Michael Reynolds/EFE
Michael Reynolds/EFE

Combate ao coronavírus está acelerando a disseminação de outras doenças

Isolamento social e fechamento de fronteiras diminuiu o índice de pessoas que vão se vacinar; sarampo, por exemplo, está avançando em diversos países

Jan Hoffman e Ruth Maclean, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2020 | 03h00

Enquanto os países pobres de todo o mundo lutam para combater o coronavírus, eles contribuem involuntariamente para novas explosões de surtos e mortes por outras doenças - aquelas que podem ser prontamente prevenidas por vacinas.

Depois que a Organização Mundial da Saúde e o Unicef alertaram que a pandemia poderia se espalhar rapidamente quando as crianças se aglomerassem para tomar as vacinas, muitos países suspenderam seus programas de inoculação. Mesmo nos países que tentaram mantê-los funcionando, os voos de carga com suprimentos de vacinas foram interrompidos pela pandemia e os profissionais de saúde foram redirecionados para combatê-la.

Agora, a difteria está ressurgindo no Paquistão, Bangladesh e Nepal. A cólera vem tomando o Sudão do Sul, Camarões, Moçambique, Iêmen e Bangladesh.

Uma cepa alterada do vírus da pólio foi registrada em mais de 30 países.

E o sarampo está se espalhando por todo o mundo, em regiões como Bangladesh, Brasil, Camboja, República Centro-Africana, Iraque, Casaquistão, Nepal, Nigéria e Usbequistão.

Dos 29 países que suspenderam as campanhas de vacinação contra o sarampo por causa da pandemia, 18 estão relatando surtos. Outros 13 países estão pensando em adiar as campanhas. De acordo com a Iniciativa contra o Sarampo e a Rubéola, 178 milhões de pessoas correm o risco de ficar sem a vacina contra o sarampo em 2020.

O risco agora é que “dentro de alguns meses ocorra uma epidemia que matará mais crianças do que a covid-19”, disse Chibuzo Okonta, presidente da Médicos Sem Fronteiras na África Ocidental e Central.

À medida que a pandemia persiste, a OMS e outros grupos internacionais de saúde pública agora estão pedindo que os países retomem cuidadosamente a vacinação, ao mesmo tempo em que combatem o coronavírus.

Esforço de 20 anos

O que está em jogo é o futuro de um esforço de colaboração de 20 anos que evitou 35 milhões de mortes em 98 países por doenças prevenidas mediante vacinação e que reduziu em 44% a mortalidade entre crianças, de acordo com um estudo de 2019 da Vaccine Impact Modeling Consortium, um grupo de estudiosos de saúde pública.

“A imunização é uma das ferramentas mais poderosas e fundamentais na prevenção de doenças na história da saúde pública”, disse Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor-geral da OMS, em comunicado. “A interrupção dos programas de imunização por causa da pandemia de covid-19 ameaça desintegrar décadas de progresso contra doenças preveníveis por vacina, como o sarampo”.

Mas os obstáculos para a retomada são consideráveis. É difícil encontrar suprimentos de vacina. Os profissionais de saúde estão cada vez mais trabalhando em tempo integral no combate à covid-19, a infecção causada pelo coronavírus. E uma nova onda de hesitação diante das vacinas está mantendo os pais longe das clínicas.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

Muitos países ainda serão atingidos por toda a força da pandemia, o que enfraquecerá ainda mais sua capacidade de lidar com surtos de outras doenças. “Veremos países tentando se recuperar da covid e, logo depois, enfrentando o sarampo. Isso pode exigir ainda mais de seus sistemas de saúde e ter sérias consequências econômicas e humanitárias”, afirmou Robin Nandy, chefe de imunização da Unicef, que fornece vacinas para 100 países, alcançando 45% das crianças menores de 5 anos.

A interrupção da vacinação também tem implicações graves para a proteção contra o próprio coronavírus.

Em uma cúpula global no início deste mês, a Gavi Vaccine Alliance, uma parceria de saúde fundada pela Fundação Bill e Melinda Gates, anunciou que havia recebido garantias de US $ 8,8 bilhões em vacinas básicas para crianças em países pobres e de renda média que estava começando uma projeto para entregar vacinas de covid-19, assim que estas estiverem disponíveis.

Mas os serviços que estão entrando em colapso sob a pandemia “são os mesmos que serão necessários para distribuir a vacina de covid”, alertou Katherine O'Brien, diretora de imunização, vacinas e produtos biológicos da OMS, durante um recente webinar sobre os desafios da imunização.

Este ano, o Congo, segundo maior país da África, lançou um programa nacional de imunização. A urgência não poderia ter sido maior. A epidemia de sarampo no país, iniciada em 2018, continua forte: desde janeiro, registraram-se mais de 60 mil casos e 800 mortes. Agora, o Ebola voltou a se espalhar, juntamente com a tuberculose e a cólera, que assolam o país regularmente.

Existem vacinas para todas essas doenças, embora elas nem sempre estejam disponíveis. No final de 2018, o país deu início a uma iniciativa de imunização em nove províncias. Foi um grande feito de coordenação e, em 2019, o primeiro ano completo de programa, o porcentual de crianças totalmente imunizadas saltou de 42% para 62% em Kinshasa, capital do país.

Programa interrompido 

Nesta primavera, quando o programa estava sendo preparado para o lançamento em todo o país, o coronavírus atacou. As campanhas de vacinação em massa, que muitas vezes convocam centenas de crianças e as colocam próximas em pátios de escolas e mercados, pareciam ser o cenário ideal para a disseminação do coronavírus. Até a imunização de rotina, que geralmente ocorre nas clínicas, tornou-se insustentável em muitas regiões.

As autoridades de saúde do país decidiram permitir que as vacinações continuassem em áreas com casos de sarampo, mas não de coronavírus. No entanto, a pandemia paralisou os voos internacionais que trariam os suprimentos médicos, e várias províncias começaram a ficar sem vacinas contra poliomielite, sarampo e tuberculose.

Quando os suprimentos de imunização finalmente chegaram a Kinshasa, eles não puderam ser transportados pelo país. Os voos domésticos haviam sido suspensos. O transporte terrestre não era viável por causa da má qualidade das estradas. Por fim, uma missão de paz da ONU transportou suprimentos em seus aviões.

O vírus do sarampo se espalha facilmente por via aerossol - pequenas partículas ou gotículas suspensas no ar - e é muito mais contagioso do que o coronavírus, de acordo com especialistas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos.

“Se as pessoas entrarem numa sala onde uma pessoa com sarampo esteve duas horas antes e ninguém foi imunizado, 100% dessas pessoas serão infectadas”, disse a Dra. Yvonne Maldonado, especialista em doenças infecciosas pediátricas na Universidade de Stanford.

Nos países mais pobres, a taxa de mortalidade por sarampo em crianças menores de 5 anos varia entre 3% e 6%; condições como desnutrição ou campos de refugiados superlotados aumentam a taxa. As crianças costumam sucumbir a complicações como pneumonia, encefalite e diarreia grave.

Em 2018, ano mais recente para o qual foram compilados dados em todo o mundo, foram estimados quase 10 milhões de casos de sarampo e 142.300 mortes relacionadas à doença. E, na época, os programas globais de imunização eram mais robustos.

Na Etiópia, antes da pandemia de coronavírus, 91% das crianças receberam a primeira vacina contra sarampo durante visitas de rotina na capital, Adis Abeba, e 29% nas regiões rurais. (Para evitar surtos de uma doença altamente infecciosa como o sarampo, a cobertura ideal é de 95% ou mais, com duas doses da vacina.) Quando veio a pandemia, o país suspendeu a campanha de abril contra o sarampo. Mas o governo continua registrando muitos casos novos.

“Os agentes patogênicos do surto não obedecem às fronteiras”, disse O'Brien, da OMS. “Especialmente o sarampo: sarampo em um lugar significa sarampo em todo lugar”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.