''Combate ao terrorismo e Al-Qaeda falharam''

Gilles Kepel: cientista político francês; sociólogo reinterpreta [br]os dois projetos políticos que polarizaram o mundo árabe-muçulmano nos últimos sete anos

Entrevista com

Roberto Simon, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

A eleição de Barack Obama coroa o fim dos sete anos de guerra ao terror. Fracassado, o projeto de democratizar o Oriente Médio pela força, do governo George W. Bush, dará lugar a uma agenda "menos ideal" para a região. Mas os EUA não são os únicos derrotados nessa história. A Al-Qaeda foi incapaz de mobilizar as massas muçulmanas com seu ideal de martírio. Nem mesmo no Iraque, ocupado por mais de 150 mil soldados "infiéis", o discurso jihadista teve sucesso. São essas algumas das opiniões do francês Gilles Kepel, professor da Sciences-Po de Paris e um dos maiores especialistas em Oriente Médio da Europa. Ele conversou com o Estado por telefone.Em seu último livro, "Terreur et Martyre" (?Terror e Martírio?, sem tradução no Brasil) há uma identificação implícita entre os neoconservadores e a Al-Qaeda: ambos pretendiam mudar o Oriente Médio pela força e fracassaram. O senhor poderia explicar essa tese?Dois grandes projetos políticos dominaram o Oriente Médio nos últimos anos. Primeiro, o pensamento neoconservador, encarnado pelo presidente George W. Bush, que pretendia transformar a região perseguindo a Al-Qaeda e, sobretudo, a partir da instalação pela força de uma democracia no Iraque. Isso significaria coibir o desenvolvimento autônomo do mundo árabe, criar uma zona de segurança dos EUA e um ambiente regional favorável a Israel. No Iraque, prevaleceu o discurso da promoção da democracia e da liberdade. Mas aqueles que deveriam "ser libertados" rebelaram-se contra os EUA - o recente ataque com sapatos contra Bush resume essa ironia. O fracasso iraquiano, somado a fatores como a controversa prisão de Guantánamo afrontaram fundamentos da identidade americana e o projeto de Bush ruiu.Então o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, representaria o fim do que ficou conhecido como "guerra ao terror"?Certamente. Sua eleição é o esgotamento dessa lógica de guerra ao terror, de democratização do Oriente Médio a partir da violência em busca de uma área sob a "hegemonia benigna" dos EUA, como queriam os ideólogos do movimento neoconservador desde a era Bill Clinton. Obama tem prioridades completamente diferentes: a retirada do Iraque, um diálogo oficial com o Irã e a intensificação das operações na fronteira entre Afeganistão e Paquistão, onde o Taleban e a Al-Qaeda operam.O outro projeto político que o senhor diz ter sido derrotado é o da Al-Qaeda. Mas, se o grupo ainda atua na região e ameaça o Ocidente, o que exatamente falhou?Assim como os neoconservadores queriam alinhar o Ocidente à posição de Bush, o discurso da Al-Qaeda pretendeu unir as massas muçulmanas sob uma "vanguarda islâmica", como o grupo se auto-proclamava. O objetivo, conclamar as sociedades muçulmanas a construir um Estado islâmico revolucionário na região. Esse projeto fracassou totalmente. As chamadas "operações martírio", os atentados suicidas cometidos ao redor do mundo, não catalisaram as massas muçulmanas. Ainda, para a Al-Qaeda, a invasão do Iraque era uma oportunidade única para atrair o mundo islâmico à jihad - como no Afeganistão (durante a guerra contra a URSS), nos anos 80. Mas ela não se concretizou. Quando jihadistas de países como Egito, Argélia e Paquistão chegaram no Iraque para combater "os cruzados", eles foram vampirizados pelos sunitas locais na guerra civil contra os xiitas.Suspeita-se que a Al-Qaeda trabalhe com o Lashkar-i-Tiba, grupo acusado pelos ataques a Mumbai. Isso altera essa equação?Acredito que em Mumbai houve uma tentativa, da parte de determinados atores, de reposicionar o epicentro da luta contra o terrorismo. Há uma grande pressão na fronteira entre Paquistão e Afeganistão, onde os americanos conseguiram alcançar o Taleban e a Al-Qaeda, com bombas de cacho e pressão. Por causa dessa ofensiva, partes do serviço secreto paquistanês que apóiam o Taleban quiseram deslocar o foco para a fronteira oposta do Paquistão, com a Índia. O Lashkar-i-Taiba de fato treina, produz documentos e opera com a Al-Qaeda.Obama disse que negociará oficialmente com o Irã. O que esperar?As cartas na mesa de negociação entre Washington e Teerã mudaram. Do lado iraniano, (o presidente Mahmud) Ahmadinejad enfrenta problemas internos por causa do ameaçador empobrecimento da população. A queda do preço do petróleo agrava essa situação. Caso Obama ofereça incentivos, haverá uma grande pressão interna para que Ahmadinejad aceite. Do lado americano, é preciso encarar o fato de que Teerã pode complicar muito a retirada do Iraque. Com sua influência direta sobre o Hezbollah e indireta sobre o Hamas, o Irã também determina a situação em Israel.O senhor defende que a Europa é o grande front contra o jihadismo, já que ela poderia consolidar um modelo de convivência viável entre muçulmanos e não muçulmanos. Mas por que o senhor diz que o modelo de integração francês teve mais sucesso?A França conseguiu uma integração cultural de seus muçulmanos. A integração social, porém, não teve tanto sucesso - como os distúrbios nas periferias das grandes cidades, em 2005, evidenciaram. Eles protestavam porque queriam ser franceses, mas a sociedade aqui não permitia. Países que adotaram um modelo "comunitarista", como Grã-Bretanha e Holanda, em que comunidades ficam fechadas em si mesmas, prejudicaram o elo entre seus muçulmanos e a grande sociedade. Nesses países houve radicalização.Na segunda-feira, porém, foram encontrados explosivos em uma loja de Paris. Um suposto grupo afegão assumiu a autoria.Creio que não foram militantes islâmicos dessa desconhecida Frente Revolucionária Afegã (FRA), mas anarquistas.Quem é:Gilles KepelÉ diretor da cátedra e do programa de doutorado em ?Mundo Islâmico? do Instituto de Estudos Políticos de Paris, a Sciences-Po. Lecionou também na Universidade de Nova York e ColumbiaRealizou dois doutorados - em Política e em Sociologia - e parte de seus estudos na Síria e no CairoÉ autor de 11 livros sobre o Oriente Médio, entre eles o recém-lançado ?Terreur et Martyre? (Terror e Martírio)

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