Alan Santos/PR
O presidente é acompanhado pelo filho, o senador Flávio Bolsonaro, durante partida de Brasília para Israel Alan Santos/PR

Com visita a Israel, Bolsonaro acena a evangélicos, Trump e Netanyahu

Viagem de presidente a Jerusalém ocorre em meio à incerteza sobre troca de embaixada, que agradaria base de eleitores neopentecostais; no front externo, analistas veem estratégia de aproximação com EUA e respaldo eleitoral a Bibi

Cristiano Dias, enviado especial a Jerusalém, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2019 | 22h00

O presidente Jair Bolsonaro inicia no domingo, 31, em Israel uma viagem de caráter político e religioso. Com uma mão, Bolsonaro pretende afagar a bancada evangélica, crucial para o avanço de sua agenda no Congresso. Com a outra, ele joga o peso do Brasil na campanha do premiê israelense, Binyamin Netanyahu, que corre risco de perder o cargo nas eleições locais do dia 9. 

A primeira missão deve ser cumprida sem muito esforço, mesmo que Bolsonaro anuncie apenas a instalação de um escritório de negócios em Jerusalém, em vez da mudança da embaixada, como havia prometido. Na última semana, o deputado Marco Feliciano (Podemos-SP) afirmou que a decisão seria uma solução provisória, até o Brasil “conseguir apoio da comunidade árabe”.

Nas últimas semanas, a bancada evangélica voltou a chiar. Nos bastidores, eles cobraram a transferência da embaixada e ficaram insatisfeitos com a declaração à Rádio Gaúcha do chanceler Ernesto Araújo de que não há nada definido sobre a mudança. O governo espera que as imagens de Bolsonaro em locais sagrados, como a Basílica do Santo Sepulcro e o Muro das Lamentações, em Jerusalém, sirvam para acalmar a tropa. 

Para entender a simpatia dos evangélicos por Israel é preciso voltar no tempo. Doutrinas apocalípticas sempre existiram. A Bíblia, segundo movimentos pentecostais e neopentecostais, não é apenas um amontoado de acontecimentos do passado e um guia de boas maneiras para o presente, é também um plano de Deus para o futuro. 

Muitos evangélicos creem que um segundo Cristo chegará à Terra Santa e estabelecerá o reino de Deus na Terra. Forças do mal que jogam contra são anticristos que querem a destruição de Israel. Eles podem ter várias formas: o rei da Assíria, os persas, Hitler, a União Soviética ou Mahmoud Ahmadinejad, ex-presidente do Irã. 

Netanyahu e o elo com evangélicos americanos

 Proteger Israel é, portanto, uma profecia. Segundo Donald Wagner, professor de religião da North Park University, de Chicago, grupos ligados ao lobby judaico nos EUA e o governo de Israel há muito tempo perceberam o potencial político dos evangélicos e se aproximaram de televangelistas americanos como Jimmy Swaggert, Pat Robertson e Jerry Falwell. 

Poucos souberam explorar essa coalizão tão bem quanto Netanyahu, que se tornou premiê pela primeira vez em 1996 e percebeu rápido que os judeus dos EUA caminhavam para a esquerda – mais de 75% dos judeus americanos votaram em candidatos democratas em 2018. 

“Segundo Bibi, os jovens serão assimilados em breve e perderão o elo com Israel”, disse Wagner. “Para ele, os evangélicos são uma forma de compensar a perda. Eles formam um lobby poderoso capaz de mudar a política externa americana.”

“Com o tempo, esta lógica foi sendo importada pelas igrejas evangélicas brasileiras, principalmente as Assembleias de Deus e a Igreja Universal”, afirma Guilherme Casarões, historiador da FGV. No Brasil dos anos 2000, foram formadas frentes parlamentares e grupos de apoio a Israel. “Hoje, os evangélicos são uma força dentro dos governos de Trump e de Bolsonaro.”

Arie Kacowicz, professor de relações internacionais da Universidade Hebraica de Jerusalém, reconhece a importância da base religiosa, mas acredita que a visita de Bolsonaro a Israel foi feita para um outro espectador: Trump. “Os líderes da América Latina querem atrair apoio americano. Israel não é o foco principal. O objetivo é os EUA”, disse.

Visita ocorre em reta final de campanha

 A segunda missão do presidente brasileiro é mais complicada. É incomum embarcar em uma visita de Estado a um país na véspera de um conturbado processo eleitoral. Mas Netanyahu insistiu na data. Segundo a programação oficial, ele posará para fotos ao lado do presidente brasileiro em três dos quatro dias da viagem. 

Para Bolsonaro, não parece ser um problema. Em março, nos EUA, ele já havia declarado apoio à reeleição de Trump. “O prejuízo da diplomacia pessoal é que o Brasil pode ficar sem aliados em pouco tempo”, disse Casarões, que cita o risco de vitória democrata, em 2020, e de Netanyahu perder a eleição. 

Pode acontecer. Segundo pesquisas, o Partido Azul e Branco, do ex-comandante das Forças Armadas Benny Gantz, teria hoje 32 cadeiras das 120 do Parlamento, à frente do Likud, de Netanyahu, que ficaria com 28. Ainda é incerto quem teria mais apoio de partidos menores, mas Gantz pode ter a prerrogativa de montar o governo e acabar com o reinado de Bibi.

Em entrevista ao New York Times, em março, Yair Lapid, um dos líderes do Partido Azul e Branco, afirmou que “se Netanyahu preferiu se aliar a populistas de direita como Bolsonaro”, talvez seja melhor a oposição israelense “buscar aliados em governos liberais”. / COLABOROU JULIA LINDNER

Encontrou algum erro? Entre em contato

Visita de Bolsonaro reaproxima Brasil e Israel após anos de distanciamento

Desde criação de Israel, relações com o Brasil variaram da neutralidade às polêmicas no governo de Dilma Rousseff

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2019 | 22h00

JERUSALÉM-  Oswaldo Aranha é o nome de uma ruela perto do Mercado de Sarona, em Tel-Aviv. O ex-chanceler de Getúlio Vargas é um dos protagonistas da improvável criação de um Estado judeu na Palestina britânica. Após a 2ª Guerra, como embaixador do Brasil na ONU, ele presidiu a Assembleia-Geral que aprovou o plano de partilha do território e abriu caminho para a criação de Israel, em 1948. 

Até os anos 60, o Brasil conseguiu se manter equidistante no conflito árabe-israelense, chegando até a esboçar alguma simpatia por Israel em votações no Conselho de Segurança da ONU, como a recusa em apoiar a proposta soviética de condenar o governo israelense por agressão aos vizinhos árabes na Guerra dos Seis Dias, em 1967.

Os choques do petróleo, no entanto, marcaram a primeira guinada da relação brasileira com a região. A partir dos anos 70, para manter o fornecimento, o governo militar levantou a bandeira do pragmatismo e se alinhou com os árabes. Foi período mais anti-Israel da história das relações exteriores do Brasil, principalmente na presidência do general Ernesto Geisel

No livro O Brasil do general Geisel, o cientista político Walter de Góes lembra um dos episódios mais marcantes da relação entre Brasil e Israel. Em novembro de 1975, a Assembleia-Geral votava a Resolução 3379, que considerava o sionismo uma forma de racismo. Depois de sinalizar o voto favorável em uma comissão preliminar, Geisel quis mudar de opinião, mas ficou tão irritado com as críticas que recebeu dos EUA que mandou o chanceler Azeredo da Silveira manter posição e condenar o sionismo.

Com o colapso da União Soviética e o fim da Guerra Fria, a diplomacia brasileira voltou a buscar uma posição equidistante na região. Embora muitas vezes crítico ao governo israelense em votações sobre direitos humanos na ONU, o Brasil teve gestos de conciliação. Em 2007, Israel foi o primeiro país a assinar um tratado de livre-comércio com o Mercosul. 

Relações oscilaram nos anos petistas

Em 2010, Luiz Inácio Lula da Silva se tornou o primeiro presidente brasileiro a realizar uma visita de Estado a Israel. Seu governo, no entanto, é criticado por muitos israelenses não pela aproximação com os palestinos, mas pelo apoio dado ao Irã. Dois meses depois da viagem a Israel, Lula articulou com a Turquia um acordo nuclear com os iranianos bastante criticado pelas potências ocidentais.

O que já era percebido como ruim ficou ainda pior no governo Dilma Rousseff. Em 2014, após o Brasil emitir um comunicado condenando Israel pelo "uso desproporcional da força" em bombardeios à Faixa de Gaza, Yigal Palmor, porta-voz da chancelaria israelense, respondeu com um golpe abaixo da linha da cintura. 

“Esta é uma demonstração lamentável de como o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático”, disse Palmer -- que não parou aí. “A resposta de Israel foi proporcional de acordo com a lei internacional. Isto não é futebol. No futebol, quando a partida termina empatada, você diz que é proporcional. Mas quando acaba em 7 a 1, é desproporcional”, afirmou o porta-voz, tirando sarro com o trauma na Copa de 2014.

É contra essa hostilidade que Jair Bolsonaro trabalha a partir de hoje, em sua visita a Israel. Dada sua afinidade com o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, a tarefa parece mais fácil do que a missão de Tite à frente da seleção. 

Notícias relacionadas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.