Combate faz de Bin Jawad ''cidade fantasma''

Moradores deixam a região e fogem para o deserto com medo de que município seja bombardeado por forças leais ao regime de Kadafi

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2011 | 00h00

Com 20 mil habitantes, Bin Jawad tornou-se uma cidade fantasma. "Todos os que tinham carro foram embora", disse Abdel-Salam Gobaili, cuja família de 15 membros foi uma das poucas que ficaram. Ele contou que cinco de seus parentes foram mortos. Três eram civis, incluindo uma criança de 9 anos, atingidos em casa pela artilharia de um helicóptero.

Os outros dois eram combatentes rebeldes. Gobaili e seus parentes disseram também que "muitos" jovens foram levados embora ou mortos pelos membros das brigadas leais ao ditador Muamar Kadafi.

Os moradores de Bin Jawad, muitos de origem beduína, fugiram para o deserto no domingo, quando os rebeldes avançaram para retomar a cidade, segundo Gobaili com medo de que ela fosse bombardeada com foguetes pelas forças de Kadafi.

Gobaili, de 47 anos, que trabalha como técnico de materiais na Ras Lanuf Oil Company, garantiu, no entanto, que os moradores apoiam os rebeldes. No dia 6, quando as forças de Kadafi reconquistaram a cidade, contendo o avanço dos rebeldes em direção a oeste, ficou a impressão de que a população local havia se voltado contra os rebeldes.

Franco-atiradores dispararam contra dissidentes do regime de dentro das casas. Gobaili e alguns moradores que começavam a retornar ontem à cidade garantiram, no entanto, que sempre apoiaram os rebeldes.

Segundo Gobaili, quem apoiava Kadafi na cidade era um grupo de imigrantes do Níger e da Mauritânia, que vieram morar em Bin Jawad há cerca de 10 a 15 anos, para trabalhar na refinaria de Ras Lanuf. Ele não soube precisar quantos, mas disse que eram "muitos". Outros moradores disseram que 13 mercenários africanos tinham sido presos pelos rebeldes na véspera.

Enquanto o repórter conversava na porta da casa da família Gobaili, aproximou-se um operário egípcio de 23 anos, chamado Mahmud Mujahed. Ele disse que era a primeira vez em 25 dias que saía de casa. Mujahed, que trabalha numa fábrica de blocos de concreto em Bin Jawad, onde mora há três anos, afirmou que três famílias egípcias ficaram confinadas desde o início da disputa na cidade, com medo de serem capturadas pelas forças do regime de Kadafi.

Na entrada da cidade, repetia-se ontem uma cena que o Estado havia presenciado após a queda de Ajdabiya, no sábado: homens procuravam parentes que teriam sido sequestrados ou executados pelas brigadas pró-Kadafi. Um homem de Ajdabiya afirmou que sabia do caso de seis garotas da cidade que tinham sido raptadas pelos soldados do regime.

Ras Lanuf, conjunto residencial de 2 mil casas para trabalhadores do complexo petroquímico, também estava inteiramente deserta ontem. A cidade está sem água desde o início da ofensiva, há três semanas. Seu único hotel, El-Fadeel, convertido em quartel-general dos rebeldes depois que tomaram a cidade, no dia 4, foi destruído pelas forças de Kadafi.

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