Com tríplice premiação, Nobel destaca luta de mulheres africanas e árabes

Pela paz. Presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, sua compatriota Leymah Gbowee e a ativista pró-democracia iemenita Tawakkul Karman são laureadas por comitê, que ressalta a necessidade de igualdade de gêneros para a plenitude democrática

OSLO, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2011 | 03h05

No ano da primavera árabe, o Prêmio Nobel da Paz laureou ontem em Oslo três ativistas pelos direitos femininos na África e no Oriente Médio - a presidente da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, sua compatriota Leymah Gbowee, e a iemenita Tawakkul Karman - "pela luta não violenta em favor da segurança das mulheres e seu direito de participar plenamente da construção da paz". Elas dividirão igualmente o prêmio de US$ 1,5 milhão.

Numa crítica indireta à repressão sofrida por mulheres em países da África e Oriente Médio, o Comitê Nobel lembrou que a democracia e a paz não podem ser alcançadas sem que homens e mulheres tenham as mesmas oportunidades. "Incluímos a primavera árabe nesse prêmio em um contexto particular", disse o presidente do comitê, Thorbjoern Jagland. "A opressão das mulheres é a questão mais importante do mundo árabe hoje."

Primeira mulher democraticamente eleita na África, Sirleaf, de 72 anos, disse que o prêmio é o reconhecimento de muitos anos de luta pela democracia. Ela concorreu pela primeira vez à presidência contra Charles Taylor, em 1997, na eleição que pôs fim a uma guerra civil que começara em 1989.

O ex-líder rebelde, conhecido por financiar sua luta armada com o tráfico de diamantes, venceu a eleição. Derrotada, Ellen deixou a Libéria para trabalhar no Banco Mundial. Dois anos depois, o país mergulhou mais uma vez em uma guerra civil, que só acabaria em 2003.

Com a pacificação do país, Ellen retornou em 2005 e venceu a eleição contra o ex-jogador do Milan George Weah. O sucesso da reconciliação e reconstrução do país nos últimos anos é atribuído a ela, que é candidata à reeleição na terça-feira.

"Esse prêmio fortalece meu compromisso com o trabalho de reconciliação", disse ela. "Os liberianos deveriam estar orgulhosos." O Comitê Nobel rejeitou as críticas de que a distinção possa influenciar a eleição.

A ativista Leymah Gbowee, de 39 anos, fundou o movimento "Mulheres pela Paz", que uniu cristãos e muçulmanos pelo fim da segunda guerra civil. Ela também ficou conhecida por liderar uma "greve de sexo" para pôr fim ao conflito.

Das três laureadas, apenas Tawakkul, de 32 anos, teve envolvimento direto com os movimentos pró-democracia que varreram o Oriente Médio e o Norte da África desde o começo do ano. Conhecida como "mãe da revolução" iemenita e membro de um partido islamita afiliado à Irmandade Muçulmana, ela tem lutado pela renúncia do ditador Ali Abdullah Saleh há pelo menos cinco anos. Sua prisão, em 23 de janeiro, levou a uma onda de protestos no país.

"Esse prêmio vai para a juventude da revolução e o povo iemenita", declarou à Associated Press. "É uma vitória dos árabes e das mulheres árabes."

Reconhecimento. Para a professora Nadia Mostafa, da Universidade do Cairo, o prêmio traz um significado político positivo. "O Islã sempre foi associado ao terrorismo e à intolerância. Dar o prêmio a uma mulher islamita significa uma reavaliação", afirmou ao New York Times. "O Islã não é contra a paz e não é contra as mulheres."

De acordo com diretor do Instituto Brookings em Doha, no Catar, Shadi Hamid, o prêmio atenuou a importância dos movimentos pró-democracia no mundo árabe. "Foi uma decisão decepcionante. Sem desmerecer os feitos das ganhadoras, este era o ano para premiar a luta dos ativistas árabes pela liberdade", disse em entrevista ao Estado. "É um dos grandes acontecimentos da década, talvez até do século."

Até a edição de 2010, apenas 12 mulheres haviam sido laureadas pelo prêmio. A única africana fora a queniana Wangari Mathai, ganhadora em 2004. Tawakkul Karman tornou-se a primeira árabe da lista, que inclui a Madre Teresa de Calcutá, a iraniana Shrin Ebadi, a birmanesa Aun Sang Suu Kyi e a guatemalteca Rigoberta Menchú. / Luiz Raatz, COM AP E NYT

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