EFE/Ernesto Arias
EFE/Ernesto Arias

Com vitória confirmada, Kuczynski sonda equipe ministerial

Com quase 99% dos votos apurados no Peru, 0,25 ponto porcentual separava candidatos

Luiz Raatz, Enviado Especial / Lima, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2016 | 20h12

Após três dias de suspense e tensão, o economista Pedro Pablo Kuczynski consolidou-se nesta quarta-feira (8), após a contagem de 98,9% dos votos, como o vencedor do segundo turno da eleição presidencial de domingo no Peru, e dava os primeiros passos para a montagem de seu gabinete. Mas a comemoração de seus partidários ainda era tímida. 

Em números absolutos, a diferença para a rival, Keiko Fujimori, era de pouco mais de 40 mil votos – num universo de mais de 19 milhões de votantes – e, embora estatisticamente a hipótese de uma virada estivesse descartada, a perspectiva de contestações, pedidos de impugnação e solicitações de recontagem permanecia palpável. PPK, como o economista é conhecido, somava nesta altura da contagem 50,12% dos votos (8.533.526). Keiko obtinha 49,87% (8.491.505). 

Partidários de Keiko e PPK reuniam-sena quarta-feira na frente do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (Onpe) à espera do resultado final. Aproximadamente 1,5% das atas eleitorais foram contestadas por fiscais de ambos os partidos e serão analisadas por uma comissão especial da Justiça Eleitoral.

A tendência é a de que milhares de votos sejam impugnados por irregularidades no preenchimento das cédulas. Mesmo assim, institutos de pesquisa já davam como irreversível a vitória de Kuczynski, de 77 anos, que conseguiu aglutinar o voto antifujimorista da esquerda à direita liberal.

Entre seus eleitores postados diante da sede do organismo eleitoral, no entanto, havia o temor de uma fraude que lhe tirasse a estreita vantagem. “Em 2000, eles (fujimoristas) fizeram a mesma coisa. Roubaram a vitória de Alejandro Toledo (derrotado por Alberto Fujimori no segundo turno) impugnando atas”, declarou ao Estado o vendedor Alberto Linares, com uma faixa com as iniciais do candidato na cabeça e bandeiras do partido. 

“Estou aqui porque quero Keiko presidenta, para resolver o problema da criminalidade. Ninguém aguenta mais”, disse, por seu lado, a dona de casa Romina Uriarte, que está desde segunda-feira no local, vestida de laranja – a cor do partido – e com bonés e bandeiras do Fuerza Popular. 

Otimismo. O clima de otimismo e confiança começou a tomar conta da campanha de Kuczynski na noite de terça-feira, depois de o Instituto Ipsos ter projetado que a vantagem do candidato era irreversível. Pela manhã, aliados de PPK participaram de uma reunião com autoridades eleitorais no centro de Lima. 

A montagem da equipe de governo começou horas depois. “Com a diferença que temos, creio que Pedro Pablo já é nosso presidente”, disse a candidata à segunda vice-presidência de PPK, Mercedez Araóz. “Estamos montando as equipes, precisamos definir o ministério.”

Em busca de governabilidade, PPK deve formar o governo com nomes aceitáveis para o fujimorismo – que detém 73 das 130 cadeiras do Legislativo.

Pelo menos protocolarmente, o porta-voz de Keiko e deputado eleito, Pedro Spadaro, ainda se mostrava confiante numa virada. “Vamos melhorar nosso desempenho nos últimos votos”, disse. 

O diretor do Onpe, Mariano Chucho, voltou a descartar qualquer hipótese de fraude, mesmo com as urnas impugnadas, opinião compartilhada por analistas. “A dinâmica da política peruana nas últimas décadas, dividida entre fujimorismo e antifujimorismo, nunca foi tão pronunciada quanto nesta eleição”, disse ao Estado a cientista política Adriana Urrutia.

“Mas acho difícil que qualquer uma das partes se recuse a aceitar o resultado. Os dois lados reconheceram que o processo é transparente e prometeram esperar os resultados oficiais para se pronunciar.”

PERFIL

“Dizem que estou velho, mas o cérebro e a experiência ainda funcionam.” Aos 77 anos, Pedro Pablo Kuczynski, ex-financista de Wall Street, conta que já recomendaram a ele se aposentar e passear de moto, mas decidiu se candidatar à presidência do Peru – que deve assumir em 28 de julho com mandato até 2021. A presidência é a única função que falta em seu currículo. PPK foi ministro de Minas e Energia no segundo governo de Fernando Belaúnde, nos anos 1980, depois ministro da Economia e primeiro-ministro na gestão de Alejandro Toledo (2001 a 2006), período que se caracterizou pelo avanço econômico do país.

Defensor da liberdade de mercado, ele planeja reduzir os impostos para reativar uma economia tradicionalmente de exportação e criar 3 milhões de empregos, com ajuda dos investimentos público e privado. PPK teve de renunciar à cidadania americana pelo receio de seus compatriotas de que, numa situação adversa, ele fugisse para os EUA, como ocorreu com Alberto Fujimori, que renunciou por fax enviado do Japão, em meio a um escândalo de corrupção.

Aos detratores que temem que ele possa favorecer empresas das quais participou como diretor, PPK afirmou: “São disparates. Minhas mãos estão limpas”. / FRANCE PRESSE

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