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Combate ao EI migra para campo de batalha virtual

Perda territorial do grupo no Iraque e na Síria força mudança tática e leva extremistas a concentrar esforços no recrutamento online

Claudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 05h00

Com vitórias contra o Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria, os EUA e seus aliados temem que o grupo terrorista centre esforços na expansão de seu “califado virtual”, arregimentando seguidores em todo o mundo pela internet e inspirando ataques como o realizado no ano passado em Nice, no qual 86 pessoas morreram atropeladas por um caminhão de carga.

Essa comunidade cibernética abrange simpatizantes passivos, jihadistas que produzem conteúdo propagandístico e orientam os que decidem usar armas, carros ou facas para cometer atentados em cidades europeias e americanas. No ano passado, o EI abandonou o chamado para que seus seguidores fossem lutar no Iraque e na Síria e ordenou que agissem nos países onde vivem. 

Além do ataque em Nice, a Europa foi alvo, em 2016, de atentados na Alemanha, na Bélgica e em outras cidades francesas, todos cometidos por pessoas que viviam no continente. Nos EUA, a ação semelhante de maior impacto foi o assassinato de 49 pessoas em uma casa noturna de Orlando pelo americano Omar Mateen, filho de imigrantes afegãos, que se radicalizou sem sair do país e declarou lealdade ao EI.

Comandante das forças americanas na região que abrange Iraque, Síria e Afeganistão, o general Joseph Votel vê risco de o EI manter sua influência na internet, mesmo que perca domínio territorial. “Um califado completamente virtual se manifestaria na forma de uma ameaça terrorista expandida, transnacional, de operadores dispersos, mas leais”, escreveu em texto publicado em janeiro pelo Center for a New American Security. 

Mais que qualquer outro grupo terrorista, o EI soube usar o alcance quase ilimitado da internet. Seus jihadistas do teclado realizam vídeos bem acabados para celebrar ataques, alimentam redes sociais e produzem revistas online em inglês.

A perda de território forçou o grupo a adaptar sua narrativa. “A mais evidente mudança foi a substituição da revista Dabiq pela Rumiyah, em setembro”, disse ao Estado o major Rafal Zgryziewicz, especialista em EI do Centro de Excelência para Comunicações Estratégicas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). 

Segundo profecias islâmicas, a cidade síria de Dabiq é o local onde ocorrerá a batalha final entre muçulmanos e cristãos. Prestes a perder o local, o EI rebatizou sua revista de Rumiyah, que significa Roma. “Eles nunca alcançarão Roma e, por isso, podem usá-la por muito mais tempo”, afirmou Zgryziewicz.

As derrotas no mundo real foram acompanhadas de retrocessos no universo virtual. Em encontro de ministros da coalizão de 68 países que combate o EI, em fevereiro, o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, disse que esforços para combater a presença do grupo online levaram a uma redução de 75% do conteúdo produzido pelo EI para a internet. “No mesmo período, o Twitter encerrou 475 mil contas com conteúdo extremista”, disse o secretário.

Tara Maller, do Counter Extremism Project (CEP), avalia que a eliminação de contas não é uma estratégia sustentável de combate à presença do EI online. Em sua opinião, a batalha virtual é tão importante quanto a real porque muitos dos recentes ataques terroristas nos EUA e na Europa foram cometidos por pessoas que nunca viajaram para Iraque ou Síria e foram radicalizadas em seus próprios países por propaganda online.

 

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