REUTERS/Kevin Lamarque
REUTERS/Kevin Lamarque

Com Trump, honra e integridade são coisas do passado

Presidente está redefinindo o Partido Republicano, que se atrelou ao indivíduo mais corrupto que já foi eleito chefe de Estado dos EUA

Peter Wehner*/ The New York Times , O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2018 | 05h00

Nunca houve dúvidas sobre os defeitos de caráter de Donald Trump. A questão sempre foi saber até onde ele chegaria, e se outras pessoas ou instituições o enfrentariam ou se tornariam cúmplices de sua corrupção. Na primeira vez que usei este espaço para escrever sobre Trump, três anos atrás, aconselhei meus companheiros republicanos a dizer não tanto a ele quanto a sua candidatura.

Uma de minhas preocupações era que, se eleito, Trump redefinisse o Partido Republicano a sua imagem e semelhança – e isso já vem ocorrendo: no livre-mercado e no tamanho do governo; no nacionalismo étnico e na política de identidade branca; nos compromissos dos EUA com seus aliados tradicionais; e em como os republicanos veem a Rússia. Mas em nenhuma área Trump mudou tão fundamentalmente o Partido Republicano quanto em ética e liderança política.

Os republicanos, especialmente os mais conservadores, sempre insistiram em que caráter e vida pública andam juntos. Foram enfáticos sobre isso quando estourou o escândalo envolvendo Bill Clinton e Monica Lewinsky.

Honra e integridade

Isso tudo mudou com Trump presidente. Para os republicanos, honra e integridade se tornaram coisas do passado. Na semana passada, ante um juiz e sob juramento, Michael Cohen, ex-advogado de Trump, implicou-o em atividades criminosas, enquanto em outro tribunal o ex-chefe de campanha do presidente era condenado por fraude financeira. A maioria dos republicanos no Congresso calou-se ou saiu em defesa de Trump. É uma reviravolta assustadora.

Um partido que antes falava com ênfase da importância da liderança ética, da fidelidade, honestidade, honra, decência, bons exemplos – atrelou-se ao indivíduo mais convictamente corrupto que já foi eleito presidente.  Antecessores de Trump já se mostraram inescrupulosos, mas nenhum se envolveu numa corrupção de tão amplo espectro.

Para muitos republicanos, a ficha dessa realidade ainda não caiu. As condenações morais contra Trump são conhecidas e avassaladoras. A corrupção é evidente em sua vida privada e na pública. Está no modo como ele trata as mulheres, em seus negócios, em sua patológica crueldade, na propensão à mentira, em sua agressividade sem arrependimento e em seus conchavos. Ela desperta os mais sombrios impulsos dos americanos. O instinto de corrupção de Trump é de raiz, resultado de uma vida de maus hábitos. Foi ilusão achar que ele melhoraria se eleito presidente.

Muitos de nós, republicanos veteranos que já trabalharam em governos republicanos, tínhamos a tênue esperança de que uma hora nosso partido lhe diria “chega!” se Trump excedesse irremediavelmente os limites. Não tivemos tanta sorte. O partido assumiu a corrupção de Trump, que até agora não chegou ao limite e talvez nunca chegue. É bem possível que, caso eu não estivesse blindado a algumas realidades que deveria ter reconhecido, isso se tornasse óbvio para mim mais cedo.

De qualquer modo, o até agora inquebrável comprometimento do Partido Republicano com Trump começa sair caro. O movimento evangélico branco, que se alinhou entusiasticamente a ele, sofreu um estrago e perdeu muito crédito. Há também um custo eleitoral a ser pago em novembro. Mas o estrago maior é o que está sendo causado a nossa cultura cívica e a nossa política.

Trump e o Partido Republicano são hoje símbolos da lei do mais forte e da corrupção e cinismo na vida política americana. Desumanizar os outros tornou-se regra e a verdade passou a ser relativa. A política está sendo despida de nobreza. Claro que política não é só isso. Mas se ela se resumir ao poder sem os limites da moralidade, à lei da selva, todo o esquema entrará em colapso. Temos de diferenciar entre líderes imperfeitos e líderes corruptos.

Um aviso a meus amigos republicanos: o pior ainda está por vir. Graças ao trabalho de Robert Mueller, vamos descobrir camadas cada vez mais profundas da corrupção de Trump. Espero então que Trump se revele mais, à medida que se sinta mais acuado, mais desesperado, mais enraivecido e seu comportamento se torne cada vez mais errático, desordenado e insano.

A maioria dos republicanos, tendo apostado forte no “vamos fazer os EUA grandes novamente” de Trump, ficará com ele até o fim. Mas será que um corte de impostos, alguma desregulamentação e alguns cargos compensam isso? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É ESCRITOR E MEMBRO DO CENTRO DE POLÍTICA PÚBLICA E ÉTICA

 

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