REUTERS/Stringer/File Photo
REUTERS/Stringer/File Photo

Com tiros para o alto, 'comemoração' do Taleban deixa 17 mortos em Cabul

Combatentes do movimento fundamentalista celebravam rumores de vitória sobre a resistência na província de Panjshir; líderes da oposição negam que tenham sido derrotados

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 08h34

CABUL — Pelo menos 17 pessoas morreram em Cabul, capital do Afeganistão, após integrantes do Taleban atirarem para o alto em comemoração à suposta conquista da província de Panjshir, último reduto de oposição ao grupo islâmico. O gesto, que também deixou 41 civis feridos, foi desaprovado pelo porta-voz do próprio grupo, informaram agências de notícias afegãs neste sábado, 4.

A celebração dos combatentes começou depois que se espalharam rumores de que o Taleban havia tomado o controle de Panjshir, cerca de 80 quilômetros ao norte da capital. Líderes da resistência, porém,  negam que a província tenha caído, e o movimento islâmico não fez nenhum anúncio oficial a esse respeito. Desde segunda-feira, quando as últimas tropas americanas deixaram o país, a região é palco de combates entre o grupo fundamentalista e a Frente Nacional de Resistência (FNR).

O principal porta-voz do Taleban, Zabihullah Mujahid, usou o Twitter para repreender o comportamento dos combatentes. "Agradeçam a Deus em vez de atirar para o alto", disse. "As balas podem ferir civis, então não atirem sem necessidade."

Formação de governo

Anteriormente marcada para sexta-feira, a apresentação de um governo por parte do Taleban foi novamente adiada neste sábado, e não tem data para acontecer. Quase três semanas já se passaram desde que os fundamentalistas recuperaram o controle do Afeganistão, e o anúncio de um Poder Executivo formado pelo grupo é esperado porque pode dar pistas sobre como serão os próximos anos no país.

A principal explicação para o atraso é a situação em Panjshir, cujo domínio é atualmente o maior desafio enfrentado pelo grupo, à medida que tem havido confrontos ferozes com as forças de resistência na província. Refugiado no local, o ex-vice-presidente Amrullah Saleh disse que uma "situação muito difícil" está ocorrendo, em uma mensagem de vídeo transmitida na noite de sexta-feira. Ele assegurou que a "resistência continua e continuará".

De acordo com Ahmad Masud, que lidera a oposição no vale, o Taleban propôs dois cargos em seu futuro governo a membros da FNR, em troca pelo controle da província. "Como queremos um futuro melhor para o Afeganistão, nem sequer consideramos a oferta", disse na quarta-feira o filho do comandante Ahmed Shah Masud, assassinado em 2001 pela Al Qaeda.

Desde a sua volta ao poder, no final de uma ofensiva relâmpago que pegou o governo e a comunidade internacional desprevenidos, o Taleban tem tentado retratar uma imagem mais contida, com vários gestos de abertura. Eles prometeram, por exemplo, formar um governo "inclusivo", e nas últimas semanas multiplicaram seus contatos com personalidades afegãs que se opunham a eles, como o ex-presidente Hamid Karzai e o ex-vice-presidente Abdullah Abdullah.

Quanto aos direitos das mulheres — duramente reprimidos durante o primeiro regime do grupo, de 1996 a 2001 —, o Taleban disse que eles serão respeitados, desde que elas "cumpram as leis islâmicas". Eles também deram a entender que não haverá ministras no governo, e que a presença feminina será relegada a escalões inferiores.

Além das questões sociais e de segurança, também é incerto se o Taleban conseguirá endireitar a economia do país, que se encontra em péssimo estado após quatro décadas de conflito e privada de ajuda internacional. “O Afeganistão enfrenta uma catástrofe humanitária iminente”, alertou na sexta-feira a Organização das Nações Unidas (ONU), que vai realizar uma reunião em 13 de setembro para discutir o aumento da ajuda humanitária destinada ao país. O Catar, que está na vanguarda das negociações com o movimento islâmico, disse que planeja abrir "corredores humanitários" nos aeroportos afegãos em um futuro próximo./AFP e Reuters

Tudo o que sabemos sobre:
TalebanAfeganistão [Ásia]

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.