Combate à guerrilha polariza campanha na Colômbia

Os três principais candidatos na eleição presidencial de 1998 defenderam os mesmos princípios para o processo de paz, a começar pela criação de zonas de distensão, num consenso notável que unia a Colômbia. Depois de três anos de experimento, o quadro é outro. A campanha para as eleições de maio, precocemente lançada na semana passada, com o fim do prazo para a desincompatibilização dos candidatos, está dominada pela polarização em torno do tema.O ex-ministro do Desenvolvimento e candidato conservador Augusto Ramírez Ocampo terá de enaltecer os - para a opinião pública - parcos resultados alcançados. As chances do candidato do presidente Andrés Pastrana parecem hoje remotas."(Ernesto) Samper nos deu merda para comer", dizem os colombianos, lembrando o governo desastroso do presidente anterior, acusado de financiar sua campanha com dinheiro do narcotráfico. "Pastrana nos tirou." "Quem hoje se disser a favor do ´bem-sucedido processo de paz´ não se elege nem vereador", sorri o candidato do Partido Liberal, Horacio Serpa. Ele e a candidata conservadora independente Noemí Sanín, no entanto, têm de defender os seus fundamentos, com os quais se comprometeram quando candidatos em 1998.Quem tem nas mãos a oportunidade da diferenciação é o candidato liberal independente Alvaro Uribe. E não pretende desperdiçá-la. "O Estado colombiano precisa recuperar sua autoridade", disse ele ao Grupo Estado na quinta-feira. Sua mensagem é dirigida aos colombianos desgostosos de ver as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) ocupando um território equivalente ao da Suíça para negociar com o governo, ao mesmo tempo em que mantém os massacres a camponeses, as extorsões e seqüestros e a cobrança de "imposto" do narcotráfico.Além de "fortalecer a política de segurança do Estado", Uribe afirmou que, se eleito, imporá a instalação de uma comissão internacional de verificação - hoje rejeitada pelas Farc - na zona de distensão, e a suspensão das hostilidades. "Se cumprirem essas condições, manterei a zona de distensão e promoverei uma generosa reinserção dos guerrilheiros na sociedade, sob a proteção do Estado", declarou o candidato, pelo telefone, em campanha em Bucaramanga, no norte do país. "Se não aceitarem, meu governo recuperará o controle sobre a zona de distensão e buscará a mediação da ONU."A retomada do território equivaleria a uma guerra total contra as Farc? "Hoje é o pior momento da guerra", respondeu Uribe, para quem o fortalecimento do Estado dissuadiria os guerrilheiros de levar adiante o conflito. O candidato, que foi governador da Antioquia, onde criou as cooperativas de segurança privada Conviver, para proteger os empresários das extorsões e seqüestros da guerrilha, é acusado de ligações com os paramilitares.Indagado sobre se tem simpatia por eles, Uribe respondeu apenas: "Tenho simpatia pela autoridade e pelo Estado de Direito, que não existe na Colômbia." Uribe, também filiado ao Partido Liberal, tem crescido nas pesquisas de intenção de voto, mas quem as lidera é Serpa, sua antítese.A suspeita que recai sobre Serpa, que se envolveu com a esquerda revolucionária nos anos 60, é a de simpatia com os guerrilheiros. "Sou solidário com o processo, mas não se pode negociar produzindo uma escalada da violência", disse Serpa ao Grupo Estado. "É preciso firmar um acordo humanitário que vá reduzindo essa aguda confrontação até terminá-la e começar a negociar sobre bases práticas."O candidato sugere que os negociadores estabeleçam sobre o que estão de acordo."Não há, nem do lado das Farc nem do governo, parâmetros para negociar", afirmou. "De um lado e do outro da mesa têm de existir propostas e o ânimo de elucidá-las com um critério patriótico."Serpa prometeu antes das eleições de maio apresentar seu projeto de paz. E adiantou três pressupostos: território indivisível, regime democrático e sistema capitalista. "Todos queremos a solução negociada, que não nos custe vidas", disse Noemí Sanín. "Mas a guerrilha tem de cumprir com sua palavra." A candidata conservadora independente lembra que o Pacto de Los Pozos, firmado em fevereiro, restringia os ataques à população civil, mas eles não só continuaram como houve uma escalada da violência.

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