Combate no México expõe fragilidade do Exército

Após quatro anos do início da estratégia de Calderón, militares mostram limitações

Renata Miranda, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

A guerra do presidente mexicano, Felipe Calderón, contra os cartéis do narcotráfico fez mais uma vítima. Quatro anos após o início da estratégia do governo de substituir a polícia por soldados em zonas de conflito, o Exército do México começa a mostrar suas limitações no combate aos traficantes e tem sua antes impecável reputação manchada por uma série de denúncias de violações dos direitos humanos.

A atuação dos militares tem sido até mesmo alvo de duras críticas dos EUA, que, por meio da Iniciativa Mérida, investem US$ 1,4 bilhão no plano de Calderón. "O presidente teve de recorrer ao Exército porque, na época, não tinha outra opção", afirmou ao Estado, por telefone, Jorge Chabat, do Centro de Investigação e Docência Econômicas, na Cidade do México. "O problema é que os militares não estavam preparados para enfrentar grupos dessa natureza, que utilizam táticas de guerrilha no ambiente urbano."

Segundo Chabat, Calderón errou ao não investir em um treinamento especializado para esses soldados. "O governo preferiu não gastar com a preparação do Exército porque acreditava que o trabalho exercido pelos militares seria temporário." Como resultado, apontam especialistas, o número de queixas contra a atuação dos soldados aumentou significativamente no último ano. De acordo com entidades ligadas à proteção dos direitos humanos, as denúncias contra o Exército quase dobraram em comparação aos últimos três anos juntos.

Logo após assumir o poder, em dezembro de 2006, Calderón deu início à ofensiva contra os cartéis, enviando mais de 50 mil soldados e outros 30 mil policiais federais para as áreas de atuação dos grupos criminosos. Quatro anos depois, a luta contra o tráfico fez com que a violência no país atingisse níveis catastróficos, deixando quase 35 mil mortos.

Diante da ineficiência do Exército em realizar operações em algumas partes do país, o governo decidiu substituir os soldados em Ciudad Juárez, considerada a cidade mais perigosa do México, por policiais federais.

"Os moradores de Ciudad Juárez pediram a retirada do Exército porque acharam que a presença dos soldados na região só aumentou a violência, sem trazer soluções concretas para o problema", explicou Roderic Ai Camp, especialista em temas militares da Faculdade Claremont McKenna, na Califórnia.

O descontentamento com a atuação do Exército no combate aos cartéis não é limitado apenas à população mexicana. Documentos secretos da diplomacia americana revelados recentemente pelo WikiLeaks mostram a inquietação do governo dos EUA em relação aos militares mexicanos. Diplomatas americanos afirmam que há uma grande desconfiança entre o Exército e a polícia, que se recusam a compartilhar informações de inteligência e resistem em trabalhar em conjunto, prejudicando assim operações importantes.

Dessa maneira, o governo americano passou a deixar o Exército de lado e hoje tem uma cooperação muito mais estreita com a Marinha, classificada por Washington como "pronta e capaz". "Este episódio só evidencia a falta de coordenação e coerência no setor de segurança pública do México", disse Erubiel Tirado, especialista em segurança da Universidade Ibero-Americana.

Ajuda colombiana. Para tentar reverter o atual quadro, o governo do México começou uma parceria com a Colômbia para treinar soldados e policiais mexicanos. De acordo com o jornal The Washington Post, cerca de 7 mil integrantes das forças de segurança do México já participaram do treinamento.

"O México tem hoje o que tínhamos havia alguns anos: cartéis muito poderosos", afirmou o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, em uma recente entrevista. "O que nós podemos fornecer é a experiência que nós tivemos em desmontar essas cartéis, treinando funcionários da inteligência do país e a polícia judiciária." A Colômbia ainda é a principal produtora de cocaína no mundo e ainda tem grupos criminosos que lutam pelo controle das rotas do tráfico. No entanto, a violência relacionada ao narcotráfico diminuiu nos últimos anos e os cartéis sofreram duros golpes em operações do governo.

Para o consultor em segurança Mario González-Román, diretor do site SecurityCornerMexico.com, entretanto, o treinamento de tropas mexicanas na Colômbia pode ser um erro. "É errado comparar o problema do México com outros países porque são realidades diferentes", disse González-Román.

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