grupo de ajuda internacional Mercy Corps está deixando o nordeste da Síria porque não consegue mais chegar às pessoas necessitadas.

Em meio ao conflito, já foram registradas mortes de civis na Turquia por soldados das FDS. Outra ameaça pode surgir se os curdos nas FDS decidirem iniciar uma campanha insurgente contra os turcos. 

O Estado Islâmico vai voltar?

O caos das últimas semanas abriu as portas para duas possíveis ameaças do EI: a fuga de ex-combatentes detidos quando o grupo foi derrotado e a reativação de células dormentes.

Milhares de militantes suspeitos estavam sendo mantidos em instalações de detenção ao longo do território das FDS, incluindo ao menos 2 mil cidadãos estrangeiros cujos países de origem se recusam a recebê-los de volta.

Algumas prisões estão localizadas dentro da faixa de 30 km que a Turquia prometeu ampliar. Com isso, alguns campos concentram milhares de pessoas de regiões que já foram controladas pelo EI, incluindo muitas mulheres e crianças.

Também há relatos de fugas e as forças americanas não conseguiram retirar dezenas de presos importantes antes do início da ofensiva. Uma das prisões, na fronteira com a cidade síria de Qamishli, foi atingida por morteiros turcos na sexta-feira, e cinco supostos membros do EI conseguiram escapar.

Soldados das FDS tentam se manter nas prisões, mas não está claro quanto tempo eles conseguirão ficar por lá.

Além disso, também há o temor de que células dormentes do EI ao longo da região possam tirar vantagem da agitação e retomar suas atividades. O grupo jihadista já assumiu a responsabilidade por um bombardeio suicida em Qamishli desde que as operações na Turquia começaram.

Muitos árabes temem o retorno dos militantes do EI. Mas a ameaça de um retorno das forças do governo sírio - o que culminaria em torturas ou recrutamento, especialmente de jovens opositores - podem levar alguns a apoiarem qualquer alternativa, até mesmo os extremistas. / NYT

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