Comandante assombrará a América Latina

Destino de Cuba e países ao redor do governo bolivariano será influenciado pelas mudanças iminentes na Venezuela

JACKSON DIEHL - THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2013 | 02h06

Imaginem se Barack Obama não comparecesse ao seu juramento - na segunda-feira - e não tivesse sido visto nem houvesse notícias dele há um mês. Imaginem se o vice-presidente Joe Biden informasse à nação que Obama, embora isolado num hospital estrangeiro, continuaria presidente e juraria em alguma data não especificada. Suponham que os pedidos de informação dos republicanos sobre a condição do presidente fossem rejeitados, enquanto Biden e outros dirigentes democratas se acotovelavam com líderes estrangeiros para discutir uma possível transição.

É impossível imaginar uma situação política tão ilegal, assustadora e completamente surreal - a menos que a pessoa seja um cidadão da Venezuela, onde a aparente agonia de Hugo Chávez parece diferente de tudo que mesmo o continente do realismo mágico já viu. A segunda-feira marcou o 42.º dia desde que Chávez partiu para Cuba dizendo que ia se submeter a uma nova cirurgia para o câncer contra o qual vem lutando há mais de 18 meses. Foi o 11º dia desde a extinção de seu mandato presidencial e ele não conseguiu comparecer à inauguração de um novo.

Durante esse tempo, os venezuelanos não ouviram nem leram uma palavra, nem viram uma foto de seu governante - nem sequer um tuíte. Mas seus assessores mais próximos têm ido regularmente a Havana para encontros com Raúl e Fidel Castro, que estão abertamente pilotando a crise da Venezuela. Na semana passada, o vice-presidente de Chávez, Nicolás Maduro, revelou o que disse ser um decreto assinado por Chávez indicando um novo chanceler, o que provocou um debate furioso sobre se a dita assinatura - a coisa mais próxima de um sinal de vida de Chávez desde 10 de dezembro - era autêntica.

Tudo isso seria mais divertido se as apostas não fossem tão altas. A morte de Chávez - se é isso que está prestes a ocorrer - pode abrir caminho para uma mudança sem paralelo numa região que, por uma década, tem estado dividida, e por vezes polarizada, entre democracias em rápido crescimento e modernização como México, Chile e Brasil, e um bloco retrógrado populista, antiamericano e de inclinações autoritárias liderado pela Venezuela. Evidentemente, os modernizadores venceram a batalha ideológica há muito tempo - os índices de popularidade de Chávez entre os latino-americanos são mais baixos que os de qualquer outro líder do hemisfério exceto Fidel Castro.

Graças à riqueza do petróleo da Venezuela, Chávez conseguiu manter unido o bloco que inclui Bolívia, Equador, Nicarágua e, em menor grau, Argentina. Os dirigentes dos países do bloco seguiram o modelo de liderança de Chávez, entrincheirando-se no poder, perseguindo adversários e forjando alianças com o Irã. Eles são bem recompensados por seus esforços: Daniel Ortega recebe e dispõe pessoalmente de US$ 500 milhões por ano de Chávez, uma quantia igual a 7% do Produto Interno Bruto da Nicarágua. Depois, há Cuba: Chávez fornece aos Castros 100 mil barris de petróleo por dia e um subsídio total de mais de 5% do PIB de Cuba.

Sem esse dinheiro, o regime comunista poderá finalmente ruir.

Não estranha que os Castros estejam fazendo tudo que podem para manter viva sua galinha dos ovos de ouro - e tentar instalar outra no poder quando ela se for. O último ato público de Chávez foi nomear para seu sucessor Maduro, que tem sido um protegido cubano desde seus tempos pós-colegiais. Se o regime ignorou a Constituição venezuelana, que pede ao presidente da Assembleia Nacional que assuma quando o líder do Executivo está incapacitado, é porque isso promoveria uma alternativa: Diosdado Cabello, que é mais próximo dos militares venezuelanos que de Havana.

A provável estratégia cubana é aguardar a morte de Chávez, depois esperar que Maduro possa, de um jeito ou de outro, vencer a eleição presidencial precipitada requerida pela Constituição. É uma estratégia um tanto perigosa: o líder da oposição Henrique Capriles, que recebeu 45% dos votos na eleição presidencial de outubro, já apareceu em posição superior a Maduro em pesquisas eleitorais passadas. Mas Brasil e Estados Unidos advertiram o regime contra tentar evitar uma eleição, e Maduro poderá contar com votos de simpatia por Chávez imediatamente após a sua morte.

O governo Obama parece ter se juntado à maior parte da região na aposta de que o regime de Chávez sobreviverá a ele. Funcionários de alto escalão do Departamento de Estado já estiveram em contato com Maduro para discutir maneiras de melhorar as relações entre os dois países.

Quando o representante do Panamá na Organização dos Estados Americanos (OEA) usou uma sessão plenária, na semana passada, para denunciar as manipulações que mantiveram Chávez no cargo, a embaixadora americana Carmen Lomellin replicou que os Estados Unidos não interpretariam a Constituição venezuelana.

Uma vitória da oposição poderia causar uma sublevação em Cuba e a dissolução do bloco populista. Mas talvez não consiga salvar a Venezuela do caos. Quem quer que suceda a Chávez será amaldiçoado por seu legado de 14 anos: uma queda de 50% nas exportações de petróleo que suprem 94% da receita externa da Venezuela; escassez severa de bens de consumo; inflação que atingiu uma taxa anual de 48%; uma quintuplicação dos assassinatos que deixou a Venezuela mais perigosa que o Iraque; e a hemorragia das reservas em moedas estrangeiras que em breve forçará uma dolorosa desvalorização da moeda.

Tragicamente, Chávez pode estar morrendo justo em tempo de transferir a culpa desses desastres a seus sucessores - e assegurando que ele, como Juan Domingos Perón, da Argentina, assombrará seu país por muito tempo após sua morte. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

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