Youssef Boudlal/Reuters
Youssef Boudlal/Reuters

Com ultimato prestes a expirar, forças anti-Kadafi cercam reduto de ditador

Negociação entre comandante do Conselho Nacional de Transição (CNT) e cerca de 200 militares pró-ditadura chegou ao fim na noite de ontem sem um acordo para rendição da tropa leal ao regime, entrincheirada na cidade de Bani Walid

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

Os cerca de 2 mil rebeldes que cercam Bani Walid, um dos últimos redutos de Muamar Kadafi, esperavam ontem os resultados das últimas negociações para evitar um banho de sangue na cidade de 100 mil habitantes. As forças leais a Kadafi têm entre 100 e 200 homens, mas aparentemente receberam armamento pesado levado, na semana passada, por Saif al-Islam, filho de Kadafi, que já deixou a cidade.

O comandante Abdallah Kanshil, que conduz as negociações em nome do Conselho Nacional de Transição, disse ontem que alguns franco-atiradores em Bani Walid haviam deposto suas armas. "A rendição da cidade é iminente", afirmou. "É uma questão de evitar baixas de civis. Nossas forças estão prontas."

Situada a 140 quilômetros de Trípoli, Bani Walid é reduto da tribo warfallah, a maior da Líbia, que apoiava Kadafi antes do levante, há seis meses. Com a guerra civil, a tribo de 1 milhão de pessoas, ou um sexto da população do país, dividiu-se.

Um membro da tribo em Bani Walid disse que o diálogo era "de primo para primo". As negociações já falharam uma vez, após os líderes tribais se negarem a participar de uma reunião em uma mesquita, exigindo que os combatentes rebeldes entrassem desarmados na cidade, o que eles recusaram.

As forças de oposição ao regime mantêm também o cerco a Sirte, outro bastião de apoio a Kadafi e cidade natal do ditador, situada 450 quilômetros a leste de Trípoli. Há combates também pela disputa do controle de Sabha, 787 quilômetros da capital.

O conselho local anunciou que o abastecimento de água foi retomado em Trípoli. À medida que a vida volta ao normal, com as empresas reabrindo e os moradores retornando ao trabalho, surgem os sinais das atividades sinistras do regime.

Trabalhadores de uma fábrica de blocos de cimento antes ocupada pela Brigada Khamis, do filho de Kadafi, acharam uma mão e um braço em um monte de areia. Eram partes de um homem que teve os dedos da mão esquerda e a perna esquerda abaixo do joelho arrancados. O abdome tinha marcas de perfurações e, segundo o médico Ahmed Shuehedi, que levou o corpo para o Centro Médico de Trípoli, ele parece ter sido queimado.

O cheiro de corpos em decomposição exalava de vários pontos da fábrica visitada pelo Estado. O policial Salah Smohen acredita que vários outros corpos devam ser retirados do prédio. O conselho local de Trípoli prometeu enviar hoje uma escavadeira para ajudar nas buscas.

Abder Rahman Mohamed, supervisor da fábrica, diz que ela foi conquistada pela brigada no início de junho e, desde então, parou de funcionar. Os soldados levaram para lá veículos e armas. A fábrica fica nos fundos da base da brigada, no sul de Trípoli, e ao lado de um galpão onde 53 corpos carbonizados foram achados na semana passada. O uso de instalações civis para escapar das bombas da Otan era comum.

Na semana passada, o Estado encontrou uma fábrica de feijão e ervilha enlatados, em frente à base da Brigada Khamis, a 20 quilômetros de Trípoli, convertida em depósito de armas, incluindo pistolas brasileiras Taurus.  

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