Com voto sobre Itaipu, Pinochet 'paga' Brasil

Governo Médici exigiu mudança do Chile na ONU em favor de hidrelétrica binacional

Roberto Simon, Especial para O Estado de S.Paulo

05 Setembro 2013 | 02h07

Depois de dar apoio material e político aos conspiradores chilenos que derrubaram o governo socialista de Salvador Allende, a ditadura brasileira apresentou à recém-formada junta militar de Santiago sua fatura: um voto nas Nações Unidas que beneficiaria a construção da usina binacional de Itaipu.

A Argentina havia lançado uma ruidosa campanha internacional contra o projeto da hidrelétrica no Rio Paraná, entre Brasil e Paraguai, exigindo que as obras em Itaipu fossem submetidas, antes, à aprovação de Buenos Aires - era o chamado "princípio da consulta prévia".

O governo brasileiro recusava os termos dos argentinos, ao mesmo tempo em que tocava os trabalhos na fronteira com o Paraguai. O presidente argentino, Juan Domingo Perón, decidiu, então, levar a disputa à Assembleia-Geral das Nações Unidas, onde a diplomacia brasileira, com a reputação manchada pelo apoio ao colonialismo português, acabou isolada. Sem se dar conta do peso que o tema tinha no Brasil, o Chile votou a favor da reivindicação da Argentina, em novembro de 1973, na ONU.

Enfurecido, o governo de Emílio Garrastazu Médici - aliado de primeira hora dos golpistas chilenos - avisou ao regime de Augusto Pinochet: se essa posição se mantivesse, a firme parceria entre Brasília e Santiago seria revista.

"O voto do Chile não apenas inquietou a mim, mas também ao próprio presidente (Médici)", disse o então chanceler brasileiro, Mário Gibson Barbosa, em conversa reservada com o embaixador de Pinochet em Brasília, Hernán Cubillos Leiva, três meses após o bombardeio ao Palácio de la Moneda.

O ministro brasileiro, em seguida, pediu que o Chile adotasse a neutralidade na disputa entre Brasil e Argentina e se abstivesse na votação seguinte na ONU.

"Quero ser muito franco, embaixador. Esse problema (de Itaipu) é vital para o Brasil e nossa futura política com o Chile será consequência da posição que for adotada a esse respeito", disse, sem rodeios, Gibson Barbosa.

O chanceler brasileiro reforçou que não desejava ser a pessoa a "modificar a política de íntima colaboração que estamos buscando com o seu país". "Repito-lhe: uma abstenção de vocês (na ONU) nos satisfaz", disse o ministro de Médici, antes de encerrar a reunião com o emissário chileno em Brasília, desculpando-se pela "franqueza" de sua fala.

Além do apoio político, o Brasil, à época, havia iniciado uma cooperação de "caça a subversivos" com o Chile e preparava um pacote de socorro de pelo menos US$ 85 milhões em financiamentos para tentar tirar a economia chilena da beira do abismo.

Com a faca no pescoço, o regime de Pinochet abandonou os argentinos e absteve-se na segunda votação na ONU sobre Itaipu, como queria o governo Médici.

A decisão de Santiago foi recebida com "enorme satisfação" em Brasília, escreveu o embaixador chileno após consultas com o Itamaraty.

A aliança entre as ditaduras estava mantida. Ao mesmo tempo, diplomatas brasileiros reclamavam do radicalismo de seus colegas chilenos nas Nações Unidas, atitude que só fazia agravar o isolamento do Chile.

Santiago teria enviado à organização, em Nova York, políticos que eram "polemistas brilhantes, mas com muito pouca capacidade de diálogo, que fizeram discursos magistrais que poucos escutaram e quase ninguém leu", disse o chefe da divisão das Nações Unidas do Itamaraty, Marcos Azambuja, ao embaixador em Brasília.

O brasileiro argumentava que, com o golpe de 1973, o Chile ficara sob intensa pressão internacional - "experiência que o Brasil também teve (em 1964)" - e apenas "hábeis negociadores" poderiam reverter essa situação.

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