Juan Manuel Ballestero via The New York Times
Juan Manuel Ballestero via The New York Times

Com voos proibidos, argentino navega pelo Atlântico para encontrar pai de 90 anos

Preso em Portugal por causa do coronavírus, Juan Manuel Ballestero decidiu viajar por 85 dias da única maneira que podia: em um pequeno barco

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2020 | 03h00

BUENOS AIRES - Dias depois que a Argentina cancelou todos os voos internacionais de passageiros para proteger o país do novo coronavírus, Juan Manuel Ballestero começou sua jornada para casa da única maneira possível: subiu a bordo de seu pequeno veleiro para uma odisseia de 85 dias pelo Atlântico.

O marinheiro de 47 anos poderia ter ficado parado na pequena ilha portuguesa de Porto Santo, para superar a era dos bloqueios e do distanciamento social em um local cênico amplamente poupado pelo vírus. Mas a ideia de passar o que ele pensava ser "o fim do mundo" longe de sua família, especialmente de seu pai que logo completaria 90 anos, era insuportável.

Então, ele disse que carregou seu veleiro de 29 pés com atum enlatado, frutas e arroz e partiu em meados de março. "Eu não queria ficar como um covarde em uma ilha onde não havia casos", disse Ballestero. “Eu queria fazer todo o possível para voltar para casa. A coisa mais importante para mim era estar com minha família."

A pandemia de coronavírus alterou a vida de praticamente todos os países do planeta, destruindo a economia global, exacerbando a tensão geopolítica e interrompendo a maioria das viagens internacionais.

Um aspecto particularmente doloroso tem sido a incapacidade de um número incontável de pessoas de voltarem para casa para ajudar os entes queridos.

Amigos tentaram dissuadir Ballestero de embarcar na perigosa jornada, e as autoridades em Portugal o avisaram de que ele não teria permissão para entrar novamente se tivesse problemas e tivesse que voltar. Mas ele não teve dúvidas. “Comprei uma passagem só de ida e não havia volta”, disse ele.

Seus parentes, acostumados com o estilo de vida itinerante de Ballestero, sabiam que era impossível tentar convencê-lo disso. "A incerteza de não saber onde ele estava por 50 dias foi muito dura", disse seu pai, Carlos Alberto Ballestero. "Mas não tínhamos dúvida de que daria certo".

Desafios

Navegar pelo Atlântico em um pequeno barco é no mínimo desafiador. As dificuldades adicionais de fazê-lo durante uma pandemia ficaram claras três semanas depois da viagem.

Esperando que ele ainda tivesse comida suficiente para chegar ao destino final, ele virou o barco para o oeste. Com menos combustível do que esperava, ele ficaria mais à mercê dos ventos.

Ele estava acostumado a passar longos períodos no mar, mas estar sozinho em mar aberto é assustador até para o marinheiro mais experiente.

Alguns dias depois de começar a jornada ele ficou em pânico com a luz de um navio que ele pensava estar o seguindo, e se aproximando cada vez mais. "Comecei a ir o mais rápido possível", disse Ballestero. "Eu até cogitei disparar contra o navio caso ele chegasse muito perto."

Desde que ele tinha 3 anos, seu pai o levou a bordo dos navios de pesca que capitaneava.

Quando completou 18 anos, ele conseguiu um emprego em um barco de pesca no sul da Argentina. Ao largo da costa da Patagônia, um dos pescadores mais experientes a bordo deu-lhe um conselho que se tornaria um modo de vida.

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"Vá ver o mundo", disse o pescador. Ballestero passou boa parte de sua vida velejando, com paradas na Venezuela, Sri Lanka, Bali, Havaí, Costa Rica, Brasil, Alasca e Espanha.

Ele identificou tartarugas marinhas e baleias para organizações de conservação e passou os verões trabalhando como capitão a bordo de barcos de propriedade de europeus ricos.

Ele comprou seu veleiro, um Ohlson de 29 pés chamado Skua, em 2017, esperando dar uma volta ao redor do mundo.  "Não tinha medo, mas tinha muita incerteza", disse ele. "Era muito estranho navegar no meio de uma pandemia com a humanidade balançando ao meu redor."

Velejar é uma paixão solitária, e o foi especialmente nessa viagem para Ballestero, que a cada noite ficava em sintonia com as notícias em um rádio por 30 minutos para fazer um balanço de como o vírus estava se espalhando pelo mundo.

"Fiquei pensando se essa seria minha última viagem", disse ele. Ballestero sentiu que estava em uma espécie de quarentena, preso por um fluxo incansável de pensamentos agourentos sobre o que o futuro reserva. "Eu estava trancado em minha própria liberdade", lembrou ele.

Presságios 

Várias semanas depois da viagem, quando seu ânimo estava baixo, Ballestero disse que foi estimulado ao ver animais silvestres que pareciam presságios. Ele encontrou consolo em um grupo de golfinhos que nadavam ao lado de seu barco, dentro e fora, por cerca de 3 mil milhas.

Quando ele estava se aproximando das Américas, uma onda brutal sacudiu o barco a cerca de 300 quilômetros do Brasil, disse ele. Esse episódio o forçou a fazer uma parada não planejada em Vitória, adicionando cerca de 10 dias a uma viagem que ele esperava levar 75 dias.

Durante essa parada, Ballestero soube que seu irmão havia contado a jornalistas na Argentina sobre a viagem. A pedido de amigos, ele criou uma conta no Instagram para documentar a etapa final da viagem.

Quando ele chegou a Mar del Plata, sua terra natal, em 17 de junho, ficou surpreso com as boas-vindas de herói que recebeu. "Entrar no meu porto, onde meu pai tinha seu veleiro, onde ele me ensinou muitas coisas e onde eu aprendi a velejar e onde tudo isso se originou, me deu o sabor de uma missão cumprida", disse ele.

Um médico fez um teste de covid-19 em Ballestero. 72 horas depois, com o teste dando negativo, ele foi autorizado a pisar em solo argentino.

Embora ele não tenha comemorado o aniversário de 90 anos de seu pai em maio, ele chegou em casa a tempo do Dia dos Pais. "O que eu vivi é um sonho", disse Ballestero.  / NYT

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